Crítica | Five Nights at Freddy’s 2 é horror de interesse apenas para aficionados
Para não dizer que FNAF2 é totalmente desprovido de méritos, é justo destacar a preocupação em mostrar efeitos especiais bons.

Temos hoje na indústria cinematográfica ao menos três gêneros que funcionam de maneira própria: o horror, a fantasia e o filme de super-herói. Nos três casos, os títulos têm sido celebrados menos por suas qualidades intrinsecamente cinematográficas e mais pela forma e dimensão através das quais eles se relacionam com uma autêntica comunidade de fãs. Em muitos casos, tais comunidades funcionam como verdadeiras “torcidas organizadas”, impulsionando os filmes em redes sociais, estendendo suas carreiras no circuito exibidor e repetindo o burburinho da estreia nas plataformas de streamings. Tais filmes são julgados menos pelo que apresentam efetivamente na tela e mais pela acuidade e perspicácia em se relacionar com elementos “extrafilme”, como as relações dos enredos e personagens com outros filmes dentro de uma franquia ou com livros e jogos previamente existentes.
Este último é o caso da franquia que se desenha agora com Five Nights at Freddy’s, que parte de um videogame de sucesso criado por Scott Cawthon e que ganha adeptos há mais de uma década.
O filme parece banal para o espectador que não é fã do universo do jogo
Cinematograficamente falando, Five Nights at Freddy’s 2 (FNAF2) é um filme bastante corriqueiro ao qual faltam elementos fundamentais para o gênero: o suspense é praticado timidamente, sendo a maior parte do tempo corroído por conflitos pouco atraentes entre os personagens; e o mistério é praticamente inexistente – o que é importante ser conhecido parece bastante claro desde o início, e as eventuais revelações que a trama apresenta são secundárias dentro do próprio espetáculo. O que sobra ao filme é uma repetição menos original e mais aborrecida da fórmula exaustivamente demonstrada em franquias como Premonição e Jogos Mortais, nas quais o espectador já sabe o que irá acontecer e todo o atrativo se resume a como e em qual momento cada morte irá acontecer.
O gênero de horror tem se revelado uma aposta econômica relativamente segura e menos arriscada que outros: não existe uma “torcida organizada” para filmes dramáticos, por exemplo, quando cada novo lançamento parece muito mais com um salto no escuro do mercado. Um filme de horror, entretanto, auxiliado pelo fato de que o elenco pode ser mais desconhecido (e barato) e seu lançamento será turbinado pela comunidade, aparece como um tiro mais certeiro. O primeiro FNAF (de 2023) custou 20 milhões de dólares segundo o IMDB, tendo arrecadado quase 300 milhões de dólares em todo o mundo – uma relação impressionante entre despesa e retorno. Não será surpresa que sua continuação faça desempenho semelhante e a cena pós-créditos deixa engatilhada uma terceira parte que não deve demorar.
Visual do filme é caprichado e realista
Para não dizer que FNAF2 é totalmente desprovido de méritos, é justo destacar a preocupação em mostrar efeitos especiais bastante orgânicos, privilegiando seu aspecto mecânico e escondendo exemplarmente qualquer intervenção digital. A fotografia tem textura e a ambientação, sua vivacidade, embora estejamos na verdade diante de mais uma abordagem nostálgica à moda de Stranger Things, na habitual caracterização algo idealizada das décadas finais do século 20 (especialmente a dos anos 1980) e que cada vez mais adquire a aparência de uma neurose coletiva.
Para quem acha e espera do cinema algo mais do que isso e não pensa que um filme deva ser algum tipo de “resposta cultural” à mera demanda provocada por outros filmes, livros ou jogos, FNAF2 vai parecer tediosamente medíocre. Para quem, por outro lado, é interessado no universo que dá origem ao filme, os códigos apresentados podem de alguma forma estimular o diálogo interno de sua comunidade, e o resultado oferecer alguma satisfação no final da projeção. Dizer que tal satisfação é, contudo, especificamente “cinematográfica” (e não mesmo “sociológica” ou mesmo “psicológica”) é um exagero (e uma desconsideração à própria arte do cinema) que este texto não irá cometer.