Crítica | O Grande Arco de Paris é comovente relato histórico sobre arquitetura, política e obstinação
O Grande Arco de Paris, adaptado do romance de Laurence Cossé, é a jornada de um artista levado ao limite por suas escolhas e pela fidelidade que decidiu abraçar em relação ao próprio olhar.
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Todo artista tem sua relação própria com a realidade e a tendência a criar seu próprio mundo, sua “realidade” pessoal que representa o recorte a partir de seu olhar individual. Mas provavelmente somente o arquiteto tem a possibilidade de transformar a realidade de maneira concreta; seu “mundo interior” eventualmente ganha vida convertido em formas, estrutura e materiais que, em conjunto, terão lugar físico, funcional, na realidade de outras pessoas. O “filme” dirigido pelo arquiteto, a “sinfonia” composta por ele, tem localização geográfica – pode ser experienciado, explorado, não simplesmente “tocado”, mas penetrado. E, ironicamente pelo mesmo motivo, é sua obra que mais facilmente pode ser reduzida a ruínas.
O Grande Arco de Paris, adaptado do romance de Laurence Cossé, é a jornada de um artista levado ao limite por suas escolhas e pela fidelidade que decidiu abraçar em relação ao próprio olhar. Nesse sentido, seu protagonista lembra Howard Roarke, do clássico Vontade Indômita (1949). No entanto, enquanto Roarke como arquiteto defendia uma ideia maior que ele próprio, o protagonista do filme dirigido por Stéphane Demoustier parece defender apenas a si mesmo. Ele é modesto e majestoso ao mesmo tempo. Sua tese é sua obra – “uma” obra em específico.
Até mesmo por isso, ele é um alvo mais frágil que Roarke, este capaz de reproduzir seu caráter e exercitar sua integridade repetidas vezes diante do tribunal social. O arquiteto de O Grande Arco de Paris, por outro lado, está organicamente atrelado a uma obra só. Ela é ao mesmo tempo sua paixão, seu legado e seu ocaso emocional. Como o arquiteto de O Brutalista (2024), Laszlo Tóth, ele é quase indefeso, embora por motivos diferentes: o personagem de Adrien Brody é uma vítima da História, enquanto o protagonista aqui é vítima de uma obstinação puramente estética.
Na trama, inspirada por eventos reais ocorridos na década de 1980, o desconhecido professor dinamarquês de arquitetura Otto von Spreckelsen (Claes Bang, de The Square: A Arte da Discórdia, em outra ótima performance) ganha um disputado concurso para projetar o Arco da Defesa encomendado pelo presidente francês da época, o socialista reformador François Mitterrand (Michel Fau). Otto se muda para Paris acompanhado da esposa e sócia Liv (Sidse Babett Knudsen) para gerenciar as obras, mas encontra uma série de dificuldades e desafios entre os colaboradores nativos como o assessor Jean-Louis Subilon (o também diretor canadense Xavier Dolan), até que o enfraquecimento político de Mitterrand modifica o destino da obra e compromete totalmente a ideia original do arquiteto estrangeiro.
A arquitetura tem produzido muitos bons filmes, embora a figura do “arquiteto” seja menos atraente para os cineastas que a do “advogado” ou a do “jornalista”, por exemplo. Entre os principais filmes em que o trabalho do arquiteto é peça central da trama, estão desde o já citado clássico absoluto Vontade Indômita, um dos melhores filmes de todos os tempos; O VistaVision tardio de Brady Corbet estrelado por Brody; o épico Terra dos Faraós (1955), de Howard Hawks; a ficção científica A Origem (2010); o brilhante terror A Casa Sombria, de 2020; o exercício megalomaníaco de Coppola, Megalópolis (2024); e até mesmo a hilária comédia argentina O Homem ao Lado (2009), dos diretores argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat. O Grande Arco de Paris figura facilmente entre esses outros títulos: é um drama intimista e, ao mesmo tempo, uma crônica histórica descompromissada que evita eleger vilões fáceis, levado com sensibilidade por Demoustier do primeiro ao último minuto de projeção.
O Otto von Spreckelsen do filme é um artista vivendo em seu próprio mundo fechado de integridade, até que a realidade exterior se impõe: na forma de intriga política e emocionalidades, quando ele – tropegamente – se dá conta de que dinheiro não dá em árvore, nada dura para sempre e não se pode sonhar o mesmo sonho eternamente. O despertar de Otto não compromete sua trajetória, sua ética de trabalho e a lealdade à Mitterrand, ao mesmo tempo oráculo e esfinge. Mas nos faz lembrar que a concretude da vida é ainda mais sólida e implacável que a do mármore que von Spreckelsen carinhosamente seleciona em sua viagem a Carrara – e que acaba preterido por uma imitação mais barata quando a obra é colocada de pé.