Quem gosta de assistir a bons filmes, sendo no cinema ou na TV provavelmente já ouviu a frase “cinema nacional não presta” e quando se fala de animação o resultado é ainda pior “brasileiro não sabe fazer animação”. As duas afirmações estão erradas e Lino – Uma Aventura de Sete Vidas mostra bem isso.

Há muitos profissionais brasileiros trabalhando no ramo de animação, o problema é a falta de estrutura que eles muitas vezes não tem, já que para fazer um filme do gênero é necessário um orçamento polpudo e isso dificilmente se consegue. O pior nem é a falta de estrutura e de funcionários capacitados, falta também interesse do público.

Os cinéfilos brasileiros não estão acostumados com produções nacionais. Se animações de outros países já encontram dificuldade por aqui o que dizer das brasileiras. A bilheteria geralmente vai toda para megaproduções de grandes estúdios como Dreamworks ou Pixar e isso reverte em bilheterias gigantes o que faz com que as produtoras, distribuidoras e cinemas deem mais oportunidade para essas produções do que para estúdios menores. 

Veja o exemplo de O Menino e o Mundo, longa de Alê Abreu que concorreu ao Oscar e por aqui levou pouco mais de 60 mil pessoas para as salas de cinema. Não foram por não ter interesse e não pelo filme ser ruim. Existe um público que ama filmes de animação, mas não vai ao cinema por falta de interesse e talvez até pelo alto valor dos ingressos.

O público prefere ir ao cinema ver algo que é quase certo que seja bom e divertido que ter uma experiência nova e assim apostar em um produto que ninguém conheça. Claro que a concorrência de Disney e outros estúdios com maior valor de produção também ajuda a bilheteria a ser baixa. Espera-se que isso deva mudar com Lino, aposta da Fox para esse segundo semestre. 

Com direção de Rafael Ribas, Lino não é uma animação espetacular, mas também não é um produto ruim, longe disso. A começar pela excelente qualidade da animação que joga as produções nacionais do gênero a um outro patamar. Lino foi feito com tecnologia 3D de qualidade, os traços não deixam nada a desejar se comparado com animações da Disney/Pixar ou Dreamworks. É realmente um trabalho impressionante e que deve ser ressaltado, a animação surpreende e deve ir bem de bilheteria.

Lino é um rapaz que passa seus dias trabalhando como animador de festas, ele traja uma fantasia de gato que as crianças adoram encher de pancadas. Desde o início o diretor já o mostra como um perdedor, alguém acomodado e infeliz. E isso só vai piorando com o tempo, ele inveja seu vizinho por sempre chegar com pacotes novos. É aí que vai visitar um guru que sem querer faz uma mágica que o transforma em um gatinho. E aí toda história vai se desenvolvendo e tem início sua trajetória para voltar ao normal. 

A ideia é boa, fazer graça com o cotidiano e com a desgraça alheia. Ao mostrar a rotina de Lino, um cara azarado, sem vontade própria e prestes a cair na depressão ele diz que um dos maiores perigos é justamente cair na rotina e começar a se autossabotar. É uma mensagem interessante e que muitos irão se colocar em seu lugar, pois é uma fase da vida que muitos passam.

A ideia que nasce original é abandonada a partir do momento que ele se transforma no gatinho fofo. Você percebe que está assistindo a dois filmes diferentes, o início é uma coisa e da metade em diante é outra. Se ele antes buscava motivação para viver e era reflexivo, isso deixa de acontecer quando se transforma. Rafael Ribas abandona o humor adulto para cair de vez em uma aventura infantil, sem ao menos se preocupar com tudo que ele havia desenvolvido até ali. 

É um grande problema do roteiro, poderiam fazer o gatinho fugir da polícia, mas não abandonar seus problemas de vida, seus dramas pessoais que o assombravam. Virou uma animação de pura correria, ele passa a escapar de todos os jeitos dos três policiais porque está sendo acusado de um roubo que não cometeu. Até aí ok! Só que tudo ficou repetitivo, ele corre, corre, corre, se mete em confusões e é isso. 

Depois de um tempo e de tanta correria, você cansa. Ele até apresenta fatos novos fazendo o gato ir atrás de três elementos que juntos fariam ele voltar a ser humano novamente, mas para por aí. Na realidade o problema de Lino foi ter abandonado o início, a vontade do personagem em se tornar outra pessoa, ele perde todo o espírito e aura do personagem original.

Tudo isso para no final voltar a linha narrativa inicial antes abandonada. A lição de moral “confie em si para que os outros confiem em você” teria funcionado melhor se houvesse mais cenas em que ele pudesse pensar em sua vida, algo que o começo mostrou melhor.

Uma surpresa são os personagens secundários, uma linda bebê que lembra bastante a Bu de Monstros S.A. e um guru doido que ajuda Lino em sua jornada. Poderiam ter os desenvolvidos melhor, mas com correria de querer levar Lino a sua saga acaba se esquecendo deles. Uma nota zero apenas para a dupla de policiais que se torna apelativa e chata com o desenrolar da trama.

A voz de Lino é muito conhecida pelo público brasileiro. Ele é dublado originalmente pelo ator Selton Mello que começou sua carreira justamente como dublador. É um bom trabalho do ator e diretor que se mostra onipresente nas produções nacionais. Há uma mudança no tom da voz quando ele se torna um gato.

Mesmo com todos esses erros de roteiro e com uma direção limitada, há de dar os parabéns para Rafael Ribas por sua ousadia e esforço em fazer uma animação nacional que mais parece um produto americano de tão impressionante que ficou. Vamos ver se esse filme começa a fazer os brasileiros a terem melhor interesse por um produto 100% brasileiro e comece a ir aos cinemas, queira ou não isso é importante. Nenhuma produtora vai financiar um filme de animação sem que tenha um retorno certo. 

Escrito por Gabriel Danius.

Lino – Uma Aventura de Sete Vidas (Brasil – 2017)

Direção: Rafael Ribas
Roteiro: Rafael Ribas
Elenco: Selton Mello, Dira Paes, Paolla Oliveira
Gênero: Animação
Duração: 90 min