Que a Netflix tem uma história complicada ao longo de sua breve existência, isso é inegável: se por um lado a gigante do streaming produz séries de qualidade notável, falha em quase todas as suas produções em longa-metragem, preferindo produzir obras que se restrinjam às entediantes rom-coms recheadas de convencionalismos e fórmulas ao invés de investir em algo novo que reafirme seu importante papel nessa nova era do entretenimento audiovisual. Logo, quando o serviço contratou Cindy Chupack para comandar seu mais novo filme original, poderíamos esperar algo diferente, ainda que nostálgico – mas o resultado, mais uma vez, passou longe de ser satisfatório.

A dramédia Mãe e Muito Mais, ainda que integrasse um gênero já explorado exaustivamente desde os anos 1990, tinha um potencial incrível que poderia ser carregado apenas pelo elenco de peso: afinal, não vemos muitas obras atuais que conseguem reunir num mesmo lugar as premiadas Felicity Huffman, Angela Bassett e Patricia Arquette – e, considerando a extensa filmografia do trio, suas atuações deveriam ser no mínimo envolventes. Entretanto, mesmo com o protagonismo e a presença cênica imensurável dessas mulheres, o medíocre roteiro abraça uma narrativa que não tem muito para onde ir, principalmente quando se restringe a seguir os passos de qualquer melodrama novelesco que já assistimos (não é muito difícil encontrar semelhanças entre os dois tipos de história em questão).

Bassett dá vida a Carol Walker, abrindo o conto maternal com um breve prólogo antes de finalmente dar as caras. Carol é melhor amiga de Gillian (Arquette) e Helen (Huffman) e todas parecem estar confinadas em uma bolha na qual vivem em função dos filhos afastados. Afinal, suas três “crias”, por assim dizer, já deixaram suas casas há muito tempo e foram morar em Nova York, esquecendo-se dos lares e seguindo em frente ao ponto de nem ao menos se lembrarem de desejar “feliz dia das mães” àquelas que os criaram. Logo, não demora muito até que Helen resolve juntar suas amigas e viajar até a cidade que nunca dorme para visitá-los e tentar reconectar os últimos fios que os mantêm como família.

Se Chupack ganhou um patamar considerável ao ficar responsável pela icônica coming-of-age Sex on the City na virada dos anos 1990 para os 2000, aqui ela se mostra como uma diretora cansada que recorre aos escapes cômicos e às construções imagéticas regradas e padronizadas, sem ao menos ousar sair um pouco da caixinha; na verdade, a religiosidade com a qual a cineasta trabalha no longa é apenas uma cópia malfeita de qualquer blockbuster hollywoodiano que consiga pensar – uma comédia romântica que, ao contrário do relacionamento amoroso entre duas pessoas, se desenrola entre mãe e filho. E mais: se ela tentava criar algo especial com o qual poderíamos ao menos nos divertir, falhou miseravelmente e criou uma espécie de expansão de O Maior Amor do Mundo (2016).

Conforme cada uma das protagonistas se reencontra com seu respectivo filho, fica bem claro que elas terão um árduo trabalho a fazer: Helen canaliza a frustração de seu primeiro casamento para o fato de Paul (Jake Lacy) manter contato com o pai e não com ela, nem mesmo revelando que é gay e que está morando com o namorado; Carol descobre que Matt (Sinqua Walls) vem mentindo para ela sobre seu verdadeiro trabalho, e condena sua vida lascívia e seu fraco por mulheres jovens; e Gillian sente que falhou como mãe ao perceber que Daniel (Jake Hoffman) está numa situação desesperadora, tendo quase perdido o contrato para escrever o livro e ser traído pela namorada Erin (Heidi Gardner) – não que ela fosse muito fã da garota.

Caso paremos para analisar, não há motivação o suficiente que justifique essa necessidade de reconexão entre os núcleos familiares. Na verdade, tudo move-se de forma forçada, que passa longe até mesmo de ser fofo ou de nos causar alguma comoção; a condução de Chupack não contribui muito para isso, transformando os mais simples efeitos dramáticos em saturados arcos que saem de nenhum lugar para lugar nenhum. As viradas, que ao menos poderiam seguir os passos bastante conhecidos do suis-generis em questão, não alcançam o potencial que prometem e deslizam em arquiteturas monocromáticas do começo ao fim. O único elemento que se salva é a quase inexistente química entre as protagonistas (que ganham nossa atenção pelas complexas personalidades que são desperdiçadas por completo).

Mãe e Muito Mais mantém a infeliz reputação da Netflix como desistente de até mesmo pensar em nos entregar algo novo. Seguindo o estilo de longas-metragens recentes, a única explicação para que essa obra exista é a necessidade aumentar o orçamento para produções futuras – porque nem mesmo “divertimento” pode ser associado ao filme em questão.

Mãe e Muito Mais (Otherhood – EUA, 2019)

Direção: Cindy Chupack
Roteiro: Mark Andrus, Cindy Chupack, baseado no romance de William Sutcliffe
Elenco: Angela Bassett, Felicity Huffman, Patricia Arquette, Jake Hoffman, Jake Lacy, Sinqua Walls, Heidi Gardner
Duração: 100 min.

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