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Crítica | Extremis

Pode parecer que não, mas documentários são extremamente difíceis de serem realizados. Entre as diversas formas de se fazer um filme do gênero, há o cinema direto – muito comumente confundido com o cinema verdade. Batizado pelo teórico Dziga Vertov, a teoria define essa forma de documentário como “crua” trazendo a realidade e verdade tal qual ela é. Ou seja, ao contrário da maioria dos documentários, não há a presença verbal do realizador com entrevistas posadas ou captações ensaiadas seja de cunho experimental ou verídico.

Extremis é um desses documentários do cinema verdade, um formato muito audacioso e dificílimo de ser trabalhado a favor de um discurso, já que o cineasta tem de se valer de diversas subjetividades para que o espectador compreenda a sua mensagem. Ou apenas trabalhe com temas fortíssimos – como ocorre aqui.

O documentário em curta-metragem é a aposta principal da Netflix disputar o Oscar pela categoria. Nele, acompanhamos alguns médicos atendendo e confortando pacientes terminais da UTI que precisam fazer a escolha mais dolorosa de suas vidas: se submeter a viver em um estado vegetativo através de uma máquina respiratória anexada por uma traqueostomia ou desligar o respirador comum e esperar pela morte.

Nisso, temos cinco pacientes que são acompanhados pelo cineasta Dan Krauss. A câmera discreta evita invadir tamanho espaço de tristeza e desespero velado. Então o que vale é pouco tempo de espaço amostral oferecido. Nos compadecemos ali pela dor da família angustiada e também pelo olhar melancólico de quem é confrontado com a plena certeza da morte. Logo, as palavras são um privilégio narrativo que esse filme dispensa graças ao poder imagético.

Krauss monta o curta intercalando as reuniões complicadas dos médicos discutindo o que seria ético fazer diante de tal situação, além das conversas com e entre as famílias dos moribundos. Às vezes, se vale de enquadramentos bem inteligentes, com passagens de foco, para dizer muito dependendo da sensibilidade do espectador.

O problema reside na escolha equivocada por um curta metragem. O assunto tratado renderia com facilidade um longa, além de ter maior aprofundamento em diversos dos assuntos e personagens abordados por Krauss. O longa termina sem deixar conclusão de diversos pacientes que aparecem em poucos minutos – apenas dois têm um desfecho. Enfim, o defeito maior reside na falta de aprofundamento nos casos retratados. Mesmo no cinema direto, é possível encaixar maior ênfase no tema estudado, porém são necessários mais minutos.

Extremis é um curta emocionante que aborda um dos assuntos mais intrigantes de todos: a morte. Com seus 24 minutos, é capaz de entregar uma mensagem muito forte, além de abordar elementos relevantes para a carreira médica e tocar sutilmente a polêmica da eutanásia. Uma pena sua duração seja tão curta quanto a vida restante dos pacientes retratados. No mais, é um filme que merece ser visto e que, provavelmente, te marcará.

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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