Review | Octopath Traveler 0 agrada veteranos, mas assusta jogadores casuais
Há algo de quase ritualístico na forma como a Square Enix continua revisitando o passado dos JRPGs, buscando recriar aquela mistura de encanto e solenidade que marcou a era clássica do gênero. Octopath Traveler 0, prelúdio da série e terceiro jogo lançado nela, chega justamente com essa missão: recuperar a magia dos RPGs tradicionais sem […]
Há algo de quase ritualístico na forma como a Square Enix continua revisitando o passado dos JRPGs, buscando recriar aquela mistura de encanto e solenidade que marcou a era clássica do gênero. Octopath Traveler 0, prelúdio da série e terceiro jogo lançado nela, chega justamente com essa missão: recuperar a magia dos RPGs tradicionais sem ignorar as expectativas do público contemporâneo.
Desde seus primeiros minutos, o jogo deixa claro que aposta em dois pilares inseparáveis: combate estratégico e narrativa focada em motivações pessoais, enquanto envolve tudo com o charme visual do HD-2D, aquele estilo que já se tornou uma assinatura estética da casa.
Ao mesmo tempo, Octopath Traveler 0 é um título dividido entre virtudes e contradições. Ele oferece sistemas de combate profundos e histórias envolventes, mas também traz à tona certos hábitos antigos do gênero que talvez já não precisassem ser preservados com tanto zelo.
É um jogo que vibra com nostalgia, mas também provoca, questiona e desafia a paciência do jogador em alguns momentos. Entre seus acertos e tropeços, porém, existe uma experiência que merece atenção, não apenas pela reverência ao passado, mas pelo esforço de torná-lo relevante mais uma vez.
Entre Táticas, Classes e Repetições
Octopath Traveler 0 chega com a responsabilidade de sustentar o legado de uma série que, desde o primeiro jogo, tenta equilibrar nostalgia e modernidade dentro de um JRPG de estética impecável. E, em grande parte, ele consegue: há momentos em que o combate brilha com uma intensidade que remete diretamente aos anos de ouro do gênero; em outros, ele tropeça em problemas clássicos que poderiam, talvez deveriam, ter ficado no passado. É um jogo que domina a linguagem dos JRPGs tradicionais, mas que às vezes parece refém demais dela.
Começando pelos aspectos positivos, Octopath Traveler 0 acerta em cheio ao reproduzir a sensação calorosa dos RPGs dos anos 90. A estrutura de combate por turnos permanece firme, sólida e tradicional no melhor sentido da palavra. Os desenvolvedores parecem ter um entendimento muito claro de como montar batalhas táticas que exigem do jogador um olhar atento e, às vezes, quase matemático.
O sistema de “fraquezas” continua sendo um dos pilares mais interessantes do gameplay: cada inimigo responde mal a certos tipos de ataques, seja elemento, arma ou técnica específica e descobrir essas vulnerabilidades é uma mistura adequada de experimentação e estratégia. Quando o jogo funciona, ele funciona muito bem.
Esse sistema se entrelaça com o já clássico “Break”, que interrompe temporariamente o inimigo e abre espaço para explosões de dano que mudam o rumo das batalhas. Mais do que simplesmente castigar o adversário num turno extra, o Break cria uma cadência satisfatória, é quase como construir uma melodia, preparando cada ataque para que o golpe final tenha peso. É uma dança: um passo para frente, um para trás, até encontrar o momento certo para desferir o ataque que vira o jogo. Octopath Traveler 0 domina esse ritmo, criando batalhas que, no melhor dos casos, são verdadeiras pequenas obras táticas.
A variedade de classes também se destaca. Não apenas pela quantidade, mas pela forma como elas se complementam dentro do combate. Desde espadachins mais tradicionais até mágicos focados em suporte, passando por classes híbridas com habilidades situacionais, há espaço para montar composições diversas que deixam o jogador confortável para criar seu próprio estilo.
Isso é importante, pois o jogo incentiva, quase obriga, o player a experimentar, especialmente em confrontos de chefes. A sensação de manipular armas e habilidades diferentes reforça o charme do universo de Octopath, permitindo que cada personagem tenha uma presença mecânica distinta, não sendo apenas um avatar com um conjunto de números.
Outro ponto positivo é a mobilidade oferecida no mapa e a inclusão de opções de qualidade de vida. Itens, sistemas de fast travel e ajustes de velocidade de combate diminuem um pouco o peso dos encontros constantes e seria um alívio maior, não fosse um certo problema que decorre disso.
É aqui que entramos na parte mais chata do gameplay: Octopath Traveler 0 é, sem sombra de dúvida, um jogo que exige grinding. E exige muito. As batalhas aleatórias, que em teoria deveriam manter o jogador sempre ativo e atento, muitas vezes acabam esgotando o interesse antes mesmo de entrarem na parte mais emocionante da campanha.
O excesso de encontros se torna especialmente desgastante quando o jogador percebe que não se trata apenas de poder opcional para os mais dedicados, mas de progresso necessário. Por mais que você esteja atento à construção da equipe, às fraquezas e à cadência do combate, existe uma linha do tempo invisível do jogo que te força a lutar, constantemente, apenas para acompanhar os níveis recomendados para as áreas seguintes. Essa exigência começa despretensiosa, mas conforme a aventura avança, a curva se torna mais íngreme, menos generosa e mais mecânica.
A repetitividade dos encontros aleatórios reforça esse desgaste. O sistema de combate é bom, mas quando ele se repete tantas vezes sem variações significativas no design dos inimigos, ou nos tipos de desafio, a magia começa a se dissipar. O brilho da estratégia dá lugar ao piloto automático, e poucos JRPGs se beneficiam dessa sensação. Octopath Traveler 0 tenta compensar isso com chefes grandiosos, mas o intervalo entre um grande momento e outro é longo o bastante para apagar boa parte do entusiasmo construído anteriormente.
No entanto, é importante reconhecer que, dentro desse problema, existe uma dualidade: para jogadores que apreciam grinding como parte integral da experiência, aqueles que veem o progresso lento e repetitivo como parte do ritual, o jogo pode soar recompensador. Há um certo conforto em dominar inimigos que antes ofereciam risco; um reconhecimento silencioso do tempo investido. Mas isso não muda o fato de que, para muitos jogadores modernos, essa insistência soa anacrônica, um traço que o remaster poderia ter suavizado ou reequilibrado.
Outro ponto merece atenção: a sensação de ritmo irregular. Octopath Traveler 0 alterna entre segmentos emocionantes e outros cansativos de maneira abrupta. Em alguns momentos, a fluidez é exemplar, batalhas rápidas, exploração intuitiva, classes interagindo com o mapa através de habilidades únicas, mas logo depois o jogo trava esse ritmo, interrompendo a progressão com encontros demais ou exigências de nível excessivamente altas. É como se duas filosofias distintas de design coexistissem sem se comunicar plenamente.
Ainda assim, existe mérito na forma como o jogo preserva, e até reaviva, o espírito dos JRPGs de sua origem. Talvez parte da intenção seja justamente essa: manter vivo um estilo clássico, mesmo que isso signifique manter também suas limitações. E, nesse sentido, Octopath Traveler 0 é fiel ao ponto de ser quase obstinado. Ele quer que você lute. Quer que você cresça. Quer que você repita batalhas até que a estratégia se torne familiar, confortável, previsível. Isso funciona para alguns jogadores; para outros, torna-se rapidamente um obstáculo.
A faca de dois gumes da vingança
Se a jogabilidade de Octopath Traveler 0 oscila entre brilho e fadiga, a história se mantém surpreendentemente firme, oferecendo um dos enredos mais envolventes da série até agora. O jogo aposta numa estrutura narrativa que exalta as motivações individuais, tanto dos heróis quanto dos vilões, e cria um mosaico emocional coeso. Aqui, a Square Enix parece ter compreendido que o coração de um JRPG não pulsa apenas na batalha, mas nos conflitos pessoais, nos traumas não resolvidos, nas buscas impossíveis e nas escolhas morais que moldam cada jornada. É justamente nesse espaço que Octopath Traveler 0 se destaca.
A premissa é simples, mas executada com mais nuance do que se espera: os protagonistas carregam o peso da vingança, cada um motivado por perdas, humilhações, injustiças ou tragédias que os colocam no próprio caminho. Se no primeiro Octopath a estrutura narrativa às vezes parecia fragmentada, com oito histórias caminhando paralelamente sem se tocar, aqui há uma coerência maior. Cada arco pessoal parece conversar com os outros, como se todos compartilhassem algo íntimo, uma dor que rima, um passado que ecoa. Essa interligação emocional não elimina totalmente a sensação de que cada personagem vive seu próprio drama, mas oferece mais unidade à experiência como um todo.
O contraponto dos heróis está em um grupo de vilões cuja busca por poder é central na narrativa. E é esse equilíbrio temático, vingança de um lado, ambição do outro, que constrói uma tensão constante no mundo de Octopath Traveler 0. O jogo não esconde a corrupção moral de seus antagonistas: eles perseguem força, influência e domínio com uma intensidade quase ritualística. São figuras sombrias, marcantes e, muitas vezes, trágicas. Nenhum deles é malvado apenas por ser; a escrita os coloca como produtos de sistemas falhos, guerras antigas, pressões sociais e, às vezes, arrogância pura. É um equilíbrio interessante, porque tanto heróis quanto vilões carregam traumas, apenas escolheram caminhos diferentes para enfrentá-los.
Um dos maiores acertos narrativos deste prelúdio é dar ao jogador liberdade para escolher a ordem em que enfrentará esses vilões. Essa estrutura não-linear transforma a experiência em algo parcialmente autoral: cada jogador acaba criando sua própria sequência, sua própria rima interna entre vinganças e confrontos. É uma escolha de design que conversa muito bem com a proposta temática do jogo. Afinal, vingança raramente segue uma lógica cronológica; ela segue um impulso, uma necessidade emocional que não respeita as linearidades. Permitir que o jogador trace seu caminho reforça essa sensação.
Essa liberdade também amplia o impacto dos antagonistas. Cada vilão tem também sua própria história, com motivações e atmosferas específicas. Alguns são frios e calculistas, outros mais explosivos e brutais. Há aqueles que escondem segredos sombrios, e aqueles cuja queda revela algo profundamente humano. Em vez de serem meros obstáculos, eles se tornam quase arcos narrativos independentes. O jogo se beneficia disso, porque cria momentos marcantes que quebram a repetição que a jogabilidade por vezes impõe.
Os heróis, por sua vez, são personagens bem escritos, ainda que alguns caiam em arquétipos clássicos dos JRPGs. Mas aqui isso funciona. A tradição é parte do DNA da série, e Octopath Traveler 0 tem consciência disso. Os protagonistas têm nuances, dilemas e fragilidades que fazem suas jornadas emocionais ressoarem, mesmo em meio à repetitividade mecânica. Eles não são definidos apenas pelo objetivo da vingança, mas pelos laços que criam ao longo do caminho e pelas revelações que enfrentam ao descobrir mais sobre si mesmos e sobre o mundo que habitam.
Outro ponto forte da narrativa está na qualidade das dublagens, tanto em japonês quanto em inglês. Aqui o salto de impacto é significativo. A atuação dá vida e densidade aos personagens de uma forma que, nos jogos originais, simplesmente não existia. A emoção nas vozes reforça as cenas mais dramáticas, torna vilões mais ameaçadores, e dá textura às hesitações, medos e esperanças dos heróis. É impressionante o quanto a dublagem ajuda a construir atmosfera; momentos que seriam apenas boas cenas se tornam de fato memoráveis com o peso da interpretação.
A trilha sonora, como de costume, acompanha essa carga dramática com competência. Os temas dos vilões carregam um ar de inevitabilidade; a música dos protagonistas busca sempre algum brilho de esperança. É como se a trilha também contasse uma história, a história de um mundo dividido entre dois impulsos: subir e destruir, ou resistir e reconstruir.
No entanto, há um ponto negativo que precisa ser mencionado, e que pesa mais do que deveria: mais uma vez, a Square Enix não localizou o jogo em português. É frustrante, especialmente para uma franquia que tem uma base sólida de fãs brasileiros e que, há anos, pede o mínimo de atenção. Não se trata apenas de acessibilidade; trata-se do reconhecimento de um público que consome, apoia e promove a marca. A ausência da localização não impede que a narrativa seja apreciada, mas dificulta o acesso de muitos jogadores a nuances importantes e reforça a sensação de que nossa comunidade não é prioridade para a empresa.
Isso é especialmente desconfortável porque a narrativa de Octopath Traveler 0 é rica em detalhes, diálogos e camadas emocionais. É um jogo que exige leitura atenta e que prospera na sutileza. A falta de uma tradução oficial não só afasta novos jogadores como também limita a experiência daqueles que poderiam aproveitar a história com mais profundidade se ela estivesse disponível em seu idioma.
Ainda assim, mesmo com esse tropeço, a história permanece como um dos pilares mais fortes do jogo. Ela é coesa, envolvente e bem amarrada. Equilibra vingança e ambição com maturidade, usando o formato não-linear como maneira de reforçar esses temas. Os vilões têm presença, os heróis têm alma, e o mundo ao redor deles tem vida própria. É exatamente isso que mantém o jogador investido, mesmo quando a jogabilidade perde ritmo.
Conclusão

No resumo, o gameplay de Octopath Traveler 0 é uma combinação de elementos brilhantes, o sistema de combate, as classes, o visual inspirado, a sensação de estar num JRPG que entende sua própria alma, com problemas evidentes, excesso de grinding, encontros aleatórios repetitivos e ritmo inconsistente. É um jogo que homenageia com devoção o estilo que o inspirou, mas que também carrega consigo os cansaços desse mesmo passado. Há magia aqui, sem dúvida; mas há também um peso que, em 2025, talvez já pudesse ter sido deixado para trás.
Porém, apesar de Octopath Traveler 0 tropeçar em alguns aspectos, sua narrativa consegue se sustentar com firmeza, e em alguns momentos, com brilho. É uma história que honra o legado da série e que demonstra, mais uma vez, que os JRPGs ainda têm muito a dizer quando combinam emoção, estrutura e liberdade.