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Duo mascarado vira símbolo contra conteúdo de IA e viraliza na gen Z

Angine de Poitrine lidera onda analógica que também explica o sucesso de A Odisseia e o crescimento das vendas de vinil.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
4 min de leitura

O antídoto humano contra a enxurrada de conteúdo feito por IA tem nome: Angine de Poitrine

Enquanto algoritmos de inteligência artificial inundam plataformas de streaming com música e imagens geradas em segundos, um duo mascarado do interior de Quebec virou símbolo de um movimento oposto. Angine de Poitrine, formado pelos músicos que assinam como Khn e Klek de Poitrine, se apresenta coberto por máscaras de papel machê com narizes exagerados e trajes de bolinhas pretas e brancas, tocando um instrumento híbrido de guitarra e baixo construído à mão, com trastes de quarto de tom e sem marcação no braço. O resultado soa como se White Stripes, Frank Zappa e Cirque du Soleil tivessem formado uma banda.

De piada interna a fenômeno global

A dupla nasceu em Saguenay, região do norte de Quebec conhecida pelos fiordes e pelas populações de belugas, e toca junta havia duas décadas antes de adotar os disfarces. A ideia surgiu de forma quase acidental: impedidos de tocar duas semanas seguidas na mesma casa de show sob o mesmo nome, eles decidiram se apresentar uma vez como eles mesmos e outra fantasiados. O disfarce colou, e os dois nunca mais revelaram os rostos.

O salto para o reconhecimento internacional aconteceu no início de 2026, quando uma apresentação gravada para a rádio americana KEXP durante o festival Trans Musicales, na França, viralizou e ultrapassou a marca de milhões de visualizações. De ato cult do circuito de festivais quebequense, a banda passou a lotar casas de show pela Europa e a receber elogios de nomes como Dave Grohl.

Um sintoma de algo maior que uma banda

O sucesso de Angine de Poitrine não é um caso isolado. Ele se encaixa em um movimento mais amplo de retomada do analógico entre a geração que cresceu com celular na mão. Vendas de vinil, cadernos de papel, câmeras fotográficas antigas, jogos de tabuleiro e livros físicos crescem ano após ano nos Estados Unidos, e o público mais jovem lidera essa curva, não os adultos nostálgicos dos anos 1980 e 1990.

O fenômeno também aparece nas salas de cinema. Tim Richards, fundador e CEO da Vue, maior rede de cinemas da Europa, descreve o primeiro trimestre de 2026 da empresa como maior que todo o ano anterior somado, com o público de Geração Z crescendo cerca de 30% no último ano. Para ele, ir ao cinema virou uma forma de desconexão forçada em um mundo hiperconectado.

Essa lógica também explica parte do sucesso de A Odisseia, de Christopher Nolan, que ultrapassou US$ 1 bilhão em bilheteria global. O filme foi rodado inteiramente em película, em um barco real, no oceano real, por um diretor que afirma não usar e-mail. Para Richards, a produção resume o desejo crescente do público por algo tangível e genuinamente humano, um sinal do que ele chama de nova era de ouro do cinema.

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Rádio universitária, livrarias e feiras vintage também sentem o efeito

O interesse por experiências fora da tela aparece em lugares menos óbvios. Rev. Moose, que dirige a agência musical independente Marauder e fundou a Associação Nacional de Casas de Show Independentes dos Estados Unidos, cita o caso de uma rádio universitária no Colorado que viu sua audiência crescer de forma expressiva no último ano, oferecendo uma alternativa ao algoritmo das plataformas de streaming.

Livrarias independentes cresceram 70% nos Estados Unidos desde 2020, feiras de artigos vintage se multiplicam e zines japoneses voltaram a circular entre jovens colecionadores. As vendas de vinil nos Estados Unidos ultrapassaram US$ 1 bilhão em 2025, puxadas justamente pelo público mais novo, que trata o formato não como nostalgia, mas como uma experiência nova.

O maior engano sobre esse movimento é achar que ele rejeita o digital. Não é bem assim: as mesmas pessoas que compram vinil também usam serviços de streaming, e quem escreve em caderno físico também trabalha no computador o dia inteiro. A escolha pelo analógico funciona como complemento, não como recusa, e Angine de Poitrine, com seus shows esgotados e seu instrumento artesanal, virou a trilha sonora perfeita para esse momento.

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