Hollywood sempre foi apaixonada por monstros destruindo cidades, mesmo que a cultura mais popular para esse tipo de história seja no Japão. Dessa forma, o Godzilla se tornou um dos grandes ícones do cinema oriental, e que o cinema americano sempre tentou replicar de diferentes forma; seja em obras como Cloverfield – Monstro, Independence Day, Círculo de Fogo e até as versões americanas envolvendo o grande lagarto radioativo.

A mais recente, dirigida por Gareth Edwards em 2014, conseguiu iniciar uma franquia ambiciosa para a Warner Bros e Legendary: um universo compartilhado de grandes monstros e kaiju, que foi complementado com Kong: A Ilha da Caveira e já prepara um vindouro confronto entre o gorila gigante e o lagarto radioativo, com Godzilla vs Kong já marcado para março de 2020. Antes da grande batalha, porém, a Warner lança Godzilla II: Rei dos Monstros, que continua os eventos do filme de 2014 enquanto tenta expandir seu universo. Infelizmente, a continuação tardia mostra que os produtores não aprenderam com os erros do antecessor, e Godzilla mais uma vez decepciona.

A trama se passa anos após a revelação de Godzilla para o mundo e a batalha climática de São Francisco, com mais criaturas – batizadas de Titãs – sendo descobertas pelo mundo através da empresa Monarca. Quando um grupo misterioso liderado por Jonah Alan (Charles Dance) sequestra a cientista Emma (Vera Farmiga) e sua filha Madison (Millie Bobby Brown), eles libertam o perigoso Rei Ghidorah, que deixa um rastro de destruição por onde passa e inspira outros Titãs a seguí-lo. Cabe a Godzilla lutar pelos humanos e assumir a dominância das espécies para deter Ghidorah.

O que é um Rei para um Deus?

O grande problema do Godzilla de 2014 era o tom. É um filme que se leva a sério demais e gasta muito tempo investindo em personagens sem carisma e que encontram-se presos em narrativas desinteressantes e que tiram o foco do monstro titular. Eu poderia usar exatamente essa mesma frase para definir os problemas de Rei dos Monstros, mas agora acrescentando que o trabalho de direção é ainda pior. O roteiro de Zach Shields e do diretor Michael Dougherty continua brincando com a ideia da relação entre homem e natureza e como Godzilla representa a força natural que traz equilíbrio ao planeta, agora brincando com noções religiosas com a chegada de Titãs como Ghidorah, Mothra e Rodan – que certamente vão agradar aos fãs mais saudosistas da Toho.

O esforço é mínimo e o resultado é ridículo. Nem vale a pena discorrer sobre os arcos envolvendo Emma, Madison e Mark (Kyle Chandler, o ex-marido isolado e idealista), que trazem reviravoltas estúpidas e motivações que parecem forçadas até mesmo para um filme que traz uma mariposa gigante como uma das heroínas – ninguém pediu por uma tese filosófica sobre a motivação ecológica de um kaiju, e nada no roteiro consegue aproveitar essa proposta absurda. São personagens demais e muitos arcos perdidos ali, e que acabam desperdiçando o bom elenco reunido, que é fadado a entregar falas ruins e piadas piores ainda, que incluem “Oh God! Zilla!”, comentários sobre o monstro titular estar “tunado” ou a irritante repetição de personagens gritando “Jesus” ou “Meu Deus!”. Preparem-se para um jogo de shot para tentar reunir todos os momentos em que isso acontece.

O que é um Deus para uma fotografia escura?

No quesito visual, pouco se salva. Michael Dougherty é até eficiente para criar algumas imagens icônicas, vide o nascimento de Mothra demarcado por suas asas brilhantes, o plano em que mostra Ghidorah no topo de um vulcão com um crucifixo em primeiro plano ou qualquer quadro que estabelece o início de uma luta entre Godzilla e seus oponentes. O problema é que quando a ação começa, Dougherty se deixa levar por uma bagunça visual incompreensível e sem empolgação – principalmente por sua câmera adotar a perspectiva dos personagens humanos, então quase sempre estamos vendo Godzilla lutar com algum monstro pelo interior de uma sala ou com uma janela entre a vista. Não ajuda também que a paleta de cores adotada pelo diretor de fotografia Lawrence Sher seja absurdamente escura e dessaturada, oferecendo dificuldade de enxergar o que acontece em cena mesmo na versão em 2D; eu nem quero imaginar como o será o pesadelo de assistir a esse filme com óculos 3D.

O trabalho dos efeitos visuais é competente, mas é estrategicamente escondido pela mise en scene de Dougherty. Todas as batalhas acontecem no meio de tempestades, furacões e muita, muita poeira voando, dificultando que o espectador perceba imperfeições. Na realidade, dificultando que o espectador enxergue qualquer coisa, e nem temos tantas sequências envolvendo duelos com as gigantescas criaturas.

Diversão inexistente

Godzilla II: Rei dos Monstros é uma tremenda decepção para quem é fã de monstros gigantes batalhando. Assim como o fraco antecessor, o filme gasta tempo demais em personagens e subtramas movidas por clichês e motivações ridículas, e deixa a ação monstruosa em segundo plano, que também é prejudicada pela direção pedestre e confusa de Michael Dougherty.

Falem o que quiserem do Godzilla de 1998, mas pelo menos era divertido.

Godzilla II: Rei dos Monstros (Godzilla: King of the Monsters, EUA – 2019)

Direção: Michael Dougherty
Roteiro: Michael Dougherty e Zach Shields, baseado nos personagens da Toho Co
Elenco: Kyle Chandler, Vera Farmiga, Millie Bobby Brown, Charles Dance, Ken Watanabe, Sally Hawkins, O’Shea Jackson Jr., Bradley Whitford, Aisha Hinds, Thomas Middleditch
Gênero: Aventura
Duração: 131 min