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Crítica | Glória Feita de Sangue

A primeira obra-prima de Stanley Kubrick

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
30 de abril de 2017 · 6 min de leitura
Crítica | Glória Feita de Sangue

É um fato curioso na história do Cinema que ao longo dos anos quase toda a atenção de roteiristas, produtores, diretores e atores esteve voltada para a Segunda Guerra Mundial em detrimento da Primeira. Talvez uns dos motivos que expliquem essa preferência sejam o maior número de mortos (50 milhões morreram na Segunda Guerra e 30 milhões na Primeira) e o poder cinematográfico que as atrocidades perpetradas pelo Nazismo possuem. Mas seja lá qual forem as razões desse preterimento, a verdade é que as duas guerras produziram um número parecido de obras-primas, e, se filmes como A Lista de Schindler, Além da Linha Vermelha e O Pianista fizeram a cabeça do público recentemente, obras mais antigas como Sem Novidades no Front, A Grande Ilusão e este Glória Feita de Sangue estão aí para provar que a Primeira Guerra é capaz de impactar tanto quanto a Segunda.

O roteiro, adaptado por Kubrick e Jim Thompson do livro homônimo de Humphrey Cobb, conta a história de um ataque suicida planejado pelos generais George Broulard (Adolphe Menjou) e Paul Mireau (George Macready) do exército francês. O responsável por colocar o plano em ação é o Coronel Dax (Kirk Douglas). Após a primeira leva de soldados fracassar, o pelotão comandado pelo Sargento Roget (Wayne Morris) decide não avançar. Vendo a recusa em seguir em frente dos comandados, o General Mireau decide abrir fogo contra o grupo, mas como tem o seu pedido recusado, ele exige a criação de um tribunal de exceção para que alguns soldados sejam julgados por insubordinação e covardia. Inconformado com a arbitrariedade da decisão, o Coronel Dax, que também é advogado, decide defender os acusados.

Uma das grandes forças do filme é o seu protagonista. Corajoso, o Coronel Dax é também um homem intelectualizado e ciente do papel que exerce. O momento em que ele cita uma frase pejorativa de Samuel Johnson sobre o patriotismo não só ilustra o nível das suas leituras como mostra que, independentemente de concordar com a opinião do filósofo inglês, ainda assim ele aceita de bom grado a missão que lhe é incumbida, o que mostra tanto o seu caráter quanto o processo de auto conscientização pelo qual passou para entender a importância de sua presença e de suas decisões dentro do conflito. Além disso, quando a situação foge do controle, ele se dispõe a defender os soldados no tribunal, mesmo que isso lhe custe a carreira, tudo em nome da ética e dos ideais que defende.

Aliás, a discussão entre idealização e praticidade é uma das principais preocupações temáticas do filme. Embora não afirme categoricamente, a conclusão que a obra chega é a de que uma situação tão complexa e, por incrível que pareça, burocrática como a guerra não tem espaço para ideais de conduta. Um momento que funciona como analogia dessa “tese” é a brilhante cena final onde as batidas marciais que permeiam todo o filme dão lugar ao doce canto da personagem interpretada por Susanne Christiane Kubrick (ela viria a se tornar a esposa do diretor), uma alemã cuja voz comove inúmeros soldados franceses, apenas para momentos depois eles terem de voltar às suas obrigações e os tambores de guerra retornarem com toda a força. Ou seja, a paz idealizada por tantas pessoas é momentânea e rapidamente obliterada pela necessidade de continuar com a luta.

Uma outra inquietação do filme é a de que no final é sempre o sujeito com menos poder que paga o preço das decisões tomadas pelos seus superiores. Esse desnível entre os cargos é muito bem ilustrado pelo design de produção: enquanto a sala do General Mireau e o recinto em que ocorre o julgamento são ambientes suntuosos e amplos (aqui, a equipe de som realiza um excelente trabalho ao fazer ecoar por todo o espaço as falas dos personagens), o “quartel” improvisado por Dax e a prisão na qual são jogados os soldados são paupérrimos e até mesmo sujos. Um momento que também exibe essa disparidade é a sequência de imagens que mostram o General Mireau pedindo para atirar contra o próprio exército da base segura em que se encontra, o oficial que recusa o pedido sentado numa cadeira apenas com os dedos no ouvido para que o barulho das explosões não o impossibilite de ouvir o que o general diz e os soldados lutando e morrendo em pleno campo de batalha.

E o que dizer do trabalho realizado por Stanley Kubrick? Se nos longos diálogos há por parte do diretor o mesmo rigor técnico apresentado em O Grande Golpe, são nas cenas do reconhecimento inicial do local ocupado pelas tropas inimigas e da única batalha presente no filme que o cineasta, ao lado de George Krause, o diretor de fotografia, são realmente brilhantes. Na primeira, a apreensão é criada com exuberância pela fotografia escura e pelos close ups retratando o medo sentido pelos personagens. Há também o auxílio do plano subjetivo que mantém distante a figura de um dos soldados que tinha caminhado até o território hostil, o que faz com que o público não enxergue completamente o que está acontecendo; na segunda, por sua vez, o travelling e o zoom in e out são essenciais para criar a sensação de pânico no espectador e jogá-lo no caos e violência da guerra. Além disso, os recursos visuais usados por Kubrick para mostrar a imensidão das trincheiras geram imitadores até hoje. Basta ver a já icônica cena da fuga do cavalo em Cavalo De Guerra, do Steven Spielberg, para perceber a perenidade do momento criado por Kubrick.

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Certa vez, o recém falecido Michael Cimino disse que todo filme de guerra é por si só um filme anti guerra. De fato, tudo o que precisamos para desprezá-la por completo é ver alguns de seus efeitos nas pessoas. No entanto, se basear nisso para dizer se o conflito é útil não é condizente com uma posição adulta, muito menos com a complexidade que rodeia toda a situação. O diretor de O Franco Atirador sabia disso, assim como Kubrick, que ao realizar seu primeiro filme de guerra, o fez de uma maneira tão madura que acabou por transformar Glória Feita de Sangue numa das experiências cinematográficas mais impactantes da história.

Glória Feita de Sangue (Paths Of Glory , EUA – 1957)

Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Calder Willingham e Jim Thompson; baseado no livro homônimo de Humphrey Cobb
Elenco: Kirk Douglas, Ralph Meeker, Adolphe Menjou, Goerge Macready, Wayne Morris, Richard Anderson
Gênero: Drama, Guerra
Duração: 88 min

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Tags: #A Lista de Schindler #Além da Linha Vermelha #Catálogo #Cavalo de Guerra #crítica #Filme #Kirk Douglas #Michael Cimino #O Pianista #Primeira Guerra Mundial #Stanley Kubrick #Steven Spielberg
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