Crítica | Obsessão leva talento de Curry Barker ao grande público
Obsessão é um fenômeno do horror de Curry Barker, trazendo uma narrativa envolvente com orçamento reduzido e grande impacto.

Fãs do gênero de horror de baixo orçamento já conheciam Curry Barker desde 2024. Ele é ator e também diretor e roteirista do minúsculo e brilhante Milk & Serial, um found footage difícil de ser encontrado nas plataformas oficiais mas que pode ser assistido no Brasil em links do Youtube. Um ano depois, Obsessão chega ao circuito como um fenômeno de utilização inteligente dos menos de 900 mil dólares usados pelo cineasta, o que se torna constrangedor ao lembrarmos que recentes sucessos para a mesma audiência como A Hora do Mal e Juntos tiveram orçamento na faixa das dezenas de milhões – e com resultados cinematográficos muito mais modestos.
A trama de Obsessão é simples e parte de seu êxito: uma premissa muito direta, de compreensão instantânea, e que não necessita ao longo da projeção de nenhum quebra-cabeças lógico para ser explicada. Bear (Michael Johnston) é um atendente de loja apalermado e apaixonado por sua colega de trabalho Nikki (Inde Navarrette, espetacular). Sem coragem para declarar seus sentimentos, ele acaba apelando a uma aparente tolice mística para realizar um único desejo: que Nikki o ame acima de tudo. Para seu completo espanto, o desejo não apenas se realiza, como desencadeia na garota um comportamento impossível de administrar mesmo para um romântico como ele.
Diferente de filmes como aqueles já citados acima no mesmo gênero, Obsessão transita magicamente em um território que é natural ao espectador: paixão ocultada, não-correspondida, e a montanha russa entre paraíso e inferno que pode levar qualquer ser humano aos altos e baixos quase insuportáveis de um sentimento descontrolado. O componente “sobrenatural” da trama é um detalhe irônico porque muita coisa que acontece durante o filme não depende necessariamente dele para aborrecer qualquer um. Não há “vampiros voadores”, corpos que se recompõem quebrando todas as expectativas do mundo natural conhecido, tampouco bruxarias elaboradas que colocam em transe uma cidade inteira. O que mais assusta em Obsessão é como um conjunto de emoções tão humanas pode se revelar horripilante quando quem sente está escravizado por impulsos que não é capaz de compreender e modular.
Barker não chega sozinho ao resultado preciso de sua trama e de sua direção. Obsessão tem muitas referências perceptíveis. A primeira delas e talvez a menos reconhecível pelo público é o drama de fantasia vintage A Bruxa do Amor, outro filme brilhante de baixo orçamento dirigido por Anna Biller que, no entanto, não atingiu o grande circuito, ficando restrito à admiração cult. Se o filme de Biller tem o tom de uma crônica social que usa a ambientação e a estética clássica para analisar o comportamento humano dentro dos relacionamentos românticos contemporâneos, Barker prefere seguir o caminho do pesadelo individualizado na figura do protagonista, que de uma hora para outra enxerga a realidade a sua volta converter-se numa piada diabólica. Nesse sentido, ele se aproxima mais de um episódio alongado de Além da Imaginação original ou mesmo de Black Mirror.
Ademais, existe em Obsessão um componente sádico no olhar sobre as relações homem-mulher, acrescido da paranoia das novas gerações com assédio, abuso e dominação sexual. Aqui, Barker parece compor um Lua de Fel (de Roman Polanski) modernizado para a era digital. O romance sombrio do cineasta polonês tinha o charme de “decadentismo” europeu e atração pela queda que aqui são substituídos pela solidão barata, pasteurizada, do subúrbio, uma Transilvânia em que os vampiros são as fixações doentias pelo encontro amoroso fantasioso e impossível que só se realiza como pesadelo.
Não bastasse a inteligência do roteiro, Barker demonstra impressionante compreensão da forma cinematográfica, preferindo decupar o filme em quadros abertos e bem desenhados, em momento algum apelando à vulgaridade dos primeiríssimos planos com fundo desfocado que muito da “sub-linguagem” atual pega emprestado do olhar das pequenas telas de smartphone – com resultados sempre muito parecidos, como se todos os filmes estivessem sendo dirigidos pelo mesmo diretor.
Se a edição do filme é excepcional (cortar pouco e confiar nos atores e no texto em vez de repicar tudo freneticamente), a fotografia é controversa. Embora o expediente de colocar os personagens ocultados pela sombra funcione muito bem, a decisão de filmar quase o tempo todo em baixíssima luminosidade pode se tornar cansativo dependendo da qualidade da projeção. De todo modo, a economia narrativa do diretor, que pouco apela a artifícios forçados para criar tensão, supera com folga esse eventual desconforto.
Obsessão é, enfim, o melhor filme de horror dos últimos anos e ultrapassa com folga os maiores sucessos do gênero. Talvez o motivo que explique seu êxito cinematográfico (que agora se converte em retorno comercial) é o mesmo que fez de outros filmes grandes clássicos do medo humano: sua decisão de trazer o pesadelo o mais próximo possível da realidade do espectador, que não precisa abrir mão de toda a lógica conhecida para se identificar com o que acontece na tela. Uma paixão avassaladora e destrutiva pode estar, afinal, mais próxima de qualquer um do que todos imaginamos (e é isso que realmente assusta em Obsessão).