Crítica | Toy Story 5 encanta com personagens conhecidos sem se aprofundar em discussões
Toy Story 5 equilibra nostalgia e renovação com uma trama sólida, direção de Andrew Stanton e uma das melhores dublagens brasileiras do ano.

É preciso ter à mão uma gama de personagens muito interessante para, após quatro longas anteriores, manter o interesse da audiência e oferecer um produto tão encantador e bem produzido quanto este Toy Story 5, que chega aos cinemas de todo o mundo em junho de 2026. A quinta parte da saga dos simpáticos brinquedos que ganham vida vai conquistando seu espaço dentro da história do cinema como uma das franquias mais sólidas – e não só comercialmente.
O nível atingido e mantido após quase 10 horas de material compreendendo todos os filmes garante a Toy Story um lugar de respeito junto a franquias de cinema live action como Harry Potter e O Senhor dos Anéis, mesmo sendo em tese um desenho animado pensado mais para o público infantil (o que faz com que ele tenha menos “prestígio artístico”).
O mais impressionante de Toy Story 5 é como o filme consegue ser bem-sucedido em conciliar diferentes desafios. O maior deles talvez seja manter o interesse vivo e renovar o universo que é dramaturgicamente limitado: estamos falando de “brinquedos dentro de um quarto” uma boa parte do tempo. Isso exige dos roteiristas criatividade real para propor novas situações que mantenham fidelidade à premissa original sem simplesmente replicar cenas mudando a roupagem (o que acontece muitas vezes em franquias adultas longas como Pânico ou Jogos Mortais, por exemplo).
O segundo desafio é dialogar equilibradamente com crianças e com os adultos que as conduzem ao cinema (e muitas vezes escolhem o filme). O êxito também é pleno nesse sentido, e uma das razões é que Toy Story consegue se manter de pé com uma trama bastante sólida, como a de um filme para a audiência madura, evitando soluções fáceis ou esquemáticas demais e que serviriam apenas à parcela mais jovem do público. Outro desafio é conservar a atmosfera visual típica da Pixar, adaptada ao espírito de “encantamento” que a marca Disney exige, incorporando a evolução das técnicas de animação mais recentes, mas que fatalmente poderiam tornar os movimentos e expressões dos personagens excessivamente artificiais – o que não acontece.
O filme evita essa armadilha mantendo com o material uma abordagem essencialmente “cinematográfica”: quase tudo dentro de Toy Story 5 está sujeito ao mesmo repertório de decisões de um filme em live action. Os enquadramentos, a iluminação, a montagem, as cenas de ação: tudo remete a uma percepção de “filme” (e não de videogame, por exemplo) e isso ajuda a estabelecer com o espectador um tipo de envolvimento sensorial equivalente ao de outros filmes bons de outros gêneros. A direção do experiente Andrew Stanton (de WALL-E), auxiliado pela novata McKenna Harris, tem estilo e atenção suficientes para agradar os cinéfilos mais exigentes.
Nesta quinta história, o público tem a oportunidade de rever personagens conhecidos, como Woody, Buzz Lightyear e Jessie, enquanto é apresentado a alguns novos, como Lilypad, um tablet feminino encantador, mas que ao mesmo tempo representa talvez a maior “falha” do filme. O conflito todo está em como tirar as crianças atuais de frente das telas e fazê-las interagirem entre si e com o espaço ao seu redor (incluídos aí os brinquedos de antigamente).
Porém, até mesmo pela limitação da proposta, o roteiro não pode aprofundar-se nisso, e Lilypad acaba sendo mais uma figura adorável e autoconsciente (ou cuja consciência é determinada pela imaginação das crianças), o que reduz a discussão que poderia – ou talvez realmente devesse – estabelecer de alguma forma que o que diferencia o tablet (parte de uma rede de informação que ultrapassa muito o território doméstico) da turma antiga é que este é “controlado” por uma consciência externa (o algoritmo), e não pela própria Bonnie (sua dona).
Embora possa parecer um detalhe dramatúrgico secundário, ele seria determinante se Toy Story 5 realmente quisesse fazer um comentário social sobre o problema. O filme seria perfeito se assim o fizesse. Mas não parece o caso.
Apesar disso, Toy Story 5 mantém o encanto e proporciona às crianças e aos adultos que as acompanham uma diversão inteligente, bem escrita e visualmente atraente, que dificilmente decepcionará os fãs da franquia, garantindo também a quem não está familiarizado uma diversão leve e esperta.
É preciso fazer aqui uma menção especial à dublagem brasileira. Embora assistir à versão dublada do filme tire a oportunidade de escutar as vozes de atores e atrizes consagrados como Tom Hanks, Joan Cusack e Greta Lee, a versão nacional é um espetáculo à parte, com piadas muito bem adaptadas ao gosto e à sonoridade brasileira. Os dubladores são um espetáculo por si só e nos lembram como a escola brasileira de dublagem continua sendo uma parte talvez subestimada da indústria audiovisual nacional, mas que consegue conferir aos filmes e séries um toque de intimidade e colorido próprio, aumentando a identificação com a audiência.