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Crítica | Marguerite e Julien

Um filme perdido.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
10 de fevereiro de 2017 · 4 min de leitura
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Mesmo sendo o amor um sentimento universal, há muito tabu envolvido em alguns tipos de relacionamentos que certos sujeitos entram. Marguerite e Julien trata de um bem delicado. Sem pressa, não é o romance de seres de espécies diferentes, mas uma história em que o sangue familiar é o gerador do conflito. O romance incestuoso é baseado no roteiro escrito pelos parceiros François Truffaut e Jean Gruault há quatro décadas atrás, engavetado até esta produção da diretora Valérie Donzelli. Conhecendo os cineastas da Nouvelle Vague e a maneira como fazia suas adaptações (literárias, históricas), é bem provável que o roteiro original trazia uma visão quase oposta à que foi apresentada por Donzelli. O que, por si só, não é necessariamente ruim.

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Em primeiro lugar, entenda-se logo na primeira imagem do filme, Donzelli destila o seu anacronismo proposital com a visão de um helicóptero – que poderá ser conectado com um dos momentos finais do filme. Quem ao menos já tinha uma ideia da história pela sinopse, da veracidade da história ocorrida no século XVI, é confrontado com um aspecto que nada reconstrói da época. Dois jovens fogem da polícia num floresta. Depois, no dormitório de um orfanato, menininhas reproduzem sons de deleite amoroso para acordar as companheiras e ouvir a história do amor proibido de Marguerite e Julien. Com esses elementos encenados, Donzelli – ciente de que uma história do gênero nunca é confortável – larga mão de uma pretensão arquetípica das histórias de amor mais realistas, apesar das idealizações, para erigir seu espaço ficcional. A cineasta, porém, não consegue. no próprio desenrolar do filme, prescindir dessas características, desfalcando os artifícios escolhidos.

Além das clássicas separações e proibições que recaem sobre o amor dos irmãos, que poderiam muito bem ser articuladas em outros romances, pouco é discutido sobre o incesto. A palavra, na verdade, aparece só nos últimos minutos do longa. Não há um momento de conversa entre os pais e os filhos, ou um discurso melodramático em que gritem: “Ela é a sua irmã! Vocês não podem fazer isso, meus filhos!” Donzelli monta, dessa forma, não um filme que se preocupa com a parcialidade, um julgamento definitivo de certo ou errado. Se assumisse algum dos dois posicionamentos, só perturbaria mais sua mediocridade estética – aspecto que retira o longa de um grotesco fracasso.

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Seguindo muito artifícios que Wes Anderson repercutiu, e que poucos (talvez nenhum) conseguiram deglutir e usufruir com inteligência, Donzelli adiciona aos seus cenários uma mistura de tempos e tecnologias (os cenários campesinos do século XVII encontram carros, helicópteros), invocando uma imaginação infantil e que desperta prazer – afinal, uma das camadas narrativas é justamente a de crianças ouvindo a história. Soma-se a esse ambiente peculiar uma coleção de transições de desenho animado e planos slideshow de apresentação. No último terço do filme a jocosidade dá lugar a uma secura, inclusive na representação do sexo, apelando para uma simbologia agressiva (literal e expositivamente). Por exemplo, enquanto estão em fuga para Londres, mais perto do final do filme, há uma segunda cena de sexo entre os irmãos. Os antecedentes são o plano de uma coruja, seguido de um close em um tronco no qual escorre uma absurda quantidade de sangue (um “pau” transbordando vitalidade). A transa, em si, é rápida demais, sem apuro visual ou dramático. A relação se desgasta, se esvazia. Marguerite chega pedir perdão a Deus pelos seus pecados.

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Em comparação com o resto do filme, que tem um interesse muito grande pela frontalidade, por uma composição visual bem definida, por uma violência seca (destaque para duas cenas de morte sem cortes), os minutos finais mostram uma caretice enorme. Se o trabalho pobre de atuação dos protagonistas, vividos por Anaïs Demoustier e Jérémie Elkaïm, era justificado pela relação cênica configurada, sem eufemismos, quando essa coragem deveria atingir sua epítome, a câmera foge. Para que tantos floreios, então, se o caminho a ser seguido é o atalho mais próximo?

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Incapaz de terminar até numa nota grave, Marguerite e Julien sabe esconder bem os temas sob as sua narrativas, mas que não carrega em suas decisões metade do amor e da coragem que moveu o amor dos irmãos até as últimas consequências.

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Marguerite e Julien (Marguerite et Julien, França – 2015)
Direção:
Valérie Donzelli

Roteiro: Valérie Donzelli e Jérémie Elkaïm
Elenco: Anaïs Demoustier, Jérémie Elkaïm e Frédéric Pierrot
Gênero: Romance
Duração: 105 minutos

Tags: #Cinema #crítica #Cult #Drama #Erótico #Estrangeiro #Filme #Francês
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