Cinema

Morre Marjane Satrapi, criadora de Persepolis, aos 56 anos; família diz que ela ‘morreu de tristeza’

Marjane Satrapi, criadora de Persepolis e pioneira do cinema de animação, morreu aos 56 anos em Paris.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
3 min de leitura
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Marjane Satrapi, a artista franco-iraniana que transformou sua infância sob a Revolução Islâmica em uma das obras mais importantes da história dos quadrinhos e do cinema de animação, morreu nesta quinta-feira, 4 de junho, em Paris. Ela tinha 56 anos. A família comunicou o falecimento à AFP em nota que explicava a causa da morte de forma direta e devastadora: “Marjane Satrapi morreu de tristeza um pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida.”

Ripa, produtor, ator e roteirista sueco, havia morrido em 8 de abril de 2025. Nas semanas que antecederam sua própria morte, Satrapi publicou uma série de postagens no Instagram que, lidas em sequência, formavam a frase: “For I Lost the Love of My Life.”

A obra que definiu uma geração

Satrapi publicou Persepolis em quatro volumes entre 2000 e 2003 pela editora parisiense L’Association. A obra, em painéis de preto e branco, narrava sua infância no Irã pós-revolucionário, a perseguição a familiares por razões políticas, o exílio na Europa aos 14 anos, as dificuldades na Áustria e o retorno forçado ao Irã após uma bronquite quase fatal. Traduzida para mais de 25 idiomas e com mais de um milhão de cópias vendidas no mundo, a obra se tornou um fenômeno cultural que cruzou fronteiras de gênero, geração e continente.

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A adaptação cinematográfica, que Satrapi co-dirigiu com Vincent Paronnaud, estreou no Festival de Cannes em 2007 e dividiu o Prêmio do Júri com Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas. O filme foi indicado ao Oscar de melhor longa de animação, tornando Satrapi a primeira mulher a receber uma indicação nessa categoria.

Uma vida entre o exílio e a arte

Nascida em Rasht, no Irã, em 22 de novembro de 1969, Satrapi cresceu em Teerã em uma família de intelectuais de esquerda. Seu tio paterno Anoosh, a quem adorava, foi preso como prisioneiro político e executado, enterrado em cova sem identificação na Prisão de Evin. Ainda adolescente, ela desafiava a polícia da moralidade, burlava as regras de vestimenta e contrabandeava música proibida.

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Aos 14 anos, os pais a mandaram para a Áustria por segurança. Ela chegou a passar três meses morando nas ruas de Viena antes de retornar ao Irã, onde concluiu um mestrado em comunicação visual. Depois de um casamento e divórcio, voltou à Europa e se fixou em Paris no início dos anos 1990. Tornou-se cidadã francesa em 2006.

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Em janeiro de 2025, recusou a Légion d’honneur, a mais alta honraria da França, citando o que chamou de hipocrisia francesa em sua relação com o Irã, especialmente em relação à política de vistos para dissidentes iranianos.

Ativismo até o último momento

Satrapi nunca separou arte de política. Após as eleições iranianas disputadas de 2009, apresentou evidências ao Parlamento Europeu em defesa do candidato reformista Mir Hossein Mousavi. Quando os protestos de Mahsa Amini eclodiram em 2022, ela coordenou uma antologia gráfica publicada em inglês como Woman, Life, Freedom, reunindo artistas e acadêmicos de vários países para documentar o levante para os leitores ocidentais.

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O presidente francês Emmanuel Macron prestou homenagem à artista em nota do Eliseu, descrevendo-a como “uma artista apaixonada pela liberdade” que transformou “uma infância iraniana em fábula universal”. Satrapi deixa uma obra que atravessa quadrinhos, cinema e ativismo político, construída em seis idiomas e enraizada na memória de um país que ela nunca deixou de amar, mesmo de longe.

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