Apesar de não ser o primeiro filme de Peter Weir, Picnic na Montanha Misteriosa certamente se comporta como um filme de estreia carregado dos piores e, talvez, melhores vícios dos filmes alternativos dos anos 1970.

É bem provável que nunca tenha escutado falar de Picnic na Montanha Misteriosa, afinal é um longa australiano completamente eclipsado pela efervescência absurda que acontecia no cinema da Nova Hollywood, além da bela revolução cinematográfica do cinema francês.

Inspirado pelo romance homônimo de Joan Lindsey, o longa traz a história do misterioso desaparecimento de três estudantes e uma professora do colégio interno feminino Appleyard em uma celebração ao Dia dos Namorados envolvendo um belo piquenique nos arredores de Hanging Rock, uma grande montanha situada a onze quilômetros da escola.

Causando um furor naquela pacata sociedade dos anos 1900, o desaparecimento das mulheres logo se torna o foco principal da mídia e da polícia que monta um grupo de busca e resgate não muito entusiasmado em encontrá-las.

Uma Adaptação Misteriosa em Excesso

A adaptação de Cliff Green certamente é bastante audaciosa em deixar tantos elementos completamente na mão do diretor Peter Weir que se vale de enormes sequencias silenciosas para mostrar diversos trechos excessivamente monótonos até mesmo para um filme arthouse como esse.

Porcamente trabalhados, os personagens não cativam em absolutamente nada. Não somente pelo tratamento absurdo do roteiro em não delinear essas figuras além de pseudo estereótipos, mas igualmente por conta das atuações que não funcionam. Basicamente, o elenco inteiro traz um ar teatral demasiadamente antiquado que insiste em retirar qualquer imersão que o espectador consiga gerar ao longo do filme.

Apesar de não haver um protagonista propriamente dito, Green insere alguns draminhas baratos, igualmente mal construídos, para tentar movimentar o filme depois do desaparecimento das garotas, já que até o segundo ato, Weir consegue sustentar o longa muitíssimo bem com sua direção competente.

Então temos diversas pequenas narrativas, todas igualmente desinteressantes. Uma é focada em Sara, uma das alunas do colégio Appleyard. A garota completamente obcecada por Miranda, uma das desaparecidas, sofre com a ausência de sua amiga, mas também tem que lidar com a constante ameaça de ser mandada de volta ao orfanato, caso seu tutor não pague as mensalidades para o colégio – Green sugere, com muita preguiça, que diversas alunas vão abandonar a escola depois do caso dos desaparecimentos.

Já o garoto Michael, que observava as meninas desaparecidas enquanto elas subiam a montanha, fica totalmente obcecado, sem nenhuma razão aparente além de um suposto heroísmo, em encontrar Miranda e as outras desaparecidas. Novamente, nada é desenvolvido além disso. Posteriormente, há uma reviravolta inútil conectando Sara com seu núcleo.

As coisas somente ficam mais interessantes exatamente quinze minutos antes do filme acabar, quando Green decide que a matrona diretora e dona do colégio, sra. Appleyard, merece um tratamento mais robusto para se firmar como a antagonista da história. Através de uma pressão bizarra sobre finanças – algo surreal para uma madame tão rica, Appleyard desiste jogar todas as suas frustrações sobre a pobre órfã Sara.

Em um intenso conflito de palavras não ditas, sentimos o ódio crescente entre essas duas personagens que é sim resolvido de modo bastante inteligente gerando diversas dúvidas no espectador sobre as ações de Appleyard para se livrar de Sara. Em pequeno jantar e tenebroso jantar, escutamos algumas breves confidencias dessa odiosa dama de ferro para uma das professoras. Logo, em um montante absurdo de personagens superficiais ou muito mal estabelecidos, temos um resquício de interesse tardio com essa senhora muito desperdiçada nas mãos do roteirista.

Flerte Onírico

É impressionante o domínio que Peter Weir já apresenta com Picnic na Montanha Misteriosa. Mesmo que o longa seja uma bela chatice pedante com um roteiro que nem se atreve a tentar contar uma história, Weir assume o desafio de colocar ordem na casa imbuindo esse filme cheio de interessantes simbologias abstratas com um pé no surrealismo.

Já a sequência de créditos iniciais é bastante inteligente com Weir aproveitando a magia da fusão para oferecer diversas paisagens para Hanging Rock sempre no mesmo ponto de vista, já inferindo uma enorme força sobrenatural que paira naquela formação rochosa particularmente nada bela ou inspiradora.

No primeiro ato, entre diversos diálogos jogados ao léu tentando aspirar alguma significância maior, Weir se concentra na imagem para dar uma tonalidade fabulosamente onírica para os arredores da montanha, nos quais o piquenique acontece. Esse pequeno refúgio representa um leve sabor de liberdade para as garotas tão aprisionadas na atmosfera opressiva da formalidade do colégio, um ambiente totalmente desprovido de cores, luz ou felicidade.

Porém, a beleza idílica da mata, logo se transforma em um cenário duro e abstrato de Hanging Rock. Através de uma nada sutil trilha musical, abordagem com câmera na mão, enquadramentos mais corajosos e outros que acompanham a visão subjetiva de um ser enfiado entre as diversas cavernas da montanha, Weir dá todo o ar sobrenatural necessário para tornar aquele lugar um completo ser vivo e malicioso que encanta jovens ingênuas com uma força absoluta.

Todavia, nem mesmo Weir consegue salvar a colcha de retalhos desconexos que o longa se torna após o desaparecimento das garotas e da professora (estranhamente, ele opta em não mostrar a professora sumindo). Apesar de sempre trazer uma boa abordagem para as sequências que envolvem a montanha, o ritmo contemplativo com imagens vazias torna a experiência de ver Picnic na Montanha Misteriosa uma verdadeira penúria.

Isso muito tem a ver, obviamente, por não acompanharmos personagens interessantes, além da constante falta de quaisquer surpresas ou desenvolvimento ao longo do segundo ato. As descobertas não levam a lugar nenhum e o suspense acaba totalmente falho por causa das intromissões absurdas da trilha musical. Weir somente consegue trazer elementos novos já quase na proximidade da conclusão da história.

Ao menos, enquanto isso, o diretor sempre dá o ar da graça com enquadramentos espertos refletindo muito bem o espírito opressivo do colégio ou do escritório de Appleyard. Aliás, o design de produção em conjunto com a direção de arte são dignos de aplausos pelo cuidado absoluto com mobília, figurinos e veículos para condizer totalmente com o início do século XX. É realmente um trabalho excelente para uma produção tão pequena.

Talvez melhor nos sonhos

Picnic na Montanha Misteriosa é mais um clássico exemplo de um diretor ávido em querer se afirmar na indústria ao encarar um projeto tão complicado como esse. Os problemas com narrativa, personagens e ritmo são abundantes conseguindo remover qualquer prazer em ver ao filme. Como entretenimento, mesmo que muito pedante, simplesmente não há muito o que explorar aqui. Caso seja fã de Peter Weir e queira explorar toda sua filmografia como ando fazendo, é bastante interessante notar a germinação de algumas características autorais do diretor.

Nesse chato passeio onírico com flerte no surrealismo, talvez o Picnic fique mais agradável nos nossos sonhos.

Picnic na Montanha Misteriosa (Picnic at Hanging Rock, Austrália – 1975)

Direção: Peter Weir
Roteiro: Joan Lindsay, Cliff Green
Elenco: Rachel Roberts, Vivean Gray, Helen Morse, Jacki Weaver, Anne Lambert, Karen Robson
Gênero: Drama, Suspense
Duração: 107 minutos.