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Crítica | Redemoinho

A parceira entre o diretor José Luiz Villamarim, o roteirista George Moura e o fotógrafo Walter Carvalho se mostrou muito produtiva na televisão. Os resultados foram as ótimas minisséries O Canto da Sereia e Amores Roubados, além do remake da novela O Rebu. O que chamava a atenção nessas produções era o tratamento cinematográfico e cuidado dado pelo trio. Aí veio a pergunta de quando essa equipe de ouro iria fazer algo no cinema. Agora estreiam nas telonas com Redemoinho, um longa que mesmo sendo esteticamente muito bonito, peca pela história desinteressante.

Baseado no livro de Luiz Ruffato, o filme se passa durante um dia – mais especificamente o Natal – na cidade de Cataguases, no interior de Minas Gerais. Luzimar (Irandhir Santos) reencontra Gilson (Júlio Andrade), um amigo de infância que se mudou para São Paulo. Durante as conversas, os dois acabam lembrando-se de um acontecimento que mudou a vida deles para sempre.

O roteiro de George Moura é muito irregular. Se ele acerta nos diálogos entre os dois personagens que vão lembrando de maneira orgânica dos acontecimentos e constrói uma boa relação entre eles, acaba errando ao colocar outros núcleos que são inúteis para a trama principal – como o da personagem feita por Dira Paes – e de não saber as vezes para onde ele vai. Em certo momento, o texto fica em dúvida para qual caminho ele está seguindo.

Além de subestimar a inteligência do espectador criando plots twists (reviravoltas de roteiro) que acha que são muito inteligentes, sendo que são óbvias. Não vou entrar em detalhes, mas no meio do segundo ato o espectador mais atento vai descobrir quais são as tais reviravoltas e para quem não entendeu, não tem problema, pois o filme fala três vezes quais são elas para que ninguém saia com dúvida. Se a escolha do roteiro fosse apenas o relacionamento entre os dois, que é um redemoinho de emoções por ter felicidade, amizade, afeto, amor e ódio seria muito mias plausível, mas ao colocar esses enfeites para tentar ser mais inteligente acaba dando um tiro no próprio pé. Além de ter um sério problema de conclusão.

Esteticamente Redemoinho é muito bonito. Diria que a força do longa está no visual. Fotografado pelo mestre Walter Carvalho que junto com o diretor José Luiz Villamarim, criam uma gramática visual que consegue ser mais interessante que o roteiro em si, por contar mais sobre os personagens e o local. Só notar que as cores vistas no longa são secas, não há cores vivas durante toda a projeção que mostra como a vida daqueles personagens naquela cidade são vazias. Há mais características na fotografia que mostram essa sensação de vazio: os personagens ficam na maioria da vezes no canto inferior do quadro, mostrando como eles se sentem inferiores; a própria imagem é estática, a câmera se movimenta poucas vezes; os planos são muito longos, que dão a sensação de ser um lugar aonde a monotonia dita os acontecimentos. É mais um trabalho grandioso feito por Carvalho, que já tem no currículo obras fortes como Lavoura Arcaica, Madame Satã e Central do Brasil.

Mesmo tendo essa gramática na sua mão, Villamarim infelizmente ele não a executa como deveria. Há um excesso de planos longos e do uso câmera estática. Tem momentos que não necessitavam se tão longos e que a câmera poderia ser um pouco mais solta. Não é um trabalho ruim, mas em seus trabalhos televisivos o diretor se saia melhor. A tentativa de ser autoral e a sua escolha estética, acabou o limando. Não é um trabalho ruim, mas poderia ser bem melhor.

O elenco está ótimo. O destaque fica por conta dos dois protagonistas que são dos melhores atores trabalhando hoje no cinema brasileiro e demonstram uma ótima química. O ótimo Irandhir Santos cria Luzimar como um homem que está satisfeito no seu lugar no mundo, mas tem os seus segredos que o fazem se questionar. E o ator usa muito bem o seu corpo, é só notar o seu tom de voz e como Luzimar fica olhando para baixo o tempo todo, que já demonstra que o personagem se sente inferior de certa maneira. Se Santos cria um personagem mais introspectivo, Júlio Andrade faz de Gilson uma figura mais explosiva. Sempre bebendo e lembrando do passado, Andrade cria um personagem que vai se tornando antipático pouco a pouco. Parece que por ter se dado bem em São Paulo, Gilson vê em Cataguases uma cidade atrasada que não terá futuro e seus moradores nunca se darão bem na vida. Quanto mais o personagem bebe, mais intensa é a atuação de Júlio Andrade. Dira Paes está bem, mas não tem muita função no filme enquanto Cássia Kis  se mostra pontual como a mãe de Gilson, que em poucos momentos denota como é mal tratada pelo filho.

Mesmo Redemoinho tendo pontos positivos, ele é falho em criar alguma relação com o espectador. A gramática visual cansa em certo momento e o roteiro é irregular. No caso a forma ficou bem feita, mas o conteúdo infelizmente se mostra raso, fraco e desinteressante. Que a próxima investida da equipe de ouro no cinema, seja mais eficaz.

Redemoinho (Idem, Brasil – 2016)
Direção: José Luiz Villamarim

Roteiro: George Moura
Elenco: Irandhir Santos, Júlio Andrade, Dira Paes e Cassia Kis
Gênero: Drama
Duração: 100 minutos

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Publicado por João Pedro Gibran

Formado em Rádio e TV e cinéfilo doente. Esse ser sonha em trabalhar com cena um dia. Tem Martin Scorsese e Akira Kurosawa como Deuses.

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