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Crítica | The Eddy – Quando o Jazz Não É o Bastante

Com apenas 35 anos de idade, Damien Chazelle tornou-se um gigante do entretenimento e entregou algumas peças fílmicas de grande prestígio pelos adoradores da indústria e pelos cinéfilos de plantão. Apesar de ter feito sua estreia ainda em 2009, seu primeiro grande sucesso veio com Whiplash, drama que traz a música como um de seus principais personagens. Chazelle voltaria a prestar homenagens para seu background na Princeton High com La La Land: Cantando Estações, tragicomédia musical que o colocaria no topo do mundo e o transformaria na pessoa mais jovem a levar um Globo de Ouro e um Oscar de Melhor Direção para casa. Apesar dos deslizes de O Primeiro Homem, o cineasta continuaria trilhando um caminho de sucesso inigualável – até chegar em sua primeira colaboração com a Netflix com a minissérie The Eddy.

Composta por oito episódios de uma hora cada, Chazelle, que assina a direção e a produção da obra, abre espaço mais uma vez para o jazz seja louvado como merece – algo que pode parecer repetitivo, considerando que os longas anteriores já traziam na trilha sonora esse gênero tão clássico e tão envolvente. Seguindo os passos das investidas anteriores, a trilha sonora sai de seu recuo extradiegético e transforma-se num personagem que rege os relacionamentos tóxicos e conturbados dos protagonistas, principalmente de Elliot Udo (André Holland), dono do clube epônimo e pianista clássico que vê seu mundo desmoronar depois de eventos chocantes. O problema, entretanto, parece estar incrustado na confusa e monótona narrativa que parece andar a passos curtíssimos de um episódio para o outro – transformando uma ode parisiense em um melodrama arrastado e previsível.

Elliot, logo de cara, mostra que é o centro do universo e é reafirmado como tal pela condução dos capítulos. Em outras palavras, por mais que cada personagem tenha suas glórias, as consequências dos acontecimentos voltam a se curvar para sua personalidade facilmente irascível e controladora. Essa autoproteção estende-se para a filha, Julie (Amandla Stenberg), que sai de Nova York e se muda para a Cidade-Luz para tentar se reconectar com o pai afastado e tomado por um projeto dos sonhos. Mais do que isso, a presença de Elliot torna-se mais insuportável (propositalmente, diga-se de passagem), quando seu sócio e melhor amigo é assassinado e as investigações começam a indicá-lo como suspeito. Mais uma vez, percebe-se que o roteiro, buscando transformar a minissérie em uma espécie de análise antropológica e antológica das relações humanas, não sabe em que direção seguir e nem mesmo como oscilar o tom atmosférico.

A verdade é que a ambiência mais intimista e mórbida, arquitetada desde a primeira cena, é mais unilateral do que o necessário, recusando-se a abrir portas para uma multiplicidade reverberante; pelo contrário, essa pessoalidade, dialógica à experiência de seu criador, adquire uma camada cada vez mais mórbida, refletida de forma redundante na teor imagético. É quase óbvio esperar que as sequências mais dramáticas sejam envolvidas em um filtro azulado (clássico das produções da plataforma de streaming) – e Chazelle não foge à fórmula: cada frame parece mergulhado inúmeras vezes num tonel monocromático que contribui para que essa progressão fique mais lenta e menos envolvente (por vezes, me peguei desviando o olhar pela falta de algum elemento atraente o bastante).

De qualquer modo, não podemos tirar crédito da ousadia do time de diretores, principalmente em resgatar um espectro cinematográfico que há muito rendia-se ao convencionalismo ação-reação de qualquer drama de baixo orçamento. A técnica aqui utilizada permanece atual, abusando de planos-sequência que já foram explorados nos longas supracitados, mas não perde a chance de convidar a estética dinamarquesa do Dogma-95 em praticamente toda a criação – ganhando vida nos cortes bruscos e na câmera na mão. Em dado momento, o peso dramático é substituído pelo panfletarismo documental que encaixa forçosamente críticas sociais e uma representatividade minoritária crua demais para ser levada a sério – resultado, como já foi mencionado, de uma trama frágil demais.

É necessário conceder mérito do roteirista Jack Thorne em se afastar dos estereótipos europeus e promover uma espécie de “reparação histórica” para aqueles que primeiro se envolveram com o jazz. Porém, dentro desse universo politizado demais, a essência musical deixa de existir (com exceção de algumas leituras incríveis e emocionantes), ofuscada por eventos chocantes que, aqui e ali, almejam a um dinamismo que já não pode mais existir. As cenas do assassinato de Farid (Tahar Rahim) e do embate entre Elliot e Maja (Joanna Kulig) conseguem, por breves segundos, livrar o público de tantos deslizes; porém, não são o suficiente para mascarar o fato de que nenhum dos personagens é relacionável. Sim, seus demônios interiores ganham palanque premeditado desde o começo – mas valer-se apenas disso é como dar um tiro no próprio pé.

No geral, The Eddy é tecnicamente bem feito e, mais uma vez, mostra a paixão de Chazelle pelo que o jazz representa. Entretanto, nem mesmo as atribuições mais artísticas e irreverentes possíveis anulam narrativas circunstancias demais e figuras esquecíveis que tentam ser salvas por performances incríveis.

The Eddy (Idem, Estados Unidos, França – 2020)

Criado por: Damien Chazelle
Elenco: André Holland, Joanna Kulig, Tahar Rahim, Amandla Stenberg
Emissora: Netflix
Episódios: 08
Gênero: Drama, Musical
Duração: 60 min. aproximadamente

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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