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Catálogo

Crítica | O Mágico

A última visita ao mágico.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
8 de julho de 2016 · 6 min de leitura
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Crítica | O Mágico

Quando eu era criança, era fascinado por mágica. Achava incrível ver pombas, lenços, moedas, todo tipo de parafernália sair voando das mangas do artista ou quando utilizava truques de ilusão para levitar ou cortar a assistente pelo meio. O problema é que eu fui crescendo e me desinteressando por mágica. Porém, eu não fui o único a abandonar a cartola do ilusionista, mas, sim, muita gente e este acontecimento é retratado neste brilhante filme de Sylvain Chomet.

Tatischeff, um grande mágico, está com sua carreira indo por água abaixo. Com cada vez menos pessoas se interessando por seu trabalho fica cada vez mais difícil viver, ou melhor, sobreviver. E assim começa sua jornada por diversos países na Europa para tentar fixar-se em um emprego, mas ocorre algo inesperado no meio de suas tantas viagens. Uma jovem, Alice, encantada pelo dom do homem, decide acompanhá-lo em suas viagens. Entretanto, a menina que devolve a alegria e a inspiração ao ilusionista é a mesma que consome seus ganhos.

Evidenciando a triste verdade

O roteiro escrito por Jacques Tati adaptado por Sylvain Chomet é crítico ao extremo e revela para o mundo desacordado e despercebido que artistas de cabaré e circo pertencem ao passado. O seu retrato principal é mostrar e desenvolver a relação do velho mágico com Alice. Enquanto o ilusionista lida com suas dificuldades emocionais e financeiras – precisa procurar emprego a todo instante –, Alice pede coisas sem parar e cuida dos outros artistas hospedados no hotel. O secundário já é mais importante que o primeiro porque mostra como todos artistas antigos e talentosos são trocados por bandinhas passageiras idolatradas pelas adolescentes escandalosas e, mostra como cada um se vira para continuar vivendo na maneira que pode.

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A maior característica do roteiro são suas poucas falas, ou seja, os personagens não falam quase nada a maioria do filme, uma coisa pouco comum nos dias de hoje onde a falação desenfreada predomina na maioria dos roteiros. O mais impressionante são seus personagens que mesmo mudos possuem um carisma raro de se ver nos filmes hollywoodianos. Todos eles encantam e emocionam o espectador. Nenhum chega a ser maçante ou muito deprimentes graças a forma caricata (influência de Toulouse-Lautrec, provavelmente, um pintor que retratava o circo em cartazes imensos para ganhar a vida, provavelmente, por causa do seu nanismo) e bem humorada, especialmente o escocês, que são retratados. Os diálogos quando existentes resumem-se a frases pequenas, grunhidos ou falas ininteligíveis.

Além de ser crítico, ele é triste e impactante assim como a realidade. Os artistas estão em depressão e buscam empregos constrangedores ou que nada tem a ver com seus talentos ou até mesmo acabar na mendicância onde acabam sendo humilhados pela população. Cada personagem tem seu conflito com sua respectiva complexidade, até mesmo o coelhinho de Tatischeff ou o boneco do ventríloquo possuem um drama interessante.

Voltando as origens

Ao contrário de muitas animações por aí, “O Mágico” é um filme feito à moda antiga, ou seja, inteiramente animado e produzido a mão sem animação gráfica, hoje mais conhecido como animação em 2D.

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Esteticamente, o filme é o mais bonito que vi neste ano, os cenários (que são pinturas lindas cheias de detalhes) acompanham as localidades que o mágico visita – Paris, Londres, um vilarejo na Suécia e, por fim, Edimburgo. Cada cidade tem um jogo de cor diferente, obviamente Paris, a cidade das luzes, é a mais iluminada e que possui cores mais vibrantes. O vilarejo acompanha a fase de tristeza do protagonista. Então, subitamente, as cores puxam para um tom mais cinzento e azulado para contrastar com a incessante chuva da Suécia. Já Edimburgo é mais amarronzada e bege casando com a fase um pouco mais tranquila da vida do ilusionista.

A animação do filme é um dos aspectos mais interessantes da composição. Cada personagem possui uma movimentação própria, por exemplo, Tatischeff anda com passos pesados e com o punho sempre fechado evidenciando o continuo desconforto e preocupação no momento que vive, fora as mágicas que ele executa, cada uma mais trabalhada que a outra. O palhaço anda com passos bêbados, por motivos óbvios. Os trigêmeos asiáticos movimentam-se com mais complexidade sempre com seus passos de trapezistas.

A maneira de como o filme é feito também é muito intrigante. Na maioria das vezes a câmera é fixa, mostrando apenas um plano aberto do cenário onde os personagens animados interagem no espaço. Ela foge de close-ups e dificilmente movimenta a câmera. Muito de vez em quando, ela faz um movimento panorâmico e a animação fica modelada em 3D realizando um plano muito belo.

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Encantando aos poucos

A música é emocionante. Ela é composta por acordes agudos e notas fininhas que tentam tirar lágrimas de seus olhos. Na minha sessão, umas quatro pessoas choraram, então realmente a música é bem impactante. Ela também sempre casa com a cena sem exageros – músicas muito carregadas com drama podem ferir o projeto e tornar a imagem uma novela mexicana.

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Como o filme não é falado, ele é cheio de sons. Eles criam uma atmosfera única para cada cenário e ajudam a elevar a dramaticidade da cena em muitos casos. Todos os sons que você imaginar, irá encontrar neste filme, bom pelo menos a maioria.

Bem-vindo à magnífica experiência da verdadeira mise-en-scène

O renomado diretor francês Sylvian Chomet, também roteirista e compositor do filme é conhecido pela sua direção no brilhante “Bicicletas de Belleville”. “O Mágico” tem um estilo de animação muito parecida com a do seu projeto anterior, mas com um design de personagens muito menos bizarro e medonho como os de “Belleville”. Claro que todos ainda são retratados de maneira bem caricata.

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Mesmo com a animação sendo em 2D, ele mostra todo o seu poderio e maestria em execuções muito complexas, como quando várias penas de ganso voam no cenário. Ele também utiliza a iluminação a seu favor, bastante relevante nas cenas de seu filme, como quando Tatischeff e Alice dormem em Edimburgo onde existe um neon que pisca incessantemente. Fora a iluminação, usa as sombras para criar efeitos assustadores de tão raros. Por exemplo, no fim do filme, há uma cena onde não existem personagens. Apenas as sombras dos móveis movendo-se conforme a luz do luar, certamente uma das passagens mais bonitas do filme.

Chomet provou ter toda a sensibilidade e talento em direção cinematográfica neste filme. Afinal, tratou um tema bem triste de forma questionadora e crítica a respeito de como a sociedade trata os profissionais que já foram famosos no passado, mas esquecidos no futuro.

A última visita ao mágico

Esta animação é mais voltado para adultos, nem tente levar crianças para vê-lo, pois pode tornar-se uma experiência cansativa para elas. Ele é maravilhoso e, certamente, você irá perder a oportunidade de assistir uma bela história animada em meio de pinturas dignas de museu. Todavia há um porém – este filme fará você enxergar que os mágicos estão tão extintos quanto os dinossauros e você vai se sentir um pouco triste com isso.

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O Mágico (L’illusionniste – França, Reino Unido, 2010)
Direção: Sylvain Chomet
Roteiro: Sylvain Chomet
Elenco: Jean-Claude Donda, Eilidh Rankin, Duncan McNiel, Raymond Mearns, James T. Muir, Tom Urie, Paul Bandey,
Duração: 80 minutos.

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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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