Michael é a mimese cinematográfica beirando a perfeição
Se é perfeito como cinebiografia, Michael não é perfeito como filme porque é incompleto por escolha (o filme só vai até o lançamento de Bad).

Michael é o tipo de filme que todo mundo vai ver e – muito provavelmente – a maioria irá gostar. A única condição determinante para apreciar o filme é a simpatia por Michael Jackson e suas canções. Porque, ligeiramente diferente de outras cinebiografias musicais (como Elvis, por exemplo, dirigido por Bar Luhrmann, ou mesmo Um Completo Desconhecido, de James Mangold), a produção dirigida por Antoine Fuqua incorpora completamente o ânimo e o ritmo tipicamente associados ao artista desde o primeiro minuto de projeção. Não estamos diante de uma “versão” de “Michael Jackson por Fuqua” – como é o caso do “Elvis de Luhrmann” e mesmo do “Dylan de Mangold”. Este é um filme sobre Michael Jackson onde a direção modestamente se curva à majestade do artista, de sua sensibilidade e sonoridade de forma talvez nunca antes vista dentro do subgênero.
As gerações mais recentes talvez não tenham ideia de quem exatamente foi Michael Jackson e do que ele representava, da mesma forma que as anteriores talvez não compreendam o tamanho de Elvis Presley ou The Beatles. Michael Jackson era como se a internet inteira fosse uma pessoa só antes mesmo de a internet existir, tal era a dimensão de sua influência, sua ressonância e modismos que lançava e a amplitude da rede de admiração, interesse e devoção provocados.
Como toda biografia “oficial”, Michael tem um problema central a ser resolvido: como ser fiel à trajetória do artista e do ser humano, prestando o tributo merecido sem assumir uma postura “chapa branca” (o que muitas vezes acontece com similares nacionais do gênero)? A resposta encontrada é um equilíbrio sensível entre “mostrar” e “explorar”: ao menos nesta “primeira parte”, o filme não fecha os olhos do espectador para certos problemas relacionados ao artista, tampouco faz sensacionalismo. Esta é uma das qualidades da abordagem de Fuqua: sabemos que o Michael criança era agredido pelo pai autoritário e personalista, mas as cenas que abordam essa passagem são cuidadosas, sem tratar o grotesco como espetáculo (e esta é a melhor maneira de lidar com o tema). Quando um Michael crescido decide enfrentar o pai, o enredo (do experiente John Logan, de Gladiador e 007 – Operação Skyfall) sabe como lidar com a transformação emocional e novamente não pesa a mão.
Talvez o cuidado rigoroso da direção – que aposta fortemente na mimese, ou seja, em imitar fielmente personagens e ocasiões conhecidas pelo público – impeça de ceder a certos impulsos do cinema atual, em que se sacrifica tudo pelos “cortes viralizáveis”. A carreira de Michael Jackson já é por si só uma sucessão generosa de altos momentos, e tanto Fuqua quanto o roteiro parecem ter compreendido isso muito bem: para fazer um excelente filme sobre a vida de um artista único, basta escutar como ainda ecoa sua trajetória e – talvez o maior desafio – entender esteticamente qual o correspondente cinematográfico de sua “batida”, do ritmo único de sua vida e de sua marca na cultura popular.
A encenação e a edição parecem ter capturado perfeitamente o estilo essencial de Michael Jackson e dão a ele seu correspondente na linguagem cinematográfica. O filme pulsa, respira asfalto, estúdio e a emocionalidade do artista, em seu universo permanentemente congelado num momento divisório entre a infância e a vida adulta que jamais se completa e onde reside boa parte do encanto de sua arte: Jackson é ao mesmo tempo uma criança, um compositor original que canta sobre gravidez indesejada enquanto prolonga a virgindade cercado de brinquedos e animais de estimação, um habitante imaginário de ruas que ele mesmo não frequenta mas das quais consegue extrair inspiração e suor (o qual talvez ele quisesse extrair de si mesmo mas a infância eterna impede).
Se é perfeito como cinebiografia, Michael não é perfeito como filme porque é incompleto por escolha (o filme só vai até o lançamento de Bad e parece preparar uma continuação), parando no topo e deixando o espectador excitado até onde foi e esperando por mais. Como a vida de Michael Jackson é enciclopédica em termos de desafios, realizações e reviravoltas, a produção (como quase toda biografia de um artista famoso) tem que correr atrás da própria história, para conseguir encaixar tudo que é indispensável nas modestas duas horas de projeção, o que determina o ritmo quase sem respiros.
A produção supera logo de cara a dificuldade em encontrar um ator à altura de Michael ao apostar no novato Jaafar Jackson, sobrinho do cantor que vence a própria inexperiência numa emulação impressionante que resulta não apenas da expertise dos profissionais envolvidos (maquiadores, coreógrafos, etc.), mas também de um fator que é inexorável: o rapaz realmente se parece com o tio de nascença e isso eleva o filme a um patamar que mesmo boas atuações como as de Austin Butler, Timothée Chalamet ou Rami Malek não foram capazes de alcançar. Diferente desses outros casos, aqui o espectador não precisa ficar “procurando” o cantor original na performance de seu “imitador”: o limite entre aquele que representa e o representado se rompe totalmente, um fenômeno que mistura a magia do cinema de espetáculo com pura genética.
É preciso considerar que toda a parte da vida de Michael Jackson que falta (e que possivelmente será coberta numa continuação) corresponde àquela mais “problemática” e que possivelmente exigiria de Jaafar mais técnica como ator. Porém, não faria sentido cobrar este filme por uma falha hipotética de outro filme que ainda não existe. Aqui, Jaafar funciona perfeitamente, ofuscando inclusive o restante do elenco: como Miles Teller, que está discreto no papel de John Branca (um dos produtores do próprio filme e que provavelmente preferiu ser retratado de maneira modesta).
Fuqua é um diretor experimentado da indústria e que tem no currículo ao menos um filme excepcional (Dia de Treinamento, de 2001). Aqui, ele renova expectativas e estabelece um novo padrão para as biografias musicais cinematográficas que dificilmente será superado porque há poucos artistas da magnitude de Michael Jackson. Ademais, quantos entre eles deixaram um sobrinho capaz de emular tão perfeitamente o parente real?