*Este filme foi visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Sem dúvida, as telenovelas, mesmo que cada vez menos marcantes, ainda possuem grande força na América Latina. Talvez o que demarque muito bem essa queda de influência seja um apuro estético cada vez mais “cinematográfico”, no sentido mais técnico da palavra. A imagem de melhor qualidade mascara uma linguagem televisiva, enrustida, incapaz de se entregar à expressividade distinta do cinema. Por isso, o lançamento de A Telenovela Errante, quase vinte anos depois do fim de suas filmagens, tem algo de estranho. Pode parecer muito mais antigo do que verdadeiramente é.

As filmagens do longa foram realizadas no início da década de 90 por Raúl Ruiz, durante uma semana de oficina para atores, e foram terminadas agora, seis anos após a morte do diretor, por sua mulher, Valeria Sarmiento. Dividido em sete dias, o longa traz em cada um deles uma esquete diferente, progressivamente surrealista, mas não menos sarcástica.

Se o tom lembra muito o da sátira, isso se dá pela própria natureza das novelas. O que Ruiz faz, em vez de adotar o cinismo perante o gênero – que poderia revelar uma visão segregadora –, é brincar com a própria estética televisiva, do seu exagero, do seu descompromisso, para produzir ficções, mesmo nos momentos mais absurdos, com um conteúdo crítico bem marcado. No nível mais superficial, realmente, esse humor político pode parecer um pouco desatualizado (já não é mais o mesmo Pinochet, nem o mesmo espírito paira pela América Latina), o que não diminui o exercício de Ruiz.

Desde o primeiro esquete (uma hilária paquera entre uma mulher e o irmão de seu marido, um “socialista”) até a última (praticamente um curta buñueliano), o diretor tenta construir um comentário ácido sobre as contradições da esquerda, a luta armada, o machismo e outros temas caros à cultura latina. A Telenovela Errante é também um experimento de encenação anti-naturalista – a estética realista nunca foi a praia do diretor. Esta abertura permite uma série de jogadas metalinguísticas, com personagens cientes de que estão em uma telenovela, às vezes assistindo a uma telenovela e comentando sobre ela, quando não assistindo a si próprios.

Alinhado com os estudos culturais de recepção da época, o filme traz frequentemente a ideia de um mundo construído a partir da telenovela, e vice-versa, em contato com o público, afirmando uma visão tragicômica da vida. Ao mesmo tempo, não esquece sua vocação cinematográfica, realizando longos planos fixos, valorizando o trabalho dos atores.

Ainda que com alguns roteiros um pouco irregulares e quebram o fluxo da narrativa – raramente coletâneas são perfeitas –, A Telenovela Errante é, mesmo depois de 27 anos, uma obra importante na filmografia de Raul Ruiz que, se não mostra toda a sua grandiosidade como cineasta (para isso, veja Mistérios de Lisboa ou A Cidade dos Piratas, entre tantos outros longas da sua prolífica carreira), revela um espírito de época muito particular e importante para entender a cultura latino-americana hoje. E nenhuma frase poderia melhor exprimir a alma deste filme, senão a que intitula o sétimo e último episódio: “Se não se comportar bem nesta vida, na próxima virá como um chileno. R.R.”.

A Telenovela Errante (La Telenovela Errante, Chile – 2016)

Direção: Raúl Ruiz e Valeria Sarmiento
Roteiro: Raúl Ruiz e Pía Rey
Elenco: Luis Alarcón, Patricia Rivadeneira, Francisco Reyes, Consuelo Castillo, Roberto Poblete, Liliana García, Mauricio Pesutic, Leticia Garrido
Gênero: Comédia, Drama
Duração: 80 minutos