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Crítica | Fargo: Uma Comédia de Erros – Uma aula de humor negro

Tensão e humor na imperdível obra dos irmãos Coen.

Guilherme Coral
Guilherme Coral Redação
24 de junho de 2018 · 3 min de leitura
Crítica | Fargo: Uma Comédia de Erros – Uma aula de humor negro

O primeiro elemento que nos recebe na obra dos irmãos Coen é o comunicado de que ela foi baseada em acontecimentos reais. Apesar disso, Fargo: Uma Comédia de Erros nos tira do lugar comum, nos entregando uma história nada menos que imprevisível, na qual cada ação é, ao mesmo tempo, plausível e inacreditável.

O filme nos conta a história de Jerry Lundegaard (William H. Macy), um inseguro pai de família que, endividado, bola um plano nada convencional para conseguir dinheiro de seu sogro rico. Sua ideia é ter sua esposa raptada para que o dinheiro do resgate seja fornecido pelo sogro – assim, Jerry dividiria com os sequestradores contratados a quantia. Não é preciso dizer que os planos não seguem seu caminho esperado e que o filme constrói grande parte de sua tensão a partir dos inúmeros imprevistos ocorridos.

O trunfo do roteiro de Fargo, contudo, se apresenta na construção de seus personagens. Há uma grande simplicidade em cada um deles, garantindo reações únicas a cada um dos acontecimentos. Em uma cena na primeira meia hora do longa-metragem, por exemplo, dois policiais conversam casualmente sobre o assassinato que testemunham – três corpos estão diante deles e o tom de voz (carregado pelo sotaque interiorano) não sofre a menor mudança, como se a paz daquele lugar jamais tivesse sido abalada. O destaque aqui vai para Frances McDormand, no papel da detetive Gunderson, que simboliza esta paz da região.

Ao mesmo tempo temos o cada vez mais nervoso Lundegaard, também retratado de forma brilhante por William H. Macy. A insegurança de seu personagem chega a ser palpável, ao ponto que fica claro a impossibilidade de qualquer um de seus planos não sair de seu controle. Isso se intensifica ainda mais devido à dupla encarregada do rapto – um sujeito que cheira à inexperiência (interpretado por Steve Buscemi) e um completo psicopata silencioso (Peter Stormare). Dessa forma, os irmãos Coen desenvolvem a tensão crescente de seu filme, dividindo o foco em três narrativas complementares, cada uma desenvolvendo um humor através do foco em personalidades distintas – cada uma mais singular que a outra.

O humor e a tensão dividem espaço com a sensação de solidão, criada pelos cenários invernais, repletos de neve e neblina. O frio cria o oposto do aconchego gerado pela simplicidade dos personagens da subtrama policial. Amplificando tal sensação, a montagem realiza diversas transições utilizando o fade trabalhando ainda com a monotonia que é expressada pela relação entre Gunderson e seu marido.

Fargo é uma obra de roteiro impecável e execução singular que consegue criar diferentes reações do espectador, conseguindo trazê-lo para dentro do filme, imergindo-o completamente. Seu trabalho com três narrativas paralelas garante uma dinâmica única ao filme que é, ao mesmo tempo veloz e lento sem, jamais, perder a harmonia. Definitivamente possui material o suficiente para ser explorado na recente adaptação para série televisiva, ainda que seja uma aposta arriscada. É um filme imperdível que nos deixa com a dúvida se aqueles eventos realmente ocorreram.

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Fargo: Uma Comédia de Erros (Fargo, EUA/ Reino Unido -1996)

Direção: Joel Coen, Ethan Coen
Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen
Elenco: William H. Macy, Frances McDormand, Steve Buscemi, Peter Stormare, Kristin Rudrüd, Harve Presnell, Tony Denman, Gary Houston, Melissa Peterman, Steve Reevis
Gênero: Drama, Comédia

Duração: 98 min

Leia mais sobre Fargo

Tags: #Ethan Coen #Fargo #Frances McDormand #Joel Coen #Peter Stormare #Steve Buscemi #William H. Macy
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Guilherme Coral
Escrito por

Guilherme Coral

Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.

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