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Crítica | Zelig – O homem e as multidões

Um falso documentário sobre o mais verdadeiro.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
20 de fevereiro de 2024 · 4 min de leitura
Crítica | Zelig – O homem e as multidões

Um dos grandes desafios do cotidiano é lidar com as mil e uma diferenças, culturas, opiniões e estilos de vida das pessoas com que nos relacionamos. Nem sempre esses embates são pacíficos, afinal, cada um tenta impor e expor sua visão… Mas e se surgisse um homem que conseguisse se encaixar em todos os diferentes grupos? Um homem modelável, sem opinião, sem um Eu? Após se sentir deslocado de todas as formas, Leonard Zelig (Woody Allen) virou esse indivíduo cuja única característica é ser vários. Quaisquer que seja a situação social em que se encontra, conversando com artistas, psicanalistas, músicos, indígenas, judeus, gordos, negros…, enfim (com exceção das mulheres), Zelig tem a habilidade de mudar sua personalidade e sua aparência física para ser aceito nesses grupos. Maldição ou superpoder? Muita ficção? E é, mas sob a forma de um falso documentário (mockumentary, já treinado em Um Assaltante Bem Trapalhão) Zelig consegue ser ainda mais cativante.

Woody Allen, até então associado à comédia e a personagens bem particulares, com tons autobiográficos, faz uma piada com sua própria condição de ator-diretor ao retratar essa personagem de infinitas faces. Ao optar pelo formato documental, Allen aponta, em primeiro plano, uma certa urgência realista, de natureza sociológica, misturando uma comédia absurda – infelizmente, um tanto distrativa perto da premissa conceitual – e intervenções de um narrador onipresente, assim como depoimentos de intelectuais como Susan Sontag, Irving Howe e Saul Bellow, comentando a importância de Leonard Zelig para a História da civilização moderna. Na verdade, recuperando as correntes teóricas da comunicação no começo do século XX, Allen comenta a sociedade de massa – e, pela abordagem psiquiátrica, recupera também o desenvolvimento da psicanálise no século XX.

Zelig é o primeiro de uma sequência de longas que tratam da primeira década do século XX. Em seguida, viria Broadway Danny Rose e depois A Rosa Púrpura do Cairo – até hoje, um dos seus melhores filmes.

Além de fugir do gênero que o diretor costuma produzir, o filme é recheado de triunfos técnicos pioneiros, que depois seriam reverenciados, quase uma década depois, em Forrest Gump. Com vários meses na pós-produção, o filme apresenta fotografias e filmagens de momentos históricos em que Leonard Zelig aparece ou em destaque ou ao fundo. Seja ao lado do famoso boxeador Jack Dempsey, com a atriz Clara Bow ou até mesmo entre os seguidores de Adolf Hitler: Leonard Zelig é um homem diluído em multidões e uma brilhante representação de estereótipos e de medos tão atuais. Medo de ser esquecido e, pior, medo de não ser lembrado durante sua própria existência. O que o protagonista faz, em grande parte do filme, é ser o centro das atenções do povo e da comunidade médica, justamente não deixar seu Eu existir. Suscetível a quaisquer infelicidades alheias, Zelig molda-se por meio de expectativas, isto é, reflete o desejo dos outros.

Quando a Dra. Eudora Nesbitt Fletcher (Mia Farrow) passa a realizar sessões de hipnose com o protagonista, começamos a encontrar o homem antes de sua disfunção camaleônica – diga-se, a personalidade cômica costumeira do ator Woody Allen. Com o tratamento, ele passa a ter uma vida normal até o momento em que as consequências de suas outras aventuras, sob outras identidades, começam a atingir a celebridade do momento.

Afinal, é isso que Leonard Zelig se torna: uma celebridade das mais modernas, caras ao show business desde o seu nascimento. Nesse meio repleto de oportunismos, o culto à celebridade alimenta sonhos, partindo do banal e indo para uma objetivos ainda mais fúteis (o codinome de “camaleão” que gera uma música e dança populares, uma marca de cigarros, além de uma diversa linha de produtos).

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Se Allen já era reconhecido pela atemporalidade da sua visão sobre os relacionamentos amorosos, agora, sob um prisma sociológico, ele também deixa sua marca. Em Zelig, o que há dos vícios inescapáveis do diretor, compensa-se com uma boa dose de originalidade, dando um banho em muitos mockumentaries produzidos até hoje.

Zelig (idem, EUA – 1983)

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Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco:  Woody Allen, Mia Farrow, Patrick Horgan e John Buckwalter
Gênero: Mockumentary, Comédia
Duração: 79 min.

Tags: #Espetáculo #forrest gump #Mia Farrow #Woody Allen
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