Cinema

Crítica | Extermínio: O Templo dos Ossos testa os limites da própria franquia

O Templo dos Ossos vale pouco como filme, nada como “mensagem” e se não é um vexame total, deve isso ao esforço sobre-humano de Fiennes

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
5 min de leitura
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Até onde se consegue chegar a partir de um conceito simples (elementar, esquemático…) e que pouco tem de realmente original? 

Um roteiro cinematográfico de longa-metragem costuma ter entre 80 e 150 páginas. Expandir o conceito presente num primeiro filme para toda uma sucessão de novos produtos significa, em resumo, esticar essas páginas iniciais para outras 500, 600, mil páginas… Nem sempre isso é possível e – especialmente – nem sempre isso é recomendável (ao menos do ponto de vista dramatúrgico). Uma coisa é você pegar meia dúzia de personagens altamente dimensionáveis, estabelecer relações entre eles e ir desenvolvendo isso até o limite – como acontece nos bons seriados. Outra bem diferente é você pegar um conceito simples e não exatamente original e querer tirar deles cinco outros filmes. 

Esta é precisamente a questão a respeito da franquia Extermínio, que chega agora ao seu quarto filme com este O Templo dos Ossos, em 2026.

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A ideia central de Extermínio é bem conhecida não só porque os filmes têm sido um sucesso até agora mas também porque ela é uma ideia repetida à exaustão nos últimos 20 anos: o que aconteceria se algum “vírus” mortal (ou qualquer outro tipo de disseminação) atacasse a população, convertendo os infectados em zumbis e levando os restantes vivos a uma batalha permanente por sobrevivência? Bem, isso soa familiar ao espectador porque é um conceito tão repetido que dificilmente cria expectativas de novidade – limitando-se hoje em boa parte dos filmes que usam a premissa a repetir e “re-explorar” os chavões conhecidos num jogo de cartas marcadas com a audiência.

O Extermínio original apoiava-se na abordagem meio “indie” de Danny Boyle, em seu estilo meio “marginal”, mas isso foi se perdendo ao longo do trajeto e agora, quando chega ao quarto filme nas mãos de outra realizadora (Nia DaCosta, de As Marvels), tudo que temos é um produto altamente pasteurizado da indústria que se vale de elementos tradicionais do cinema de exploração para maquiar um espetáculo corriqueiro que em alguns momentos flerta com o ridículo.

A trama abre com três linhas de ação que, como são fracas cada uma por si só, necessariamente irão se cruzar depois de 15 minutos. Temos então a gangue dos Jimmies, que viaja barbarizando suas vítimas; Dr. Kelson e seu ossário que funciona como fortaleza pessoal de solidão; e uma família que tenta levar a vida enquanto se aventura na floresta evitando os zumbis. Entre eles, aparece a figura do garoto Spike (puxando o fio narrativo do filme anterior), que vai tentar segurar a trama nas costas e conduzi-la por quase duas horas (ainda que passivo e apavorado a maior parte do tempo, lembrando nesse sentido o Super-Homem da temporada 2025).

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As referências do roteiro de Alex Garland são bastante evidentes: a gangue é tirada diretamente do universo de Antony Burgess e o Laranja Mecânica de Kubrick (com uma pitada de A Cidade dos Amaldiçoados nas perucas loiras), mas os delinquentes agem ainda mais influenciados por todo um espírito setentista de Quadrilha de Sádicos (o clássico de 1977 dirigido por Wes Craven). A violência gráfica que chegou ao ápice na década de 1970 tinha sua lógica interna e externa: era meio de expressão da contracultura (testando os limites do que se podia ou não mostrar em um filme comercial), ao mesmo tempo que se oferecia como alternativa barata de um cinema fora de eixo, que precisava de um diferencial para entrar no circuito e estava disposto a coisas que a indústria internamente repudiava (notadamente, sexo e violência gráfica extrema). 

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Mas o que dizer da violência incômoda e exagerada presente aqui? Ela é expressão contracultural? Certamente, não, pois há violência por todo lugar dentro dos filmes hoje em dia: a “novidade” ficou para trás. Ela é meio de um filme independente abrir espaço “à força” dentro do circuito (como no caso do cinema de exploração setentista)? Absolutamente, não: Extermínio: O Templo dos Ossos é um produto tipicamente industrial e tem todo o marketing capitalista milionário a seu dispor. Então, a violência aqui é mero exibicionismo e apelação, mas acaba sendo o pouco que se destaca (embora negativamente) num filme cujo enredo tem quase nada a acrescentar ao que já foi oferecido antes.

Conforme já ocorria no filme anterior, aqui a verossimilhança é espancada em favor da preguiça do enredo. Vou dar apenas um exemplo: a família que é seviciada pela gangue dos loiros está acostumada a enfrentar e escapar dos zumbis – por princípio, todos que sobrevivem são aptos a essa lei da selva, do contrário já teriam morrido. Mas ela é facilmente subjugada por meia dúzia de adolescentes esquálidos apenas porque o filme precisa disso para andar para frente. E o que dizer do vexame ao qual é submetido o excepcional Ralph Fiennes, obrigado a preencher o vazio dramático de seu personagem dançando (sim!) com um zumbi que oscila entre estar nu (e chapado), usar um sarongue (chapado) e estar nu novamente (agora talvez sóbrio, sem que isso tenha a mais pálida lógica dentro do enredo)?

Sem muito material com o qual trabalhar, o filme varia entre a correria, o papo furado e a violência gráfica (esta, o último e célebre refúgio atual dos filmes que não têm nada a dizer, que na verdade não têm enredo para preencher 90 páginas decentemente). Claro que perfurar a pele humana, dar um banho de sangue numa criança ou mostrar vísceras parece “chocante”: e, de fato, é. Mas pouco ou nada tem a ver com bom cinema – é apenas narcisismo de um estilo vazio e repetitivo. E jogar uma ou outra linha de diálogo em latim soa artificial e pedante e só reforça o vazio dramático.

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Ademais, nada disso importa aos fãs da franquia, que devem achar algum atrativo em revisitar temas, situações e personagens já bem conhecidos, no mesmo limitado universo de imaginação, pela enésima vez. O Templo dos Ossos vale pouco como filme, nada como “mensagem” e se não é um vexame total, deve isso ao esforço sobre-humano de Fiennes: ele sim mereceria um templo inteiro (não de ossos, mas de cenas bem escritas) à altura de seu talento.

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