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(Este texto contém spoilers)

Em Alien 3, numa ambientação que refletia o inferno astral da protagonista através da fotografia avermelhada, as fumaças que pareciam soprar do chão e uma ação que se desenrolava no subsolo de uma prisão de segurança máxima, o público pôde presenciar o fim melancólico e tematicamente perfeito do arco dramático da inesquecível heroína Ellen Ripley, interpretada pela talentosa Sigourney Weaver. Foi dessa maneira, em uma nota alta, que a triste história de sobrevivência da icônica personagem se despedia do fiel espectador. Depois desse filme, não existia a menor necessidade de uma sequência ou qualquer obra que retomasse a trama.

No entanto, nunca deve se menosprezar a infinita capacidade que os estúdios hollywoodianos têm de ver potencial de exploração nos lugares em que não há absolutamente nada. Com o relativamente desconhecido Joss Whedon na função de roteirista (ele já tinha criado a série de televisão Buffy), o irregular Jean-Pierre Jeunet no cargo de diretor e uma história risível envolvendo tanto o cruzamento de um clone de Ripley com uma rainha dos xenomorfos quanto um grupo de mercenários tendo de enfrentar os alienígenas numa base espacial, esta sequência, intitulada Alien – A Ressurreição, é uma prova irrefutável de que a história de Ripley realmente devia ter terminado no filme de David Fincher.

É um fato conhecido que a 20th Century Fox se aproveitou da posição de extrema vulnerabilidade de Jean-Pierre Jeunet (é o seu primeiro e único filme em Hollywood) para, assim como fez na pós-produção de Alien 3, montar o filme de acordo com as suas exigências mercadológicas. Porém, mesmo que isso não tivesse acontecido, é muito difícil que o resultado não fosse tão ruim quanto o corte que foi aos cinemas, ou até a própria versão estendida, que tem mais dez minutos de duração. Acima da direção, dos efeitos, das atuações e do ritmo, destaca-se negativamente o roteiro desastroso de Whedon.

Não é uma tarefa fácil ter de assistir à apropriação inconsequente de uma personagem cuja vida foi tão sofrida, repleta de dores e perdas, mas que ainda assim era detentora de uma personalidade forte, independente e perseverante. Nos três primeiros filmes, passamos a admirar Ripley incomensuravelmente. Aliás, não é exagero dizer que heroína é uma das mais fascinantes da história do Cinema. O seu ato de sacrifício no longa de 1992 é o suspiro final de uma alma misericordiosa que, a todo momento, contrastou a destruição e escuridão circundantes com um olhar doce (ah, os olhos da Sigourney Weaver…) e um coração receptivo e amoroso.

Vê-la retornando à vida 200 anos depois de sua morte, na forma de uma super-heroína indestrutível e em coluio com os inimigos que lutou a vida inteira para destruir é um desrespeito com os filmes anteriores, os espectadores e, principalmente, a personagem. Sim, eu sei que a protagonista de Alien – A Ressurreição não é essencialmente a Ripley e sim uma mistura de clone e híbrido recriado em laboratório. Mas, dos pontos de vista imagético e narrativo, para todos os efeitos, quem enxergamos na tela é a personagem original, mesmo que através de resquícios. Na história do Cinema, a imagem de Weaver como a tenente atingiu um patamar sagrado. O que Whedon fez com ela é uma profanidade indesculpável.

Para piorar, a personagem perambula em um ambiente cartunesco no qual a indecisão dos realizadores sobre qual tom adotar termina por recriar uma narrativa completamente esquizofrênica. Já começando com um plano detalhe medonho da boca de um inseto (os efeitos digitais empregados neste início são tão precários quanto os vistos no filme anterior) e uma cena de humor pastelão na qual um piloto age como um completo idiota, o longa vai ficando cada vez mais bizarro e com uma atmosfera diferente da dos primeiros capítulos. Em questão de minutos, há uma profusão de momentos e falas cômicas incabíveis e personagens circenses interpretados por atores com aparência física peculiar, como Ron Perlman, Brad Dourif e Dominique Pinon.

Uma vez estabelecido esse circo de horrores, a história se desenrola da forma mais genérica possível. Mais uma vez, tem-se uma trama que gira em torno de um grupo de pessoas (como se fosse possível chamá-los dessa maneira) presos dentro de um lugar e tentando eliminar definitivamente a raça dos irritantes alienígenas. Entretanto, ao contrário dos filmes anteriores, no qual a dinâmica dos personagens era rica e o medo chegava a ser quase palpável, precisamos acompanhar até o final diálogos vazios proferidos por caricaturas, além da entediante rotina de vê-los ser dizimados um por um. Whedon acha espaço até mesmo para uma revelação nada imprevisível sobre a natureza robótica da personagem de Winona Ryder.

Jeunet, por sua vez, indica em cada frame não ter a mínima intimidade com o material. O próprio diretor admitiu em entrevistas posteriores que aceitou realizar o filme somente porque desejava entrar na maior indústria cinematográfica do Mundo. No fim, ele nem precisava fazer essa confissão. Basta olhar a sua incapacidade de definir uma atmosfera e tom únicos, a falta de noção de como construir o suspense ou dirigir os atores para perceber que o cineasta deve ter se sentido deslocado no set de filmagem. Nos anos seguintes, ele se sairia muito melhor dirigindo filmes mais autorais.

Depois de Alien – A Ressurreição, para alegria dos verdadeiros fãs, a franquia ficaria adormecida por 15 anos. Foi apenas em 2012, quando Ridley Scott decidiu realizar Prometheus, voltando para o universo que ajudou a criar, que o público teve a oportunidade de ver nos cinemas um novo filme sobre o Alien. No entanto, nem o longa de 2012, nem o atual, nomeado Alien: Covenant, são sequências da obra de 1997, mas sim prequels do longa de 1979. Isso não deixa de ser algo a ser comemorado, pois, se tivemos de ver a aura misteriosa de Alien, O Oitavo Passageiro ser destroçada nos dois filmes mais recentes da saga, não fomos obrigados a rever Ripley ser desrespeitada por mãos inábeis. E que fique assim. Os mortos devem continuar onde estão: debaixo da terra. No Cinema, profanar túmulos e corpos é um crime artístico inafiançável.

Alien – A Ressurreição (Alien: Resurrection, EUA – 1997)

Direção: Jean-Pierre Jeunet
Roteiro: Joss Whedon
Elenco: Sigourney Weaver, Winona Ryder, Ron Perlman, Brad Dourif, Dominique Pinon, Gary Dourdan, Michael Wincott, Dan Hedaya, Kim Flowers
Gênero: Suspense, Ficção Científica
Duração: 109 min

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