Cinema

Crítica | O Convite é comédia teatral sustentada por bom texto e ótimo elenco

O Convite é o tipo de filme com tudo para agradar ao público adulto, que muitas vezes acaba negligenciado

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
4 min de leitura

The Invite (título original de O Convite) é uma comédia dramática divertida, de concepção teatral e adaptada do filme espanhol Sentimental, de 2020, dirigido e escrito por Cesc Gay a partir de uma peça de sua autoria. A ideia original rendeu também uma versão sul-coreana chamada The People Upstairs, de 2025. São pelo menos três adaptações para três culturas distintas, o que evidencia o caráter universal dos conflitos e preocupações atuais que o enredo traz à tona.

Na trama, Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) são um casal na faixa dos 40 anos que dividem um belo apartamento em San Francisco e têm uma filha adolescente (que nunca aparece). Joe é um músico frustrado que dá aulas num conservatório de bairro, enquanto Angela passa seus dias em atividades domésticas e decoração de interiores. Uma noite, a esposa convida o casal de vizinhos, o bombeiro Hawk (Edward Norton) e a terapeuta Piña (Penélope Cruz) para um jantar inesperado, o que provoca uma pequena crise interna. A chegada dos quase estranhos, cujos hábitos e modo de vida são muito diferentes, irá ocasionar algumas horas de desencontros e revelações. 

A premissa do enredo não é exatamente original e lembra ora algumas “comédias de apartamento” de Woody Allen (que por sua vez influenciaram uma infinidade de sitcoms nas últimas três décadas), ora filmes de baixo orçamento mais recentes com foco nas relações entre casais de classe média dos grandes centros urbanos. Nesse recorte, o primeiro filme que vem à cabeça é provavelmente o também divertido Virando a Noite, de 2015, com Adam Scott e Jason Schwartzman, que parte de uma situação bem parecida.

Embora novata, Olivia Wilde é uma diretora com pleno domínio da narrativa, conforme ela já demonstrara previamente no subestimado Não Se Preocupe, Querida, de 2022, onde ela também atuava como atriz. A adaptação do roteiro passa pela dupla Rashida Jones (filha de Quincy Jones e atriz da versão norte-americana de The Office) e Will McCormack, brilhando em diálogos afiadíssimos. Rashida escrevera anteriormente o famoso episódio Nosedive da série britânica Black Mirror, na terceira temporada.

O Convite tem alguns problemas – todos de concepção, não de realização. O primeiro deles é o uso da trilha musical, que embora esteja relativamente justificada pelo prólogo de Joe na escola de música, adiciona um “ruído” desnecessário às cenas, que já são por natureza repletas de “ruído” dramático nos diálogos ácidos. Os momentos em que a direção aposta apenas no elenco em cena e no bom texto são pontos altos, embora em nenhum momento esse tipo de “efeitismo” chegue ao limite do suportável, como em O Drama, outro filme recente que explora o mesmo universo imaginário. 

Outro problema é na verdade uma limitação da própria ideia. Conforme é originalmente um texto para o teatro, o filme está aprisionado pelo conceito de unidade cênica de tempo-espaço, o que retira um pouco da surpresa do desenrolar. O público rapidamente percebe que está diante de uma encenação delimitada pelo apartamento e pelo período do jantar, o que determina toda a dinâmica do roteiro. 

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Por outro lado, o material com que os atores trabalham é realmente bom, o filme evita a caricatura pura (e o conteúdo levaria a isso facilmente) e dá oportunidade para que os quatro tenham seus momentos altos. Embora Penélope e Seth pareçam um pouco “aprisionados” nas personas cinematográficas que eles vêm cultivando ao longo das carreiras (a “latina sofisticada e maluquete” e o “engraçado e inseguro”, respectivamente), é difícil não simpatizar com eles. Norton é um ator discreto e cheio de personalidade em cena, enquanto Wilde é uma presença atraente, selvagem e caótica da qual dificilmente se consegue tirar os olhos.

O Convite é o tipo de filme com tudo para agradar ao público adulto, que muitas vezes acaba negligenciado pela enxurrada de grandes produções voltadas para uma faixa etária mais baixa. É engraçado e inteligente sem ser pedante, filmado com competência e terminando num belo desfecho. Vale o ingresso.

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