Quando o assunto é cinebiografia musical, sempre me lembro do trabalho perfeito de A Vida É Dura: A História de Dewey Cox. Não por ser um biopic musical, mas sim por perfeitamente reproduzir e parodiar todos os clichês que assombram esse tipo de produção – e que se manifestaram em peso no inexplicavelmente bem-sucedido Bohemian Rhapsody, filme sobre Freddie Mercury e o Queen que conquistou as premiações na última temporada.

É muito difícil fazer um filme desse gênero e não se deixar levar pelos clichês, mas o que Rocketman consegue fazer é especial. Ainda que o longa sobre a vida de Elton John caia em toda a fórmula e as marcas de narrativa que passamos a esperar desse tipo de história, o faz com muito charme, estilo e um conceito que consegue fazer triunfá-lo sobre essas deficiências de roteiro, e atinge um resultado quase único.

O roteiro de Lee Hall aborda toda a trajetória de Reginald Dwight (Taron Egerton), que cresceu de um tímido pianista prodígio do Reino Unido para se tornar o artista de sucesso conhecido como Elton John. O longa acompanha seu ponto de vista enquanto reconta toda sua história anos depois, abordando sua homossexualidade, a relação com a família, seu melhor amigo Bernie Taupin (Jaime Bell) e também seus muitos problemas com drogas.

A mesma e velha história

Narrativamente falando, é a mesma história de sempre. Hall faz o possível para manter a trama mais interessante, e o fato de termos John contando suas experiências para um grupo de reabilitação possibilita tiradas e diálogos mais divertidos, mas no fim é a mesma fórmula: início humilde, o rápido sucesso, a decadência colossal e a volta por cima após diversas lições de moral. O setor da decadência, em especial, torna-se muito maçante por ser aquele em que o longa abandona suas ideias mais fantasiosas.

Pode parecer inusitado ouvir a palavra fantasia em uma cinebiografia musical, mas é justamente isso o que Rocketman traz. Ainda que entre mais em detalhes na direção, Hall toma uma ousado decisão de fazer Elton John conversar consigo mesmo e com versões idealizadas daqueles presentes em sua vida em diálogos imaginários – e que garantem algumas das melhores catarses do filme; mesmo que seja uma imagem óbvia, ver o Elton crescido abraçando sua versão criança representa tudo o que o longa quer dizer em uma única imagem. Outro grande acerto está na relação entre Elton e Bernie, que é sem sombra de dúvida o melhor arco dramático do filme; como a amizade dos dois supera as intrigas e se reconstrói após a inevitável sisão é capaz de gerar uma reação emotiva.

Claro, Hall acaba correndo depressa sobre alguns assuntos que facilmente poderiam ter ficado de fora. A conturbada relação com John Reid (Richard Madden) acaba sendo só mais um exemplar da desilusão amorosa movida pela ambição, enquanto o casamento com Renate Blauel (Celinde Schoenmaker) é tão súbito que parece ter sido inserido apenas como exigência externa – já que não acrescenta nada à trama.

Direção brilhante

O que realmente separa Rocketman das demais obras de sua categoria é mesmo a direção. Curiosamente assinada pelo mesmo Dexter Fletcher que concluiu as filmagens de Bohemian Rhapsody após a demissão de Bryan Singer, a direção acerta ao quebrar as convenções. O longa surpreendentemente se revela um musical fantasioso em seus melhores momentos, usando imagens surrealistas para ilustrar o efeito que as músicas de Elton John provocavam em seus ouvintes – vide o belo instante em que toda a platéia começa a flutuar durante a performance de “Crocodille Rock’. Mais do que isso, os números musicais soam orgânicos e dinâmicos para demarcar a passagem de tempo: tais sequências sempre culminam em alguma evolução de tempo na história, como fica evidente na excepcional sequência de “Saturday Night’s Alright for Fighting” (que traz o jovem Reginald se transformando em Taron Egerton) ou a da canção titular.

Esta última é ainda mais especial por conter um simbolismo forte em sua montagem. “Rocketman” começa com John tentando se suicidar dentro de sua piscina, culminando em seu encontro com sua versão criança tocando piano embaixo da água e o subsequente resgate de paramédicos, que tiram suas roupas e imediatamente colocam sua próxima fantasia para um show, deixando claro que o artista não tem tempo para se tratar e refletir, estando pronto para voltar aos palcos; isso tudo torna a experiência mais dinâmica e ajuda a cortar algumas barrigas de roteiro, além de sempre manter o espectador atento.

E claro, temos Taron Egerton. Jovem ator que se destacou nos dois filmes da franquia Kingsman, ele tem aqui sua chance de entrar para o panteão de grandes nomes de Hollywood, oferecendo uma performance cheia de nuances, carisma e que captura perfeitamente o espírito de Elton John e seus maneirismos; mas sem cair na caricatura, algo que seria muito fácil. Além da ótima composição, Egerton tem também a vantagem de cantar em todos os números musicais, e seu esforço é nítido, o que deve lhe garantir uma atenção especial na próxima temporada de prêmios. Afinal, se Rami Malek ganhou um Oscar por uma versão karaokê de Freddie Mercury, Taron Egerton definitivamente merece mais carinho dos votantes.

No papel, Rocketman é mais uma formulaica e previsível cinebiografia musical, que traz todos os clichês esperados no gênero. Porém, em execução, Dexter Fletcher transforma a experiência em algo mais dinâmico e que quebra diversas convenções do gênero, contando também com um magistral Taron Egerton no papel central.

Rocketman (EUA/Reino Unido – 2019)

Direção: Dexter Fletcher
Roteiro: Lee Hall
Elenco: Taron Egerton, Jaime Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones, Steven Mackintosh, Tom Bennett, Matthew Illesley, Kit Conor, Charlie Rowe, Tate Donovan
Gênero: Drama, Musical
Duração: 121 min

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