Crítica | Homem-Aranha: Um Novo Dia renova interesse pelo personagem mais uma vez
Homem-Aranha retornou em ótima forma que também surpreende dado o cansaço da marca.

Personagens do entretenimento tão conhecidos como o Homem-Aranha têm um lugar cativo na cultura popular e sugerem uma pergunta sempre que um novo filme acrescenta outras aventuras e caracterizações à sua própria história: é possível renovar o interesse mesmo que boa parte do público já conheça seu universo e esteja bastante familiarizado com o tipo de atração que o novo filme traz?
No caso de Homem-Aranha: Um Novo Dia, mesmo sem apresentar inovações significativas, o roteiro dos experimentados Chris McKenna e Erik Sommers permite a uma direção sensível e que sabe se deter onde o material rende melhor (de Destin Daniel Cretton) oferecer ao público um bom filme dentro do gênero que é limitado por suas próprias regras e convenções.
Na nova trama, Peter Parker leva uma vida solitária em Nova York depois que seus melhores amigos não conseguem mais se lembrar de sua identidade (nem de seus sacrifícios para salvar o mundo). Ele retoma a rotina de vigilante em parceria com a polícia, sem jamais deixar de pensar em sua Mary Jane, que por sua vez seguiu a vida adiante inclusive com um novo par romântico. As coisas tomam um novo rumo quando um(a) vilão(ã) inesperado(a) demonstra poderes telepáticos, obrigando Parker a colocar em risco seu anonimato para proteger seus amigos e a cidade. Dizer mais que isso revelaria spoilers que certamente interessam aos aficionados do Universo Marvel.
O elenco encontra seu maior acerto em Tom Holland, que acha seu equilíbrio entre herói e desajustado social sem parecer falso em nenhum momento. Embora o tom (ou Tom) não chegue à quase autoparódia do Homem-Aranha de Sam Raimi, Holland é engraçado sem recorrer à tolice. Não se pode dizer o mesmo de Zendaya, que provavelmente só sorri a primeira vez após quase duas horas de projeção: como já se percebeu, ela parece sempre “incomodada” com alguma coisa e nem sempre a cena pede exatamente isso.
Falta a ela o “encanto” que MJ sugere (o qual ela substitui por um mau humor que tem lá seu charme desajeitado). Mark Ruffalo não chega a estar deslocado, mas a presença de seu personagem é tão acessória no roteiro, um pouco forçada para dar liga com o universo Marvel de maneira mais ampla, que ele pouco acrescenta. O mesmo não se pode falar a respeito de Jon Bernthal, seguro e preponderante dentro da linha de ação que o filme escolhe.
Este definitivamente não é um filme de grandes vilões (e portanto nenhum se destaca especialmente, embora Michael Mando, de Better Call Saul, seja sempre um ator interessante), mas sim de autodescoberta do protagonista e de confrontação com seu passado. Como um típico filme da Marvel, você encontra duas dimensões bem definidas (e algumas vezes distantes entre si): aquela humana e dramática, e a linha da ação física, que é cartunesca, fantasiosa e totalmente descolada da realidade verossímil. Embora seja esta a que melhor traduz o espírito original dos quadrinhos, é a mais fraca e repetitiva como cinema: são as mesmas batalhas observadas de 360º, lembrando o espaço cênico de um videogame.
É sempre desafiador achar uma conexão consistente entre essa parte e as cenas em que os atores são exigidos a dar diálogos mais longos, onde o silêncio se faz presente e o espectador é convidado a entender os personagens como emulações de pessoas verdadeiras, com seus conflitos, frustrações e laços de afeto – para que no momento seguinte estejam desafiando todas as leis da física em total descomprometimento com causa e efeito. Os bons filmes de super-herói são aqueles que acham nessa mistura improvável o balanço adequado.
O maior problema de Homem-Aranha: Um Novo Dia talvez seja abrir um número alto de janelas com as quais ele tem de ficar trabalhando depois (especialmente no último ato, que é longo demais e torna a metragem do conjunto desnecessariamente esticada, incluindo uma “cena” pós-crédito sem grandes atrativos): essa tendência quase irrefreável do cinema de entretenimento contemporâneo de ficar criando ganchos e complicações externas ao enredo, que serão eventualmente retomadas em outras produções. Embora isso alimente a comunidade, para o espectador comum sempre parece um adendo, uma nota de rodapé que desvia atenção dos protagonistas e joga pouca luz sobre a trama que interessa naquele momento.
Se considerarmos, no entanto, os melhores momentos de Holland e sua conflituosa relação com tempo, memória e consequências de suas ações, o saldo é de uma superprodução sensível e divertida, que pode agradar os fãs da franquia e da Marvel sem aborrecer quem entra na sala de cinema procurando apenas duas horas de um recorte interessante da realidade vista pelos olhos dos realizadores. O novo filme serve aos dois interesses com competência.