Crítica | Hamnet: A Vida Antes de Hamlet mergulha na comunhão entre arte e vida privada
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet confere solenidade a um drama familiar que se aprofunda mais na personalidade de uma coadjuvante

Um dos favoritos ao Oscar em 2026, o novo filme da realizadora chinesa Chloé Zhao (de Nomadland) tem bastante para agradar a um público mais adulto e que costuma ficar órfão de bons lançamentos durante o período de férias escolares. Oscilando entre oferecer tudo que se espera de uma produção “de arte” com um tom mais pessoal e discretamente feminino, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet confere solenidade a um drama familiar que se aprofunda mais na personalidade de uma coadjuvante insuspeita que no protagonismo eventualmente esperado para William Shakespeare.
Em tom que ora investe no intimista, ora no solene, a direção de Zhao mira as luzes de seu palco em dois atores irlandeses celebrados da nova geração. Porém, embora Paul Mescal empreste humanidade a um personagem histórico geralmente tratado de forma mitificada (e, assim, o humanize com notável dignidade), o espetáculo aqui é todo de Jessie Buckley, que encarna com emoção e intensidade a esposa e mãe dos filhos de Shakespeare.
Na trama, o autor antes da fama chamado prosaicamente de Will (Mescal) se apaixona pela rebelde e deslocada social Agnes (Buckley). A garota tem sua própria ligação aparentemente mágica com a terra e a floresta, e é vista também por isso com desconfiança em sua pequena vila, o que não impede o casamento que é precipitado por sua primeira gravidez.
Depois de casados, Agnes enfrenta a angústia do marido que não se adequa às expectativas profissionais do pai e se debate com a própria energia criativa enquanto mantém o plano incerto de se mudar para Londres e ingressar no ofício do teatro como fornecedor de adereços (um pouco antes de perceber que seu futuro está na autoria dos espetáculos teatrais). Uma tragédia familiar irá primeiro separar o casal para depois estabelecer um novo tipo de comunhão usando o poder da arte e do inconsciente coletivo diante do assombro e do mistério da existência.
Desde o início, o roteiro de Zhao e Maggie O’Farrell (a partir de um romance seu) faz uma escolha clara que inverte os papéis e torna a historicamente pouco conhecida Agnes a protagonista de uma trama na qual Shakespeare é apenas um dedicado coadjuvante. Se isso serve para converter o conflito do casal, da vida familiar e da relação com os filhos e com a terra nos pontos fortes do filme, por outro lado deixa de lado a inquietação da criação que atormenta Will e que, embora seja determinante no desfecho da trama, permanece como um segredo vago dentro do roteiro.
Embora essa escolha da realizadora possa tornar superficial o papel do “escritor” que, no final das contas, universaliza os dramas privados do casal e os eterniza nas palavras e no palco, é ela que permite a Agnes ter o filme todo para si – primeiro especificamente como mulher, depois como mãe e finalmente como ser humano que descobre na arte o reflexo de sua dor que transcende tempo, espaço e individualidade. E colocar um filme inteiro nas costas de uma atriz como Buckley revela-se uma aposta altamente recompensadora.
O filme é terroso na tela, levemente solene aos ouvidos e comovente na encenação, especialmente na cena final, em que marido e mulher reencontram-se de maneira silenciosa e dolorida, cada um a seu modo tentando dar (ou encontrar) sentido na tragédia que os afligiu. Dificilmente uma plateia sensível não sairá emocionada e recompensada após quase duas horas de bom cinema adulto, de narrativa poética (embora acadêmica), e que proporciona aos dois atores centrais a chance de experimentar uma variação interessante e muito convincente de emoções e climas desde a cena de abertura.