Crítica | Todo Mundo em Pânico (2026) é exercício de liberdade de expressão que não faz concessões
Veja como o Todo Mundo em Pânico se adapta às novas dinâmicas sociais e aos desafios contemporâneos da comédia e humor.

De todos os desafios que uma nova versão para a franquia cômica Scary Movie teria que enfrentar, aquele que seria provavelmente o mais complicado é a modificação que o público teve em duas décadas. A série se inicia em 2000, quando a internet tinha uma influência tímida sobre a opinião pública, e se reinicia agora, onde a rede mundial converteu-se quase que inteiramente no próprio conceito de “mídia” – com todas as implicações disso.
De um lado, muitas das piadas visuais que notabilizaram os filmes hoje são banalmente reproduzidas por criadores de conteúdo numa rotina diária (o que não acontecia na virada do século). De outro, a existência de grupos de identificação e pressão na sociedade fazem com que muitas brincadeiras dos anos 1990 hoje sejam consideradas ofensivas ou até mesmo criminosas, dependendo do contexto. Então, não bastaria “não perder a graça” para que o novo Todo Mundo em Pânico funcionasse: seria preciso ao mesmo tempo evitar converter o filme numa bomba de polêmicas autodestrutiva.
Como estamos falando de uma sociedade (a norte-americana) onde a liberdade de expressão ainda é considerada “sagrada” (ou algo perto disso), o roteiro da versão de 2026 opta por não se constranger em desafiar a submissão politicamente correta, ainda que para isso perca em diversos momentos uma parte da plateia.
As piadas atiram para todos lados, o humor corrosivo e despreocupado não tem viés: ele é igualmente provocativo com brancos e negros, conservadores e progressistas, ricos, pobres, identidades sexuais, racistas, pronomes neutros e paranoicos sanitários. Tampouco filmes de sucesso são poupados como alvos, o que evidencia também um desprezo saudável pelo “consenso” crítico da comunidade.
Este é provavelmente o maior feito do filme, o de reafirmar o caráter subversivo do humor e mostrar que o riso continua sendo uma das principais ferramentas de igualdade em relação à condição humana: se todos somos iguais, podemos todos ser eventualmente motivo de riso e, independente do quão algumas piadas possam parecer ofensivas ou vulgares, é o tipo de expressão que não deve ser confundida com crime. Rir de si mesmo e dos outros é um dos costumes humanos mais reconhecidamente antigos e o filme celebra essa constatação.
Dentro de uma tradição que é bastante norte-americana, Todo Mundo em Pânico depende de piadas visuais para funcionar – acima de diálogos ou de ironia, por exemplo, o que caracteriza um tipo de humor mais inglês, “europeu”. Ocorre que uma piada visual que seria revolucionária em 2000 acaba parecendo repetitiva ou banal em 2026.
É desafiador para o filme, por exemplo, trabalhar com o que acontece no primeiro plano e no fundo, diante de uma audiência acostumada ao vício preguiçoso do “ambiente desfocado”, que converte boa parte dos filmes atuais da indústria em intermináveis talking heads. Nesse sentido, ele explora menos o espaço cênico que a nova versão de Corra que a Polícia Vem Aí, por exemplo, que também dá maior importância à trama interna que às referências externas, como aqui.
Como filme propriamente dito, Todo Mundo em Pânico é menos engraçado que dúzias de comédias assistidas nos últimos 20 anos e, na maior parte do tempo, funciona como uma “colagem”, ou um feed de rede social sem maior engenharia dramatúrgica. Ele está num território que se assemelha mais ao “jogo mental” que à estética cinematográfica propriamente dita: cada cena, cada progressão do enredo, funciona como uma peça oferecida ao espectador dentro de um conjunto de regras que este já conhece bem, de modo que a expectativa está sempre em como o filme irá usar um expediente repetido desta vez.
Isto não é um atributo exclusivo da franquia – ele é a base de muitas outras, como a própria Pânico, da qual este filme tira suas principais referências jocosas. Essa visão de cinema como “quebra-cabeça” é bastante pós-moderna, e se diferencia tanto do chamado cinema clássico (que oculta as peças num conjunto harmonioso) quanto do cinema moderno (que revela a estrutura do jogo para subverter ou problematizar suas regras). O quanto essa visão pós-moderna empobrece o fenômeno cinematográfico é conversa para um outro momento e Todo Mundo em Pânico está pouco preocupado com suas implicações.
De fato, a verdadeira discussão que um filme aparentemente descompromissado e nostálgico como este apresenta é o quanto ainda podemos exercitar a comédia (e a livre expressão, de forma geral) sem que isso se converta numa disputa social levada às raias da judicialização. Todo Mundo em Pânico é comum como filme, porém redentor como manifestação cultural.
A maior parte de seu público irá ao cinema para se distrair por 90 minutos que passam voando, e talvez não perceba que está diante de uma obra de resistência: aparentemente tola, eventualmente desconcertante, mas certamente necessária. Ninguém precisa se ofender – é apenas um filme.