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Catálogo

Crítica | Três Anúncios Para um Crime – Comédia e tragédia nos EUA

Deste modo, não é exagero dizer que Três Anúncios Para um Crime é o melhor longa de Martin McDonagh

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
15 de fevereiro de 2018 · 6 min de leitura
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*Este filme foi visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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Em um determinado momento de Três Anúncios Para Um Crime, o xerife Bill Willoughby, interpretado pelo talentoso Woody Harrelson, após ouvir Anne (Abbie Cornish), a sua esposa, emitir um comentário ligeiramente vulgar, brinca perguntando se isso já não fora dito por William Shakespeare. O diálogo segue e termina com um indagamento jocoso sobre a possibilidade de Oscar Wilde ser o autor da frase. Aparentemente frívola, essa interação entre os dois personagens é essencial, pois, ao mencionar o nome de escritores amplamente conhecidos pela destreza com que transitavam entre o cômico e o dramático, ela nos fornece a chave para entender o objetivo do filme: misturar a comédia e a tragédia para desconstruir estereótipos e mergulhar na intimidade das personagens.

Mantendo o costume de roteirizar os próprios projetos, Martin McDonagh, na sua terceira empreitada como diretor de longas-metragens, conta a história de Mildred Hayes (Frances McDormand), uma mãe divorciada cuja irritação com a incapacidade da polícia em descobrir a identidade do estuprador e assassino de sua filha adolescente faz com alugue três outdoors para expor toda a raiva e inconformismo. Como não poderia deixar de ser, isso acaba por envolver a vida de muitas pessoas e gerar uma forte tensão entre ela, os seus familiares, a população e os policiais da cidade. 

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Começando com uma série de planos em que há forte chuva e o acompanhamento de uma ária operística, Três Anúncios Para Um Crime deixa claro logo no início que, pelas próximas duas horas, o espectador testemunhará uma tragédia com possíveis elementos épicos. Mostrando o local em que a filha da protagonista foi brutalmente atacada e ressaltando através da música a dramaticidade do instante, McDonagh (que tem a curiosidade de ser um estrangeiro olhando para os Estados Unidos) consegue transmitir com poucos recursos o peso com que olhará para o país e o sentimento que deverá predominar a nossa subjetividade pelo restante da história.

No entanto, nos momentos seguintes, quando ocorre a apresentação dos personagens, ambiente e situação, surge um forte contraste, uma vez que há uma profusão de cenas cômicas e cada um dos seres que habita esse universo dá a impressão de ser caricato: Mildred parece uma daquelas mulheres que, por terem sofrido demais no passado, agem duramente, pouco se importando com as opiniões e emoções alheias; Bill, por sua vez, transmite a sensação de ser o norte-americano simples, calmo e ponderado; e Jason Dixon (Sam Rockwell), o personagem que completa o forte núcleo narrativo, abraça completamente a caracterização do interiorano racista e preconceituoso.

Além disso, a própria trilha sonora se altera, indo da ópera tocada no começo para uma sequência de canções country, tipicamente associadas à região onde o filme se passa (o que, à primeira vista, pode parecer um cliché sonoro). Dessa maneira, não é fácil afastar a visão de que, dado os segundos iniciais e a dureza dramática do ponto de partida, a obra se aproxima perigosamente do ordinário, e os momentos de humor, apesar de serem engraçados,  soam intrusivos e até deslocados. Em relação a este último caso, muito também se deve ao exagero de algumas brincadeiras, como cenas nas quais McDonagh se excede (a que vemos Dixon dançando ao som de uma música é um exemplo disso).

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Todavia, no desenrolar da história de Três Anúncios Para um Crime, o diretor/roteirista constrói várias cenas que, devido à complexidade social e psicológica que apresentam, introduzem um labirinto humano de opções morais, de uma maneira com que todos os personagens façam as próprias escolhas e tenham, por causa disso, a sua parcela de heroísmo e vilania. É como se as carcaças que vestimos por insegurança e medo, além daquelas que a sociedade trata de nos colocar, fossem sumindo aos poucos e, no lugar, surgissem as nossas verdadeiras faces, com as qualidades e os defeitos que constituem a personalidade e o caráter da maioria das pessoas.

A partir desses momentos, quando as coisas se tornam mais claras e os dois gêneros passam a co-existir pacificamente no filme, fica evidente que o cineasta usou a comédia para reforçar estereótipos comumente relacionados aos EUA e a tragédia para desconstruí-los, revelando a humanidade que habita nos seus respectivos mundos interiores.  Ao mesmo tempo que não diminui o impacto de sua denúncia sobre racismo, intolerância e brutalidade policial (nesse sentido, as escolhas da trilha sonora deixam de ser preguiçosa e viram pertinentes, já que é realizado o retrato de uma parcela do país), esse recurso afasta a obra da mera denúncia, fazendo-a trilhar um caminho de empatia, compreensão e redenção.

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Aliás, é importante destacar a humanidade com que McDonagh olha para os seus personagens. Até mesmo os que surgem mais vilanescos (como o de Rockwell, cujo arco dramático é o mais interessante de todos) ou que não conseguem se livrar inteiramente da caricatura (como o marido da protagonista e a sua esposa de 19 anos de idade) são analisados com carinho e atenção por parte do diretor, o que termina por render cenas inesquecíveis (a do incêndio na delegacia será lembrada por uns dias) e propor ao público uma elevação espiritual, nos fazendo acreditar na nossa salvação e na capacidade de seguir em frente.

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A parte técnica, por seu turno, apesar de não se destacar tanto quanto o roteiro e as atuações (com a exceção de um um plano-sequência impactante pelas dificuldades envolvidas e o conteúdo exibido), mostra uma certa evolução estilística do cineasta, em que a frieza e o calculismo dos trabalhos anteriores dão lugar a um jogo de cena mais dinâmico e uma estética voltada completamente para a história (chega a impressionar o número de instantes comoventes), algo que a fotografia naturalista e pouco embelezadora de Ben Davis fortalece com competência (o jogo de sombras e alguns contrastes são belíssimos).

Deste modo, não é exagero dizer que Três Anúncios Para um Crime é o melhor longa de Martin McDonagh. E essa constatação não se dá apenas em razão da evidente melhora técnica, mas também por causa do equilíbrio que existe entre a comédia e o drama, um elemento vital para que se concretize o objetivo do diretor: entregar uma obra viciante em que todas as expectativas são quebradas, cuja trama te leve a lugares impensáveis e através da qual o público entre em contato com emoções genuínas e fortes. Em suma, um filme engraçado e emotivo, perfeito para rir e chorar.

Três Anúncios Para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, EUA – 2017)

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Direção: Martin McDonagh
Roteiro: Martin McDonagh
Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Abbie Cornish, Peter Dinklage, John Hawkes, Lucas Hedges
Gênero: Drama, Comédia
Duração: 115 minutos

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Tags: #Cinema #crítica #Filme #Frances McDormand #John Hawkes #Lucas Hedges #Peter Dinklage #Sam Rockwell #Três Anúncios Para um Crime #Woody Harrelson
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