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Crítica | Mudbound: Lágrimas sobre o Mississippi – Feridas antigas

A estupidez humana.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
15 de fevereiro de 2018 · 5 min de leitura
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Crítica | Mudbound: Lágrimas sobre o Mississippi – Feridas antigas

Na cena inicial de Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi, os irmãos Henry e Jamie McAllan (Jason Clarke e Garrett Hedlund, respectivamente) cavam um um buraco profundo no chão lamacento. Dos céus escuros despencam raios mortais e uma chuva torrencial. Durante alguns minutos, o espectador não sabe exatamente por que eles estão fazendo isso com tanta urgência. Estariam prestes a enterrar alguém? Um tempo depois, essa suspeita se confirma. O infortunado não é ninguém menos que o pai da dupla (interpretado por Jonathan Banks). No entanto, após descobrirem que aquela era a cova de um escravo, eles se perguntam se o local seria o ideal para colocá-lo.

É assim, com essa breve cena inicial, que Dee Rees anuncia para o espectador que o seu novo longa-metragem como diretora será sobre feridas antigas, as quais nunca deixam de ser desenterradas pela capacidade humana de continuar cometendo os mesmos erros. Na sua multiplicidade de temas, Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi aborda, essencialmente, a estupidez humana e como ela é um fator constante em nossa história. Racismo, segregação e orgulho são as tristes cores com que o longa pinta o Mississippi das primeiras décadas do século XX e certas situações que se estenderam por tempo demais nessa região dos Estados Unidos.

Para estabelecer os conflitos que constituem o núcleo dramático e fazer o amplo retrato de uma sociedade multifacetada, o roteiro escrito pela própria cineasta ao lado de Virgil Williams (o texto foi baseado no romance de Hillary Jordan) aposta em discursos em off das várias personagens e numa narrativa fragmentada em diversos arcos dramáticos. Essas escolhas ousadas — que para um espectador indisposto a embarcar na história podem se tornar um suplício — garantem o sucesso do longa e fornecem à trama fortes camadas de densidade dramática, com todo o caráter trágico que acompanha embates sociais.

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A principal dessas camadas está relacionada com a solidão profunda de cada uma daquelas almas. Entretanto, não se trata de uma solidão física, já que, na maior parte do tempo, como os belíssimos planos gerais nos mostram constantemente (mérito do bom trabalho paisagístico da diretora de fotografia Rachel Morrison), as personagens se encontram juntas num recinto. O isolamento que as rodeia é diferente e tem a ver com a ruptura completa entre os indivíduos e a sociedade. De uma maneira ou outra, todas aquelas pessoas tiveram os seus respectivos futuros determinados por forças que estão fora do controle e que não apresentam relação alguma com os seus desejos mais profundos e íntimos.

Henry é um fazendeiro porque assim quiseram o seu pai e a estrutura social da sociedade em que vive; Jamie, um sedutor contumaz, se torna um soldado porque a Segunda Guerra Mundial eclodiu e a convocação foi feita; comentário parecido pode ser dito acerca de Ronsel (Jason Mitchell), um jovem negro; Laura (Carey Mulligan), a esposa de Henry, é dona de casa e mãe porque essa era uma das poucas possibilidades que existiam para uma jovem garota sair da residência dos pais e se tornar uma mulher; Hap (Rob Morgan) e Florence (Mary J. Blige) lutam para manter a honra e serem proprietários de terras numa cidade que não quer acolhê-los.

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Quando eles usam a voz interior para se comunicar com o espectador e os sons diegéticos desaparecem, a sensação de isolamento é assustadora. Mesmo unidos por dores com um fundamento em comum, cada um deles se encontra sozinho em sua lamentação, com todas as possíveis formas de comunicação encobertas pelos estratos da realidade mais imediata (o fato de os monólogos sempre conterem informações precisas e enriquecedoras sobre as personagens é essencial para que não se tornem repetitivos e redundantes em relação às coisas que são transmitidas pelas imagens).

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Não é por acaso que o único diálogo real que existe na narrativa surge entre dois homens que, diferentes em quase tudo, compartilham igualmente a experiência da guerra. É só por meio deles que a sociedade se torna, mesmo que por uma parcela de tempo, conciliadora, e a ligação emocional– a qual é simbolizada pelo carro no qual andam juntos ou pela garrafa da qual tomam o mesmo líquido — acontece internamente, através de um elo invisível, mas forte o suficiente para se manter firme quando tudo ao redor quer destruí-lo.

Se na análise geral Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi não se revela um melodrama inesquecível, isso se dá somente porque a direção de Rees não apresenta muitos recursos narrativos e a montagem interfere indevidamente nos instantes de transição (um número maior de match-cuts solucionaria uma parte considerável desse problema). Entretanto, como o seu desenrolar dramático é impactante e a mensagem enviada pela história e as personagens são de uma humanidade necessária e irresistível, é muito difícil sair da sala de cinema sem se sentir comovido com o que acabou de ser visto. 

Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississippi (Mudbound, 2017 – EUA)

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Direção: Dee Rees
Roteiro: Dee Rees e Virgil Williams
Elenco: Jason Clarke, Garrett Hedlund, Carey Mulligan, Mary J. Blige, Jonathan Banks, Rob Morgan, Jason Mitchell
Gênero: Drama
Duração: 134 min.

Tags: #Carey Mulligan #Cinema #crítica #Dee Rees #Filme #Garrett Hedlund #Jason Clarke #Jason Mitchell #Jonathan Banks #Mary J. Blige #Rob Morgan #Virgil Williams
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