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Se Jogos Mortais foi um começo digno para a carreira de James Wan como um dos maiores realizadores da contemporaneidade, e Jogos Mortais 2 representou uma queda drástica na qualidade de uma franquia em potencial, a terceira iteração de um dos maiores gores da indústria parece estar no meio termo entre o satisfatório e o insuportável. Em meio a deslizes e acertos, fica quase impossível utilizar adjetivos para descrever um produto que beira o insano, mas que ao mesmo tempo traz certas passagens de pura originalidade para um tema que, mesmo em sua terceira investida, já cansa o espectador.

A narrativa começa exatamente de onde o chocante plot twist do filme anterior termina: o detetive Eric Matthews (Donnie Wahlberg), após ser pego pela engenhosa armadilha criada pela discípula de Jigsaw (Tobin Bell), Amanda (Shawnee Smith), parece ter encontrado sua ruína, mas utiliza-se da dor de perder seu filho e da possibilidade de ter colocado tudo a perder para recompor-se e cometer um último ato de sacrifício para se livrar das literais correntes que o mantêm preso. Apesar do coercitivo começo, é interessante ver que o diretor Darren Lynn Bousman conseguiu aprender com seus imperdoáveis erros e resgatou um pouco da perspectiva de suspense do longa original para compor sua nova investida.

Entretanto, o foco não é exatamente a continuação da saga de Matthews, e sim como Amanda é a “verdadeira herdeira” do legado de John Kramer, e de que modo, após passar por inúmeras provações, ela aparenta ter o necessário para continuar o livramento moral e a concessão de uma segunda chance para aqueles que não apreciam a vida. Agora, o diferencial de Jogos Mortais 3 é que nós acompanhamos os últimos momentos da frágil saúde de Jigsaw, deitado em uma maca improvisada e que pede para Amanda capturar a depressiva e antiprofissional Dra. Lynn Denlon (Bahar Soomekh), uma cirurgiã cuja vida laboral vai de mal a pior, impactando até mesmo na segurança de seus pacientes.

Como forma de lhe garantir uma passagem para a nova vida, o jogo acerca da médica é simples: manter as máquinas e o corpo de John funcionando até que sua outra vítima consiga passar por todos os desafios necessários e sair do confinamento. Caso contrário, um dispositivo construído por Amanda irá disparar e matá-la sem pensar duas vezes, impedindo que ela retorne para sua família – a qual, por enquanto, sabemos ser composta pelo desconhecido marido.

Sacrifícios são necessários para que a transformação catártica e irreversível venha para as vítimas do serial killer. Ele nunca matou diretamente uma pessoa, mas entende que certos indivíduos precisam de um empurrãozinho a mais para entenderem significados atemporais e intrínsecos ao ser humano, como a felicidade, a família e a própria vida. E pelo que sabemos, é justamente o contrário disso que se apossa da conturbada e traumatizada mente de Jeff (Angus Macfayden), um homem que perdeu seu filho num acidente de carro e cuja tão sonhada justiça nunca chegou, visto que a pessoa responsável pelo atropelamento foi condenada a apenas seis meses de prisão e depois respondeu em liberdade condicional.

Apesar das nuances artificiais do personagem e de alguns diálogos superexpositivos, é interessante ver como o quebra-cabeça enfrentado por Jeff talvez seja um dos mais complexos já vistos na franquia: o perdão. Ele não é submetido a nenhuma entrega física para salvar os outros participantes, mas deve enterrar seus sentimentos vingativos para conseguir manter alguém vivo. Diferentemente dos filmes anteriores, não temos uma explicitação saturada de explosões sangrentas ou um gore nu e cru nas sequências: as armadilhas compostas por Amanda são muito funcionais e perigosas, mas também partem do princípio que é necessário encontrar algo que nos permita evoluir.

Não que isso seja seguido à risca é claro: afinal, como Jigsaw bem deixa claro em mais um incrível plot twist – que, como sempre, é um dos grandes pontos altos da franquia -, que Amanda na verdade preza pelo sofrimento e pela condenação, sem a possibilidade de um arco de redenção; desse modo, as armadilhas não insurgem como meios para um fim, e sim como celas intransponíveis e impossíveis de serem quebradas. Em uma das primeiras sequências, a oficial Kerry (Dina Meyer) é capturada e colocada em um jogo em que deve procurar pela chave que pode livrá-la de um dispositivo fincado em suas costelas antes que o tempo acabe. Mas, como percebemos, sua escapatória não é uma opção, levando-a a perceber que a morte é a única certeza.

Apesar dessas interessantes concepções, o filme ainda peca muito nos quesitos de ritmo e desenvolvimento performático e narrativo. Mesmo com o retorno de Wan para colaborar no roteiro, as brechas ainda existem e trazem as mesmas concepções monótonas de monólogos exteriorizados que apenas deixam a atmosfera mais densa – e não de um jeito envolvente, mas sim cansativo. Além disso, a direção, ainda  que tenha abandonado alguns vícios de enquadramento, ainda preza pelas múltiplas perspectivas de um mesmo momento, tornando a construção cênica algo arrastado e desnecessariamente longo. Mas, sem sombra de dúvida, o fundo do poço vem com a atuação de Smith: uma Amanda que parece ter se esquecido de sua importância nos filmes anteriores e que se preza por uma entrega tão melodramática que chega a ser ridícula.

Jogos Mortais 3 é essencialmente melhor que seu predecessor, ainda mais se levarmos em consideração um amadurecimento de linguagem estética. Mas isso ainda não quer dizer muita coisa, visto que os deslizes permanecem ali e trazem com grande alívio uma conclusão para a primeira “jornada” de Jigsaw e seus sádicos jogos.

Jogos Mortais 3 (Saw III, EUA – 2006)

Direção: Darren Lynn Bousman
Roteiro: Leigh Whannell, James Wan
Elenco: Tobin Bell, Shawnee Smith, Angus Macfayden, Bahar Soomekh, Donnie Wahlberg, Dina Meyer, Leigh Whannell, Mpho Koaho, Barry Flatman
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 103 min.

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