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Em cada uma de suas temporadas, Once Upon a Time tenta ao máximo se renovar, entregando-nos contos clássicos revestidos em histórias de drama e de suspense, renegando até mesmo a ideia do costumeiro final feliz em prol de chocar o público e aumentar ainda mais a complexidade dos inesquecíveis personagens e suas respectivas fábulas. Porém, a partir do terceiro ano, a série começou a forçar uma nova estrutura que, de início, prometia redescobrir a si mesma – porém, começou a cair em uma infeliz datação e monotonia. E a estrutura em questão, a partir da qual cada uma das iterações se divide em duas e apresenta uma narrativa principal que se desmembra em várias outras, desmantelou-se por completo com a chegada da quinta temporada.

Em uma continuidade esperada para o aplaudível cliffhanger do ano anterior, em que Emma (Jennifer Morrison) sacrificou-se para salvar Regina (Lana Parrilla) em um nobre e heróico ato que nos arremessa de volta para o proposital maniqueísmo dos contos de fada e, como consequência, tornou-se a Senhora das Trevas. E logo no primeiro episódio, descobrimos que Emma não apenas se transformou na criatura mais poderosa de todos os Reinos, como também se materializou em um místico e famoso território: Camelot, lar das medievais e irretocáveis novelas de cavalaria das escolas literárias trovadorescas.

À prima vista, Camelot e Once Upon a Time são um casamento perfeito e inesperado, visto que o Reino do lendário Rei Arthur é palco das jornadas mais emocionantes de todos os tempos, além de carregar consigo uma gama de personagens que vão muito além da superficialidade. E, em uma ramificação coesa, faz até sentido que a série se valha desse subplot e abandone, por ora, o escopo fabulesco – entretanto, as coisas não permanecem nesse âmbito por muito tempo. Essa talvez é a terceira vez que os protagonistas se veem em um local muito diferente da pacata Storybrooke, e os criadores Edward Kitsis e Adam Horowitz definitivamente não fazem jus ao potencial que a temporada nos apresenta, esquecendo-se até mesmo de colocar personas ímpares em prol de uma construção preguiçosa e nada satisfatória.

Emma deseja se livrar da escuridão que começa a controlá-la cada vez mais e, para isso, apenas um ser mais poderoso que ela mesma pode ajudá-la: o mago Merlin (Elliot Knight), preso na forma de uma árvore há milênios. E é claro que, de forma a emular as iterações predecessoras, cada um deles terá de abrir mão de uma certa parte de si mesmo para completar o feitiço, quebrar a “maldição” que se apossou de um coração tão puro quanto o de Emma e voltar para casa. E, como também é de praxe, certos obstáculos insurgem nesse meio tempo para impedir que completem sua missão (e cada vez mais o show se assemelha mais a um jogo não finalizado de RPG que uma investida televisiva).

A primeira parte da temporada não é de toda jogada no lixo: a construção dos cenários medievais alcança um novo patamar dentro das limitações da série, obviamente. Mas é interessante ver a organicidade dos personagens e como, mesmo em meio a tantas falhas, Kitsis e Horowitz conseguem nos entregar algumas viradas interessantes – colocando, por exemplo, o Rei Arthur (Liam Carrigan) como um dos principais antagonistas. Arthur é um guerreiro cuja missão de salvar Camelot acaba nunca se concretizando, principalmente pelo fato de Excalibur, a poderosa espada, não estar completa (aparentemente a adaga do Senhor das Trevas é parte do objeto). E mais que isso, o intocável herói, na verdade, constrói-se em cima de mentiras e manipulações para conseguir o que sempre desejou: um Reino para comandar ao lado de sua amada, Guinevere (Joana Metrass).

Porém, a série volta a se perder em meio a tantos personagens ao invés de focar apenas em um momento da storyline. Nesse meio-tempo, os conhecidos personagens também se desenvolvem e descobrem coisas sobre seu passado que até então não sabíamos – e que marcam inúmeros furos no roteiro apenas para tapar os buracos existentes. E Emma, que poderia sofrer uma grave desconstrução em sua personalidade, insurge como a Senhora das Trevas mais boazinha de todas, afastando-se de sua família e roubando suas memórias (de novo) para que não descubram o que realmente aconteceu – incluindo a transformação de Gancho (Colin O’Donoghue) em uma criatura vingativa e sedenta por sangue.

De qualquer forma, é frustrante ver como o incrível potencial é desperdiçado – Morgana Le Fay, uma das principais figuras das novelas de cavalaria, nem ao menos é mencionada ao longo dos episódios. E as expectativas para a segunda metade, que leva os heróis para o submundo para resgatarem uma alma perdida, desfalece logo nos primeiros minutos, e nem mesmo a presença sarcástica de Greg Germann como Hades, comandante do Inferno e primeira entrada concisa da mitologia grega no show, consegue se salvar. Na verdade, sua atuação canastra nunca chega aos pés de performances infinitamente melhores, como a de Parrilla e a de Cora (Barbara Hershey).

Talvez o único ponto realmente interessante seja o retorno de personagens que pensávamos nunca mais aparecer no escopo seriado. Além de Cora, Peter Pan (Robbie McKay), Cruella (Victoria Smurfit) e até mesmo Gastão (Sage Brockleback) aparecem em árduos trabalhos, presos no submundo por terem questões pendentes com o mundo dos vivos – resgatando uma deliciosa nostalgia das primeiras temporadas, a qual pelo jeito nunca mais existirá. Todavia, essa animadora centelha logo se apaga quando o time de roteiristas apressa as conclusões de cada um dos arcos, quebrando maldições episódio sim, episódio não, introduzindo personas desnecessárias que dão adeus no mesmo capítulo (incluindo Hércules, Mégara, Dorothy e Chapeuzinho Vermelho) e não acrescentam em nada a continuidade da narrativa principal.

A quinta temporada de Once Upon a Time é a pior entrada de todo o show. A originalidade vista em anos anteriores simplesmente deixa de existir, dando lugar a construção inacabadas, apressadas e até mesmo formulaicas demais para a identidade inicial da série. De fato, sentimos falta de quando a série da ABC estava em sua glória e, em uma máxima quase realista, é pouco provável que ela retorne.

Once Upon a Time – 5ª Temporada (Idem, EUA – 2015)

Criado por: Edward Kitsis, Adam Horowitz
Direção: Ralph Hemecker, Dean White, Milan Cheylov, David Solomon, Paul Edwards, David M. Barrett, Anthony Hemingway, Ron Underwood
Roteiro: Edward Kitsis, Adam Horowitz, Christine Boylan, Jane Espenson, Kalinda Vasquez, Daniel T. Thomsen, Andrew Chambliss
Elenco: Jennifer Morrison, Ginnifer Goodwin, Josh Dallas, Lana Parrilla, Emilie de Ravin, Colin O’Donoghue, Jared S. Gilmore, Robert Carlyle, Rebecca Mader, Amy Manson, Caroline Ford, Greg Germann, Liam Carrigan
Emissora: ABC
Episódios: 23
Gênero: Fantasia, Drama
Duração: 45 min. aprox.

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