Cinema

Crítica | Hamnet: A Vida Antes de Hamlet mergulha na comunhão entre arte e vida privada

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet confere solenidade a um drama familiar que se aprofunda mais na personalidade de uma coadjuvante

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
3 min de leitura
Publicidade

Um dos favoritos ao Oscar em 2026, o novo filme da realizadora chinesa Chloé Zhao (de Nomadland) tem bastante para agradar a um público mais adulto e que costuma ficar órfão de bons lançamentos durante o período de férias escolares. Oscilando entre oferecer tudo que se espera de uma produção “de arte” com um tom mais pessoal e discretamente feminino, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet confere solenidade a um drama familiar que se aprofunda mais na personalidade de uma coadjuvante insuspeita que no protagonismo eventualmente esperado para William Shakespeare.

Publicidade

Em tom que ora investe no intimista, ora no solene, a direção de Zhao mira as luzes de seu palco em dois atores irlandeses celebrados da nova geração. Porém, embora Paul Mescal empreste humanidade a um personagem histórico geralmente tratado de forma mitificada (e, assim, o humanize com notável dignidade), o espetáculo aqui é todo de Jessie Buckley, que encarna com emoção e intensidade a esposa e mãe dos filhos de Shakespeare.

Na trama, o autor antes da fama chamado prosaicamente de Will (Mescal) se apaixona pela rebelde e deslocada social Agnes (Buckley). A garota tem sua própria ligação aparentemente mágica com a terra e a floresta, e é vista também por isso com desconfiança em sua pequena vila, o que não impede o casamento que é precipitado por sua primeira gravidez.

Publicidade

Depois de casados, Agnes enfrenta a angústia do marido que não se adequa às expectativas profissionais do pai e se debate com a própria energia criativa enquanto mantém o plano incerto de se mudar para Londres e ingressar no ofício do teatro como fornecedor de adereços (um pouco antes de perceber que seu futuro está na autoria dos espetáculos teatrais). Uma tragédia familiar irá primeiro separar o casal para depois estabelecer um novo tipo de comunhão usando o poder da arte e do inconsciente coletivo diante do assombro e do mistério da existência.

Publicidade

Desde o início, o roteiro de Zhao e Maggie O’Farrell (a partir de um romance seu) faz uma escolha clara que inverte os papéis e torna a historicamente pouco conhecida Agnes a protagonista de uma trama na qual Shakespeare é apenas um dedicado coadjuvante. Se isso serve para converter o conflito do casal, da vida familiar e da relação com os filhos e com a terra nos pontos fortes do filme, por outro lado deixa de lado a inquietação da criação que atormenta Will e que, embora seja determinante no desfecho da trama, permanece como um segredo vago dentro do roteiro.

Publicidade

Embora essa escolha da realizadora possa tornar superficial o papel do “escritor” que, no final das contas, universaliza os dramas privados do casal e os eterniza nas palavras e no palco, é ela que permite a Agnes ter o filme todo para si – primeiro especificamente como mulher, depois como mãe e finalmente como ser humano que descobre na arte o reflexo de sua dor que transcende tempo, espaço e individualidade. E colocar um filme inteiro nas costas de uma atriz como Buckley revela-se uma aposta altamente recompensadora.

O filme é terroso na tela, levemente solene aos ouvidos e comovente na encenação, especialmente na cena final, em que marido e mulher reencontram-se de maneira silenciosa e dolorida, cada um a seu modo tentando dar (ou encontrar) sentido na tragédia que os afligiu. Dificilmente uma plateia sensível não sairá emocionada e recompensada após quase duas horas de bom cinema adulto, de narrativa poética (embora acadêmica), e que proporciona aos dois atores centrais a chance de experimentar uma variação interessante e muito convincente de emoções e climas desde a cena de abertura.

Publicidade

Compartilhar: Twitter Facebook WhatsApp