Crítica | Socorro! é diversão descartável de Sam Raimi
Nenhum outro gênero de cinema parece produzir “autores” tão facilmente quanto o de horror. Isso deve ter uma explicação razoável: como na média os filmes de horror são mais baratos que os de outros gêneros, é natural que surjam mais diretores praticando o gênero de forma independente, e portanto imprimindo um estilo pessoal sem ter […]

Nenhum outro gênero de cinema parece produzir “autores” tão facilmente quanto o de horror. Isso deve ter uma explicação razoável: como na média os filmes de horror são mais baratos que os de outros gêneros, é natural que surjam mais diretores praticando o gênero de forma independente, e portanto imprimindo um estilo pessoal sem ter que dar muita satisfação a uma dúzia de produtores no início de suas carreiras.
Essa facilidade com que o estilo desses diretores é entendido como “autoria” (no sentido amplo do termo) leva também a um questionamento: são esses cineastas realmente “autorais” ou isso é um exagero da base de fãs – que particularmente no gênero de horror costuma ser apaixonada? O fato é que, ao menos no caso de Sam Raimi, não deixa de ser irônico que boa parte de sua fama nesse sentido possa ser atribuída a uma fixação quase infantil por fluidos corporais: vômito, sangue, pus. Se você já viu outros filmes de Raimi e esse tipo de coisa parece interessante (ou mesmo “autoral”), saiba que Socorro! provavelmente não irá decepcioná-lo.
Estão presentes aqui os mesmos jatos de vômito que fizeram de Raimi uma referência no gênero, mas seria uma injustiça atribuir apenas a ele o interesse mórbido por dejetos corporais, odores desagradáveis, etc. Passando por filmes muito diferentes entre si, como Parasita e A Substância, parece uma tendência irrefreável atualmente a atenção que tais cineastas dão aos aspectos repugnantes ou desprezíveis da criatura humana. Longe de ser um tema de debate profundo, estamos mais no território do efeitismo mesmo. O que se mostra busca determinado efeito emocional: é quase impossível permanecer indiferente. Chamar atenção é o que importa e a escolha cumpre seu papel (ainda que de maneira infantilizada).
Socorro! é basicamente o que está no trailer e se isso não permite que o filme revele grandes surpresas, demonstra por outro lado a honestidade da produção. Ela entrega o que vende.
O forte de Sam Raimi não é exatamente a nuance, mas não deixa de haver certa energia meio descontrolada na forma com que ele dá vida a seus personagens na tela. Embora aqui o roteiro não seja dele, há claras semelhanças com Arraste-me para o Inferno: as agruras do ambiente corporativo, personagens tendo de lidar com as contradições entre sua humanidade e sua natureza animalesca, situações-limite despertando o que há de pior na espécie.
Na trama, Linda Liddle (Rachel McAdams) é uma executiva de planejamento bastante desajeitada e com dificuldades sociais no ambiente de trabalho. Ela é frustrada com uma promoção que não vem quando o filho de seu chefe, Bradley Preston (Dylan O’Brien), assume após a morte do pai e coloca Linda de lado, privilegiando um antigo colega de fraternidade na hierarquia da empresa. Uma viagem para a Tailândia carregando o time de executivos (todos tolos, desprezíveis e impossíveis de simpatizar) é interrompida por um violento acidente aéreo, e os dois únicos sobreviventes (Linda e Bradley) acabam isolados numa ilha aparentemente deserta.
Tudo que o roteiro quer que você saiba é esfregado na cara dos espectadores nos primeiros dez minutos: não há nenhuma sutileza sobre quais personagens são bonzinhos, quais são maldosos e por quem devemos torcer. Essa premissa não passa de uma caricatura com a qual o restante da narrativa terá de lidar o tempo todo. Diferente de Arraste-me para o Inferno, por exemplo, em que a oponente da protagonista desperta momentaneamente uma compaixão digna de um Smeagol (ela é repulsiva mas, ao mesmo tempo, triste e desgraçada pelos acontecimentos), aqui o vilão é meramente desprezível, estúpido, machista e abusivo desde o primeiro fotograma.
Se o roteiro trabalhasse melhor as “camadas” que depois pretende revelar dos dois antagonistas ao longo do roteiro, o efeito seria mais interessante e adulto. Mas este não parece ser o foco de atenção de Raimi, que por outro lado mostra-se mais preocupado em levar o espectador a seu habitual carrossel brutal e tragicômico, que alterna momentos de suspense com humor negro (uma das marcas do diretor). Essa trajetória dentro do filme funciona bem com McAdams, que começa propositalmente desmazelada, vai se tornando radiante, dando contornos à personagem e lutando contra a caricatura com um pouco de ambiguidade. Mas o vilão (O’Brien) aqui é um caso dramatúrgico perdido: ele é uma folha de papel e tem pouco a revelar nos 110 minutos de projeção.
Sam Raimi é um cineasta bem-sucedido que notabilizou seu estilo “bricabraque” demoníaco e sangrento e certamente influenciou ao menos uma geração inteira de novos diretores. Mas, bem, “autor”? É uma palavra pesada. Socorro! é divertido, violento e ultrajante, certamente inverossímil como parece exigir a audiência do gênero (ávida por “disparates impactantes”). Para ver e esquecer uma semana depois. E assim vamos levando.