nota-2,5

O ator argentino Ricardo Darín se tornou praticamente um sinônimo de qualidade. Um dos atores mais reconhecidos da América Latina, o argentino sempre mostra muita qualidade no seu trabalho, além de ser muito versátil. Porém, só ter um ator bom, não significa necessariamente que o filme será bom. E com isso chegamos a “Kóblic” que mostra que para um filme ser bom, ele precisa do mais importante: um bom roteiro.

Kóblic é o nome do protagonista vivido por Darín, um piloto do exército argentino que durante a ditadura, foi encarregado de jogar corpo de inocentes no mar. Após desertar, Kóblic se esconde em uma pacata aldeia, aonde trabalha no hangar de um antigo amigo. Mas o delegado local (Oscar Martinez) começa a desconfiar da identidade do piloto e irá atrás do exército para descobrir a sua real identidade.

Em geral o argumento do longa é interessante, mas o roteiro de Sebastián Borensztein e Alejandro Ocon peca na sua obviedade, em núcleos desnecessários e em personagens caricatos. O único personagem que realmente se mostra mais complexo é o protagonista, pois é resto são muito óbvios, que não aparentam nenhum tipo de ambiguidade.

Os vilões são malvados por serem malvados; a mocinha precisa de um herói para salvá-la; o fiel-escudeiro do herói que o segue por não ter lugar para onde ir. É um roteiro em que tudo se desenvolve da maneira mais previsível e que se resolve da maneira mais fácil. E o pior é que tenta ser surpreendente, mas dá para prever o seus passos e qual será as atitudes dos personagens. É o grande Calcanhar de Aquiles desse filme é o roteiro.

Se o roteiro está fraco, pelo menos a execução é bem feita. A direção de Boresztein é muito disciplinada e clássica. A câmera nunca sai do tripé, os planos são muito sutis e competentes. Se notar a própria estrutura da história lembra um faroeste, de onde deve ter vindo às referencias de enquadramento para Boresztein. É um trabalho muito competente, mas nada maravilhoso.

A direção de arte e de fotografia são muito bem pensadas. A lógica visual do longa é muito bem-feita, utilizando cores frias e dessaturadas. Essas cores servem para criar atmosfera, além de terem significados. Pode dizer que simbolizam monotonia da aldeia ou até mesmo o sentimento de tristeza daquele momento político do país.

A fotografia até reforça essa monotonia fazendo planos abertos que reassaltam como a aldeia está distante de qualquer metrópole. Ao mesmo a tempo a direção de arte faz um belo uso dos cenários para salientar a simplicidade do local. O comércio é pequeno, a maioria dos locais está caindo aos pedaços, não tem muitos locais. Além de fazer uma bela recriação da década de 70.

Mas se a direção de arte acerta nos cenários e nas cores, acaba errando na caracterização dos personagens, principalmente nos antagonistas. Sabemos que eles são os vilões por terem um visual repulsivo. O próprio delegado tem os dentes podres e um bigode vilanesco, ao vermos esse personagem pela primeira vez, logo deduzimos que é o vilão. Pois mais que o longa quer homenagear o cinema clássico, uma caracterização tão óbvia quanto essa acaba tirando quaisquer sentimentos de surpresa quanto a ações desse personagem. E isso acaba atrapalhando, pois sempre sabemos que esse delgado fará algo amoral.

Já que falei do delegado, o personagem não se mostra artificial por conta da boa atuação de Oscar Martínez. Se as caracterizações visuais são caricatas, o ator consegue utiliza-las ao seu favor. Não só Martínez, mas todo o elenco faz bem o seu papel, mas não vão muito longe por conta do roteiro. O destaque fica por Darín, por ter o personagem mais bem escrito e pela presença e o grande carisma do ator que consegue transformar Kóblic em uma figura muito interessante.

“Kóblic” tem suas virtudes técnicas, mas se perdem em meio de um roteiro muito fraco. É mais um exemplo para falar que só ter o Ricardo Darín no elenco, não é sinônimo de qualidade.