Cinema

Crítica | Operação 49 é filme de ação movimentado com mensagem nacionalista

A produção turca de 2023 dirigida por Hakan Inan não esconde seu viés político: é uma obra de exaltação do governo turco e especialmente de seus serviços de inteligência e forças de segurança. Embora o tom ufanista possa perturbar uma parcela dos espectadores, Operação 49 funciona como filme de ação, além de servir como retrato […]

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
4 min de leitura
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A produção turca de 2023 dirigida por Hakan Inan não esconde seu viés político: é uma obra de exaltação do governo turco e especialmente de seus serviços de inteligência e forças de segurança. Embora o tom ufanista possa perturbar uma parcela dos espectadores, Operação 49 funciona como filme de ação, além de servir como retrato de um episódio bárbaro praticado pelos terroristas do Estado Islâmico.

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O roteiro parte de um acontecimento real: a invasão do consulado da Turquia em Mosul ocorrida em 11 de junho de 2014, quando os terroristas tomaram a cidade após a queda das forças de segurança iraquianas. Durante a ofensiva, o grupo ocupou o edifício diplomático turco e sequestrou 49 pessoas, entre elas o cônsul-geral, diplomatas, funcionários administrativos e membros da segurança. O episódio levou ao fechamento imediato da representação turca e colocou Ancara sob forte pressão política interna, já que o governo optou por evitar declarações públicas agressivas enquanto buscava uma solução negociada. Os reféns permaneceram em cativeiro por cerca de 101 dias e foram libertados em setembro de 2014, em uma operação conduzida pelos serviços de inteligência turcos, cujos detalhes nunca foram oficialmente esclarecidos e o filme romantiza de maneira exagerada. O incidente teve impacto direto na política externa e de segurança da Turquia, influenciando sua postura inicial cautelosa em relação ao combate direto ao EI e reforçando a percepção de risco para missões diplomáticas em zonas de conflito no Oriente Médio.

Operação 49 é representativo de um cinema turco popular de gênero que costuma passar relativamente despercebido no ocidente, mais acostumado às produções televisivas (as famosas novelas turcas) e aos filmes de prestígio artístico. Enquanto as primeiras funcionam como um poderoso vetor de soft power cultural e econômico, o cinema de arte turco atingiu sua fama com obras que dialogam com o realismo, a filosofia e os dilemas sociais do país. Nesse campo, destacam-se cineastas como Nuri Bilge Ceylan, vencedor da Palma de Ouro em Cannes por Sono de Inverno (Winter Sleep), Semih Kaplanoğlu, premiado com o Urso de Ouro em Berlim por Mel (Bal), além de nomes recorrentes em festivais internacionais como Zeki Demirkubuz e Yeşim Ustaoğlu. Esse contraste entre TV industrial e cinema autoral de prestígio não é um retrato fiel da complexidade e da vitalidade do audiovisual turco neste século.

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O cinema de ação turco, por sua vez, tem viés fortemente nacionalista e emergiu como um subproduto das transformações políticas do país nas últimas duas décadas, assumindo a função de entretenimento e, simultaneamente, de narrativa de identidade. Esses filmes costumam retratar operações de inteligência, forças especiais e ameaças externas em roteiros que privilegiam a moralidade, o heroísmo disciplinado e a ideia de um Estado constantemente cercado por inimigos ocultos. Inspirado tanto por modelos hollywoodianos quanto por sucessos locais da televisão, esse subgênero aposta em ritmo acelerado, conflitos armados e personagens arquetípicos, muitas vezes vinculados de forma explícita a instituições estatais. Mais do que buscar complexidade psicológica ou ambiguidade ética, essas obras funcionam como afirmações simbólicas de soberania e coesão nacional, dialogando diretamente com um público doméstico que reconhece nesses filmes uma leitura cinematográfica das tensões reais enfrentadas pela Turquia no cenário regional e internacional.

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A Turquia ocupa um papel bastante particular dentro do contexto da região por ser um país que historicamente caminhou em direção à laicidade e onde as mulheres têm um papel muito mais ativo que em seus vizinhos islâmicos. Ao mesmo tempo, o militarismo e o autoritarismo permanecem como forças latentes, e Operação 49 não esconde nada disso. Se todo o conteúdo de ação e suspense é conduzido com inegável competência, a necessidade de o tempo todo reafirmar o caráter dos agentes de segurança envolvidos diminui a força cinematográfica: não existe muito espaço para conflitos internos ou ambiguidades – há um heroísmo esperado e presente na narrativa do princípio ao fim, o que reforça sua natureza que poderia ser acusada de “chapa branca”.

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De todo modo, o filme se posiciona como um registro romantizado de eventos e atores históricos reais, e nunca é demais reafirmar o caráter criminoso do Estado Islâmico, com sua brutalidade e natureza criminosa. No jogo de aparências e suscetibilidades que parece prevalecer hoje na produção cinematográfica “multipolarizada”, não é desprezível um filme que chama os terroristas pelo que eles realmente são.

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