Responsável por obras como AcossadoO Desprezo, Banda à ParteAlphaville e etc, Jean-Luc Godard se estabeleceu, ao lado de François Truffaut, como um dos ícones da Nouvelle Vague, o que certamente o coloca num seleto time de figuras mais importantes da História do Cinema – em compensação, há também o Godard por trás das câmeras, que era um sujeito egocêntrico, frio e arrogante que parecia projetar menosprezo contra tudo e todos à sua volta. Ao menos é este o protagonista de O Formidável, que, dirigido pelo oscarizado Michel Hazanavicius, cria um retrato divertido e ácido do Jean-Luc Godard em sua vida pessoal.

Escrito por Hazanavicius, o roteiro se situa em Paris no ano de 1967, quando o diretor já havia se consolidado como um dos grandes nomes do Cinema e estava prestes a lançar um filme polêmico: A Chinesa. Certamente interessado em trazer discussões políticas às suas obras, Godard tinha que enfrentar a controvérsia que girava entorno de seu longa ao mesmo tempo em que participava de manifestações truculentas. Com o passar do tempo, porém, a aura esquisitona do cineasta começa a se tornar excessivamente cruel, o que acaba gerando um conflito cada vez maior entre ele, sua esposa Anne Wiazemsky e seus amigos.

Obviamente concebido como uma dramédia, O Formidável é um longa que celebra a Sétima Arte de maneira divertida e respeitosa (algo que Hazanavicius também fez no ótimo O Artista: lá, ele resgatava uma linguagem muda e em preto e branco a fim de contar como a ascensão do Cinema falado impactou os grandes ícones dos anos anteriores – aliás, é injusto que muitos reduzam o filme a uma mera bobagenzinha feita apenas para ganhar prêmios). Aqui, Hazanavicius conduz uma experiência que, do ponto de vista técnico, parece pertencer a épocas passadas: a fotografia de Guillaume Schiffman investe num grão mais grosso que remete aos anos 1960; o design de produção de Christian Marti aposta em cenários coloridos que recuperam o vermelho existente no próprio A Chinesa; e a direção ocasionalmente revela imagens que parecem ter sido feitas com câmeras antigas.

Neste momento inclusive, Hazanavicius faz uma brincadeira com o frame rate durante o diálogo entre Godard e um fã, como se este fosse visto através da câmera manual que o diretor usa. E é neste aspecto que O Formidável me conquistou de fato: sempre disposto a se divertir com o que a linguagem cinematográfica permite fazer, Hazanavicius oferece sequências instigantes como aquela que traz o casal transando como se fizessem parte de um ensaio fotográfico em preto e branco. Além disso, a mescla entre fotografia, montagem e trilha sonora rende uma passagem interessante onde Godard e Anne estão dialogando e, conforme a música vai revelando novas batidas, os planos tornam-se negativos. Para completar, o design de som é inspirado ao incluir certos efeitos que complementam as ações dos personagens: quando Jean-Luc aponta a câmera para a cabeça e faz um movimento como se desse um tiro, um efeito sonoro é inserido como se fosse o disparo de um projétil.

Pontuado por um senso de humor ácido e direto que condiz muito com a personalidade debochada e sarcástica de Godard, O Formidável faz rir através de situações inusitadas: se o protagonista afirma que não há como se divertir com a dura realidade, logo em seguida somos surpreendidos por uma cena engraçada (até certo ponto) onde a polícia parte pra cima dele. E tem também um diálogo onde Jean-Luc diz a Anne que “não compreende essa fixação que os diretores têm por corpos nus” como se isso fosse uma exposição anti-Arte, sendo que a cena se torna hilária em função do que os personagens (não) estão vestindo – e este é um momento cômico que funciona justamente por ser tão escrachado e absurdo.

Mas é claro que O Formidável não seria tão bem-sucedido se não contasse com atuações dignas, algo que felizmente é garantido por Louis Garrel: além de ser fisicamente parecido com Jean-Luc Godard, o ator mais que competente ao evocar o espírito azedo, irônico e cheio de desprezo que existia no cineasta original (e quando alguém diz que o sujeito “acusa os outros de se distanciarem dele, mas ele próprio faz questão de afastar os outros“, é perfeitamente possível sentir essa disparidade graças à performance de Garrel). Outro nome que merece destaque é o de Stacy Martin, que já havia feito um ótimo trabalho em Ninfomaníaca e que, desta vez, confere credibilidade ao arco dramático de Anne Wiazemsy, saltando do amor pelo marido à inevitável frustração com agilidade e sutileza (e se no início ela parecia relevar a crueldade de Godard por considerá-la o “jeito” dele, depois ela é obrigada a constatar que o indivíduo nada mais é do que… um escroto).

Contando com a presença de Bérénice Bejo (que também esteve em O Artista e que, aqui, serve quase como uma “voz da razão” para Anne), O Formidável declara sua admiração pelo Cinema de maneira espontânea e ágil, comprovando que Michel Hazanavicius veio mesmo para ficar. E conhecer um pouco mais de Jean-Luc Godard nos bastidores de suas obras pode ser um pouco doloroso, mas ao mesmo tempo é satisfatoriamente divertido.

O Formidável (Le redoutable, 2017 – França)

Direção: Michel Hazanavicius
Roteiro: Michel Hazanavicius
Elenco: Louis Garrel, Stacy Martin e Bérénice Bejo
Gênero: Comédia
Duração: 102 min.