Crítica | Foi Apenas um Acidente é tragicomédia sobre a brutal ditadura no Irã
Talvez por este motivo, Foi Apenas Um Acidente seja mais bem digerido pelo público em geral, mas algo decepcionante para os aficionados

A briga pelo Oscar de Melhor Filme Internacional promete ser duríssima em 2026 e Foi Apenas Um Acidente (vencedor da Palma de Ouro este ano) deve dar trabalho para seus concorrentes, tais como o brasileiro O Agente Secreto, o sul coreano Não Há Outra Escolha e o norueguês Valor Sentimental. Embora o clima de “copa do mundo” costume agitar a comunidade cinematográfica no Brasil, reduzir filmes (fenômenos culturais altamente complexos) a peças de uma disputa que mais se assemelha ao desporto é uma distorção e uma redução bem infantilizada, mas não necessariamente estranha – em 2025, foi precisamente o que vimos na disputa entre o vencedor brasileiro Ainda Estou Aqui e o concorrente francês, Emília Pérez, com momentos altamente constrangedores de “provocações” e “torcida” que beiravam o ridículo.
Diretor já esteve condenado e preso por questionar o regime
Por uma contingência regimental, o filme de Jafar Panahi também concorre pela França, uma vez que jamais seria aceito pelo brutal regime iraniano, uma ditadura teocrática que odeia dissidentes (especialmente quando estes são artistas como Panahi, que já chegou a ficar alguns anos preso por suas críticas à ditadura). Foi Apenas Um Acidente não se debruça sobre alguma “tirania imaginária”, tampouco outra que tenha terminado décadas atrás: é um grito vivo contra uma que aparece neste momento em pleno funcionamento, uma máquina policial de opressão baseada na fé cega e em códigos de conduta determinados por uma elite burocrática e uma massa de fanáticos dispostos a também oprimir seus compatriotas em suposta proteção ao Islã – e que, por mais irônico que pareça, encontra apoiadores até mesmo na América do Sul, um continente atormentando por suas próprias ditaduras de direita e de esquerda ao longo da História.
A filmografia de Jafar Panahi é uma das mais ricas da História do Cinema no oriente e ele é seguramente um dos mais importantes realizadores vivos. Embora esteja longe de ser um mau filme, Foi Apenas Um Acidente é um título menor exatamente pelo fato de que a concorrência interna na carreira do cineasta é de um nível muito alto. Filmes como O Espelho (a seu modo, um dos “plot twists” mais desconcertantes de todos os tempos), Isto Não É Um Filme (sufocante mistura de ficção e vida real) e Táxi Teerã (uma provocação deliciosamente perigosa) são altamente disruptivos, coisa que não acontece com seu título de 2025: uma tragicomédia algo teatral (lembrando por vezes A Morte e a Donzela, de Roman Polanski) e que se apoia num evento único para desenvolver o enredo.
O Oscar de Panahi deveria ter vindo muito antes, mas este é um hábito recorrente dentro da indústria: o reconhecimento não é imediato, concedido muitas vezes de forma extemporânea pelo “conjunto da obra até então”. Tal princípio informal vale também para P.T .Anderson, por exemplo (que já fez filmes muito melhores que o caricato e previsível Uma Batalha Após a Outra) ou mesmo para Walter Salles (Ainda Estou Aqui está longe de ser seu melhor filme e ainda assim foi o mais laureado).
Abordagem é mais tradicional que a de outros filmes do diretor
Na trama, um acidente banal dá início a uma curta jornada de revelação e vingança, enquanto um grupo de ex-vítimas de tortura num incidente de reclamação por falta de salários conduz uma desventura “brancaleônica” pelos subúrbios de uma grande cidade iraniana. Nessa jornada, os personagens enfrentam conflitos internos, precisam se safar de entraves burocráticos ao mesmo tempo que tentam tirar a dúvida: é aquele homem o verdadeiro torturador de seu passado?
O enredo acaba lembrando mais outros filmes iranianos (tais como os de Asghar Farhadi, já premiado duas vezes pela Academia) que outros da filmografia de Panahi, na qual a metalinguagem é a reflexão provocativa a respeito do próprio ato de filmar (que não é só estético mas, ao menos no caso do Irã, altamente político). Aqui não há quebra de “quarta parede”, Jafar não aparece como ator e o cinema em si não funciona como “personagem” da trama, em um registro mais narrativo e realista tradicional.
Talvez por este motivo, Foi Apenas Um Acidente seja mais bem digerido pelo público em geral, mas algo decepcionante para os aficionados mais assíduos do cineasta – o que, entretanto, não diminui a ousadia do cineasta como célebre representante de toda uma cinematografia habituada a existir diante do caos e da opressão constantes.