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Crítica | Viúva Negra – O que importa é a família

Já faz 11 anos desde que a Viúva Negra de Scarlett Johansson, uma das mais significativas heroínas do Universo Cinematográfico Marvel, fez sua primeira aparição nas telas em Homem de Ferro 2, em um agora longíquo 2010. Em um posto de coadjuvante ao lado de Capitão América e diversos outros membros dos Vingadores, só agora a espiã da SHIELD tem um filme solo para chamar de seu, e ironicamente chega após a morte de sua personagem em Vingadores: Ultimato.

Mas o lado mais irônico nessa jornada toda da Viúva Negra às telas talvez seja o fato de que, em seu próprio filme, Natasha Romanoff é um dos elementos menos interessantes. Afinal, ainda que o longa de Cate Shortland seja sobre a Viúva Negra, parece estar muito mais interessado em “outras” Viúvas Negras de seu pequeno universo – uma decisão que, sinceramente, não é inteiramente ruim.

A trama do filme posiciona-o como um prelúdio, ambientando-se entre os eventos de Capitão América: Guerra Civil e Vingadores: Guerra Infinita, onde uma foragida Natasha (Johansson) se esconde pela Europa enquanto o governo americano exige sua prisão. Em meio às escapadas, ela é perseguida por um misterioso vilão conhecido como Treinador, um remanescente do programa que a treinou, e o ataque a força a retomar contato com sua antiga família russa – incluindo a irmã, Yelena (Florence Pugh), o pai, Guardião Vermelho (David Harbour) e a mãe, Melina (Rachel Weisz).

Casos de Família

Prelúdios são sempre complicados de se acertar, afinal, sabemos que determinado personagem vai sobreviver aos eventos demonstrados. No caso da Viúva Negra, é ainda mais delicado, já que vimos sua morte em cena durante os eventos de Vingadores: Ultimato. Dito isso, é curioso que o roteiro de Eric Pearson opte por não ir para o caminho tradicional de um filme de origem, evitando mostrar o treinamento de Natasha e sua transformação na personagem titular – algo que aé bem resolvido pela maravilhosa sequência de créditos de abertura ao som de um cover de “Smells Like Teen Spirit”.

A decisão de Pearson é basicamente apresentar uma aventura isolada da Viúva Negra, cujos riscos e proporções são limitados a seu próprio universo – um alento após toda a grandiloquência repetitiva que prende os universos cinematográficos. Nesse quesito, e especialmente durante as cenas baseadas nas relações familiares, é um grande acerto. A dinâmica delicada de Natasha com sua irmã mais nova funciona perfeitamente, assim como a performance exagerada de David Harbour como a versão soviética do Capitão América, que sempre eclipsa o presente com seus delírios saudosistas da Guerra Fria. Um contraponto divertido e que, sem precisar apelar para o conhecido senso de humor besta do MCU, realmente é capaz de entreter, e até mesmo comover.

É quase simbólico que, durante uma cena em que Natasha está se sentada à mesa com toda a família reunida pela primeira vez em anos, a protagonista tente se manter focada no plano e na missão que pretendem desempenhar no grande terceiro ato da produção. Tudo isso para cada tentativa sua de avançar seja interrompida por comentários dos demais integrantes, como postura na mesa, glórias do passado e tudo o que esperaríamos ver em algo como Os Incríveis; e muito se deve à ótima performance de Pugh. A missão do filme realmente não é tão interessante, e como já diria Dom Toretto, é tudo sobre a família.

Voltando ao clichê

Meus problemas com Viúva Negra começam quando o filme insiste em se assemelhar às outras produções do MCU. Em seu primeiro grande trabalho em Hollywood, a australiana Cate Shortland mostra-se elegante na criação de composições que envolvam mais a dinâmica dramática (apoiando-se bastante no estilo de obras como The Americans e a franquia Bourne, com suas câmeras inquietas), mas que infelizmente não se traduz na ação e todos os elementos de blockbuster da produção.

Apesar de bem coreografadas e em alguns momentos, até fotografadas de forma vibrante por Gabriel Beristain, com destaque para a coloração verde durante a primeira aparição do Treinador em uma ponte, as lutas corporais são excessivamente editadas e carecem de uma motivação forte por trás. Basta observar o primeiro encontro entre Natasha e Yelena, que se dá através de um combate sem sentido, como se fosse uma obrigação textual que naquele momento precisamos ter uma cena de luta. É até triste ver um vilão como o Treinador, que tem a habilidade de simular movimentos, ser desperdiçado como um simples capanga, sem nada de interessante a apresentar em quesitos estéticos.

O pior vem mesmo no ato final, quando a missão de Natasha atinge algo de uma escala digna dos Guardiões da Galáxia, onde a estética mais realista e crua do primeiro ato entra em colisão com efeitos visuais preguiçosos, aparentemente mal finalizados e que se parecem com só mais um filme do gênero – o mesmíssimo problema enfrentado por Capitão América: O Soldado Invernal, com direito a grandes cruzadores caindo do céu. E apesar de ser um grande fã do estilo buldogue de Ray Winstone, sua presença como vilão principal aqui rende uma resolução bem decepcionante, ainda mais com toda a construção do roteiro em torno da misteriosa Sala Vermelha e suas ocupantes. 

No fim, sinto que não sei muito mais sobre a Viúva Negra do que já sabia nos filmes anteriores (ela ser uma fã de 007 Contra o Foguete da Morte foi um barato). Mas definitivamente o resultado final foi muito melhor do que eu poderia antecipar, e estou bem mais interessado em saber para onde a história da personagem de Florence Pugh irá, do que para o que aconteceu no passado de Natasha Romanoff.

Viúva Negra (Black Widow, EUA – 2021)

Direção: Cate Shortland
Roteiro: Eric Pearson, argumento de Jac Schaeffer e Ned Benson
Elenco: Scarlett Johansson, Florence Pugh, David Harbour, Rachel Weisz, Ray Winstone, Olga Kurylenko, O-T Fagbenle, William Hurt, Ever Anderson, Violet McGraw
Gênero: Aventura
Duração: 133 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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