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Crítica | Perdas e Danos – A Mediocridade Adúltera

O último grande filme de Louis Malle.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
24 de abril de 2018 · 5 min de leitura
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Crítica | Perdas e Danos – A Mediocridade Adúltera

Inevitavelmente, em algum ponto da carreira, um artista experimentará o modelo mais comercial da indústria cinematográfica. Seja ela hollywoodiana ou não. Louis Malle já estava experimentando trazer longas mais acessíveis no final de sua carreira com Atlantic City e Adeus, Meninos, sendo que um deles é totalmente falado em inglês, apesar de não ser uma produção americana – durante os anos 1980, Malle se aproximou bastante de Hollywood apesar de não ter feitos obras muito expressivas.

Na culminante década de 1990, que também seria a de sua morte, Malle faria apenas três filmes sendo Perdas e Danos facilmente o de maior sucesso e destaque. Com Jeremy Irons e Juliette Binoche como protagonistas, esse longa envolto por profundo erotismo poderia ter se tornado uma das melhores obras da carreira do cineasta francês, mas que, de alguma forma, acaba bastante subaproveitado.

Irreparáveis Perdas

Trazendo o que facilmente poderia ser a plot de muitos filmes pornográficos, Malle e o roteirista David Hare buscam trazer uma grande seriedade trágica para o acontecimento romântico que abordam com a vida de Stephen Fleming (Irons), um rico ministro britânico, que rapidamente se vê envolvido amorosamente com a noiva de seu filho, a francesa Anna Barton (Binoche). Mantendo esse affair longe dos olhos da esposa e também do próprio filho, Stephen se vê cada vez mais apaixonado por Anna possibilitando a existência de erros reveladores.

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Em questão de poucos minutos é possível perceber onde está o erro crasso ou simplesmente uma falta de atenção comprometedora em Perdas e Danos. Como todo o filme cerca o relacionamento eticamente problemático dos dois, logo é necessário um aprofundamento nessas figuras. Infelizmente, não é o que ocorre, pois nada vai além do básico. Apenas Anna ganha um passado repleto de bizarrices que visam gerar alguma complexidade curiosa na personagem, apesar da atuação bastante fria de Binoche que raramente desperta algum interesse do espectador.

Isso se mantém ao longo de toda a obra. A névoa misteriosa encobre o potencial do relacionamento “normal” de ambos, já que a esposa de Stephen também se mantém incógnita, além do noivo de Anne, Martyn, também ser esquecido, apesar de toda a culminação dramática do longa ser justamente com esse personagem ligado ao casal adúltero. Aliás, até mesmo o primeiro contato para justificar essa explosão apaixonada entre Stephen e Anne é bastante esquisita, conduzida por Malle com tremenda indiferença cênica até mesmo na decupagem.

Mesmo assim, há química entre Irons e Binoche. E por conta disso, as (muitas) cenas de sexo acabam funcionando. Nelas, Malle tem um olhar mais sensível para o erotismo, apesar de descambar quase sempre para tonalidades caricatas das atuações exageradas da dupla, principalmente de Irons que adora gesticular como se não conseguisse conter toda sua paixão ao possuí-la durante o ato. Apesar do diretor, enfim, criar imagens interessantes com composições que buscam estudar a beleza da anatomia do sexo, rapidamente as cenas passam a ser banais pela repetição exagerada dos atores teatrais.

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Já Stephen recebe um detalhamento ainda menor que o de Anna, apenas sendo um completo fissurado pela mulher, além de ser negligente com os cuidados a sua família. O que realmente importa nessas situações não são somente as reviravoltas telegrafadas de reações previsíveis, mas o contato do homem com a mulher que desconhece o fato da traição. Stephen é apenas visto como um neurótico ciumento desequilibrado e raramente entra em conflito sobre as atitudes que toma contra o filho.

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Também, como os dois são bastante afastadas, justificados apenas por uma pequena ressalva durante uma incômoda cena de jantar, é quase impossível que o espectador se relacione com essas personagens a ponto de realmente se importar com o derradeiro destino desses personagens. Como muito do tempo é investido em relações sexuais, sobra pouco tempo no terceiro ato para finalmente introduzir o drama real na obra.

Malle opta por mostrar elementos fáceis e deixar os difíceis escondidos pelas constantes elipses. Isso é realmente uma pena, pois há um potencial grandioso para essa história tão incomum da subversão completa do mito do Édipo. Enquanto a direção de Malle não chama a atenção por ser rigorosamente acadêmica neste caso e da estética do longa ser tão entediante, há pelo menos a exemplar trilha musical de Zbigniew Preisner que consegue tornar as andanças suspeitas de Stephens em algo envolvente.

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O que o cineasta realmente realiza muito bem é a atmosfera magnética para Anne, uma mulher luxuosa, mas simples e de desejos misteriosos, além do encerramento do longa. Nele, Malle personifica uma culpa de Stephens, mas que logo é desmascarada pela câmera que se aproxima unicamente no rosto de Anne, indicando a prisão mental que o protagonista se enfiou.

Danos Permanentes

Perdas e Danos não é de todo medíocre, apesar do roteiro tão atrapalhado que menospreza totalmente seus personagens em um drama que depende unicamente desse desenvolvimento. A reviravolta final é interessante e Malle traz seu olhar mais interessante sobre sexo em toda sua carreira. Ironicamente, no fim é o próprio longa que sofre com perdas e danos na condução muito morna de sua narrativa, tanto na escrita quanto na direção.

Perdas e Danos (Damages, Reino Unido, França – 1992)

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Direção: Louis Malle
Roteiro: David Hare, Josephine Hare
Elenco: Jeremy Irons, Juliette Binoche, Miranda Richardson, Rupert Graves, Ian Bannon
Gênero: Drama, Romance
Duração: 111 minutos.

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Tags: #Jeremy Irons #Juliette Binoche #Louis Malle #Miranda Richardson
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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