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Crítica | Scary Mother – A auto-realização pode ser uma força destruidora

Mas essas são ressalvas comuns de serem feitas a um debute. Irregular, Scary Mother tem um número similar de méritos e deméritos

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
17 de outubro de 2017 · 5 min de leitura
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Crítica | Scary Mother - A auto-realização pode ser uma força destruidora
Reprodução

*Este filme foi visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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A realização profissional é um objetivo de todos os seres humanos. Do início da vida adulta até a meia-idade, o roteiro de nossa vida é escrito sobre uma base constituída de etapas, as quais nos fazem avançar em direção a uma finalidade. Esta pode ser determinada tanto por escolhas individuais quanto por forças incontroláveis, como a sociedade, família e o círculo de amigos. No entanto, há alguns casos em que o despertar desse propósito acontece tardiamente, em um momento no qual a liberdade está cerceada e as circunstâncias ao redor contribuem para uma auto-realização parcial.

Nestas exceções, supõe-se uma pessoa mentalmente sã, com as emoções sob controle e capaz de equilibrar os ímpetos internos com as exigências externas. Quando isso não existe, se desenrola uma trajetória como a de Manana (Nato Murvanidze), a protagonista de Scary Mother e cuja vontade de escrever um livro explode em um rompante de violência e destruição, abalando a dinâmica familiar e fazendo com que o marido, os filhos, o pai e o vizinho se transformem em personagens principais de uma história ditada por ressentimentos, traumas do passado e sexualidade reprimida.

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Flertando constantemente com o horror (a trilha sonora monocórdica e os estouros perturbadores do design de som não deixam a menor dúvida a respeito disso), o longa de estreia da diretora Ana Urushadze contém uma narrativa compassada, por vezes demasiadamente lenta, composta de planos gerais que se alongam no tempo sem receber uma decupagem cuidadosa (a maioria dos close-ups são pouco efetivos), não enquadram um mise-en-scène interessante (geralmente, os atores se mantêm fixos em suas demarcações de cena) nem revelam um complexo jogo entre as ações que se desenrolam em primeiro e segundo planos – ou seja, uma encenação extremamente horizontal.

No entanto, embora esses destaques negativos se configurem claramente como defeitos – uma vez que são resultados de uma cineasta ainda em busca da própria assinatura visual -, eles são “compensados” por alguns acertos do roteiro. Partindo de um ponto que se tornou lugar-comum nos dias de hoje (a história da dona de casa reprimida pelos familiares), o texto da diretora se sobressai ao usar esse argumento pouco original para estabelecer firmemente um conflito desprovido de qualquer tipo de determinismo e maniqueísmo. Pelo contrário. Faz questão de caminhar na direção da ambiguidade, enxergando imparcialmente os dramas enfrentados por cada um dos lados e dando a eles a sua parcela de razão.

A indefinição envolvendo a qualidade do livro, por exemplo, talvez seja um dos aspectos em que essa ambiguidade é mais ressaltada. Em nenhum momento, Urushadze nos diz que o romance escrito pela protagonista é ruim ou bom. Particularmente, pelo pouco que é narrado durante a projeção, apostaria na primeiro opção, porém, ao mesmo tempo que a realizadora parece coadunar, às vezes, com essa visão, ela inclui certas cenas (como a recusa das editoras, algo que sabemos ter acontecido com autores considerados geniais posteriormente) e sutilezas (o conservadorismo e a hierarquias estruturantes de quase todos os núcleos familiares) que faz o público questionar – mesmo que superficialmente – noções fixas de literatura e arte.

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Engajadora, essa imprecisão também se mostra presente – com menor ou maior intensidade – em outras subtramas. A mais certeira delas diz respeito à inclusão do pai de Manana. Embora a evocação de traumas infantis seja um recurso desgastado emocionalmente pelo excesso de vezes em que foi empregado (principalmente, nos dias de hoje), novamente, a cineasta se apropria de um cliché e o usa como base para aumentar a profundidade psicológica da protagonista e humanizar a figura dos personagens coadjuvantes (com uma atenção especial ao esposo). Estaria ela agindo dessa maneira porque se sentia domesticamente oprimida ou acontecimentos pretéritos fizeram com que a instrospecção se transformasse na única via? A junção das duas possibilidades também é uma opção.

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Contudo, o roteiro de Scary Mother não está livre de falhas. Sentindo, provavelmente, que essas indefinições temáticas pudessem alienar o público intelectual e emocionalmente, Urushadze, que já tinha verbalizado perfeitamente o drama da personagem principal em um bonito monólogo envolvendo uma figura da mitologia filipina, abusa do discurso expositivo no clímax, o qual, apesar de ser performado por dois atores tecnicamente impecáveis (aliás, Nato Murvanidze é uma interessante revelação), expõe em falas tudo aquilo que o espectador tinha captado através da dramatização. Além disso, exagera na introdução de alguns elementos típicos dos filmes de horror (a cena da banheira é ridícula) e na caracterização do processo de criação de um escritor (a imagem do literato perturbado já se tornou ineficiente e imprecisa).

Mas essas são ressalvas comuns de serem feitas a um debute. Irregular, Scary Mother tem um número similar de méritos e deméritos (estes tendo a ver com direção e aquele, com roteiro), de tal maneira que não dá para dizer se estamos diante de uma cineasta com potencial ou sem muitas qualidades. Agora, tudo o que nos resta é esperar pelo próximo filme para ver qual das duas possibilidades se concretizará com o tempo. A gangorra pode pender para qualquer um dos lados.

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Scary Mother (Idem, Geórgia – 2017)

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Direção: Ana Urushadze
Roteiro: Ana Urushadze
Elenco: Nato Murvanidze, Dimitri Tatishvili, Ramaz Ioseliani, Avtandil Makharadze
Gênero: Drama, Suspense
Duração: 117 minutos

Tags: #41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #Cinema #crítica #Filme
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