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Crítica | Alien, O Oitavo Passageiro

Nem mais, nem menos, simplesmente o que era imaginado, o que, quando se trata de Alien, O Oitavo Passageiro, significa "tudo".

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
5 de maio de 2017 · 8 min de leitura
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Crítica | Alien, O Oitavo Passageiro
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Com Spoilers

O crítico literário Otto Maria Carpeaux, em um dos seus célebres escritos, diz que os clássicos estão cobertos por uma espécie de fumaça histórica que nos impossibilita de enxergar os seus verdadeiros méritos. É como se o peso que a tradição lhes dá fosse pesado demais para que alguém pudesse contrariá-los. Em razão disso, Carpeaux tinha o princípio de analisar uma obra como se ela tivesse acabado de ser lançada. Às vezes, livros intocáveis eram severamente criticados. No entanto, mesmo que essa posição acabasse por gerar alguns inimigos, ele se mantinha fiel ao seu princípio, ao seu próprio mandamento.

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Eu, como crítico de Cinema, quando estava construindo o meu repertório de regras a serem seguidas, estabeleci para mim mesmo esse princípio exposto por Carpeaux. Dessa maneira, muitas vezes fui visto nos encontros profissionais como um enfant terrible, um sujeito que gosta de provocar ou causar polêmica. Mas, não há o que fazer. Existem obras de arte superestimadas e isso é um fato. Todavia, do outro lado da moeda, também existem clássicos que merecem completamente os louros que lhes foram dados. Nem mesmo a análise mais escruciante ou o cinismo desprovido de vida é capaz de não reconhecer os devidos méritos.

Na seara do Cinema, Alien, O Oitavo Passageiro é um desses clássicos. Ao longo da minha vida, tive a chance de assistir ao filme inúmeras vezes e em nenhum delas enxerguei um único elemento que pudesse manchar a impressão de que a obra de Ridley Scott é uma das maiores conquistas cinematográficas já testemunhadas na história da Sétima Arte. Não há nada no longa indicando que os detalhes ou algumas das cenas foram um resultado do acaso, uma junção bem sucedida de sorte e casualidade. Tudo é uma prova cristalina de que aquilo que o espectador vê, ouve, sente e pensa foi intencionado e impecavelmente realizado pelo diretor e a sua equipe.

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Já começando com uma série de movimentos de câmera e planos que servem tanto como um foreshadowing quanto uma apresentação de cada uma das alas da nave cargueira Nostromo (o roteirista Dan O’Bannon decidiu nomeá-la dessa maneira por causa do romance homônimo de Joseph Conrad), o filme, cuja história gira em torno de um grupo de tripulantes que, na viagem de retorno à Terra, depois de interceptarem uma transmissão de origem desconhecida, entram em contato com um organismo extraterrestre que põe as suas vidas em risco, é um assombro do começo ao fim.

No plano conceitual, uma das coisas que mais chamam atenção é a maneira com que a obra flerta com a noção de protagonismo. Geralmente, existem formas de reconhecer quem é o principal personagem de uma história. Colocar em primeiro lugar nos créditos iniciais o nome do ator/atriz que o interpreta ou mostrá-lo ao público antes de todos os outros são alguns dos códigos de reconhecimento estabelecidos. Em Alien, O Oitavo Passageiro, o primeiro nome que surge é Tom Skerritt e o personagem que aparece antes dos outros é Kane (John Hurt). No entanto, nenhum dos dois é o protagonista. Na verdade, as honras deste papel coube a Sigourney Weaver, que interpreta a personagem Ripley.

Aparecendo desde o começo mas quase nunca sendo filmada como se fosse a pessoa mais importante do filme (ao menos no primeiro ato), aos poucos, em decorrência da morte dos outros tripulantes, ela começar a tomar a dianteira, e é só depois de um tempo que o espectador percebe quem é, de fato, a protagonista. Até essa descoberta, Ridley Scott brinca com as percepções do público. Pois, se não sabemos de quem são os olhos que nos guiam pela jornada, não temos como saber quais serão as vítimas do alienígena assassino. No suspense, deixar o espectador no escuro é essencial.

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Porém, essas brincadeiras com as percepções do público não acabam por aqui. Scott sabe que nós estabelecemos padrões e seguimos códigos quando estamos assistindo a um filme. É por isso que na famosa cena da morte de Kane – após criá-la brilhantemente servindo-se apenas de um plano geral que também serve como establishing shot, um olhar incisivo do personagem interpretado por Ian Holm e um movimento de câmera que nos aproxima do rosto de Hurt -, Scott indica o iminente nascimento do alienígena através de batidas cardíacas que o espectador ouve graças ao trabalho do desenho de som.

Depois dessa cena, quase sempre que o vilão do filme está à espreita, escutamos as batidas do seu coração. Assim, o suspense é criado, pois sabemos que em breve algo acontecerá. Porém, um dos motivos mais fascinantes que levaram Scott recorrer a esse recurso fica evidente na sequência em que vemos, através de uma montagem paralela, Ripley em um local e Parker (Yaphet Kotto) e Lambert (Veronica Cartwright) numa outra ala. Quando a protagonista começa a procurar pelo gato, começamos a ouvir as infames batidas. Logo, deduzimos que ela será atacada. No entanto, como estamos acompanhando ao mesmo tempo os outros dois personagens, somos surpreendidos com o fato de que as vidas que correm risco não é a de Ripley e sim as de Parker e Lambert, pois o alienígena está próximo destes. Fomos induzidos pelo diretor a pensar algo, quando, na verdade, era outra coisa diferente.

Parte dessa lógica também aparecerá na construção daquele que é o maior plot twist do filme, embora em uma dose menor. Como descobrimos no final da história, Ash (Ian Holm) é um androide. Mas, para olhos atentos, essa descoberta não deve causar muita estranheza. É claro que poucas pessoas supurariam o conteúdo dessa reviravolta, mas Scott ressalta em vários momentos a frieza do personagem. Através de close ups do seu rosto, podemos ver como em momentos de desespero, nos quais todos os outros reagem irracionalmente, ele mantém um interesse científico desumano. Sendo assim, é extremamente curioso que, apesar de as pistas serem dadas, o choque da revelação é sempre eficiente. Neste filme, Scott manipula o espectador como poucos diretores chegaram a fazer.

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Contudo, os méritos de Alien, O Oitavo Passageiro não se restringem somente ao suspense. Partindo de um roteiro simples mas perfeitamente estruturado, cada um dos responsáveis pela realização do filme atinge resultados excepcionais. Se o desenho do alienígena, feito pelo artista plástico H. G. Riger, é sempre louvado, é preciso fazer justiça ao design de produção, à direção de arte e de fotografia, que, juntos, constroem um mundo sombrio, assustador (a paleta de cores varia entre diferentes tons de cinza, preto, verde e azul escuros) e que influenciou inúmeros filmes que vieram posteriormente.

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Já a montagem de Terry Hawlings e David Crowder, por sua vez, contrariando as expectativas comuns, é muito mais lenta e compassada do que se esperaria em um filme de suspense. Mas, em vez de alienar o espectador, ela é essencial na construção do sentimento de antecipação. Além disso, a lentidão com que os acontecimentos vão sendo revelados é enervante e perturbadora. Quem também contraria as expectativas é Jerry Goldsmith. Durante o filme, os acordes grandiosos e as notas altas são raros. No lugar, o compositor colocou trechos mais intimistas que, juntamente com o já mencionado desenho de som, embalam o espectador sem que este perceba que está sendo embalado. Chamo atenção também para que vejam como, no terceiro ato, no momento em que Ripley desacopla o ônibus espacial da Nostromo e nós pensamos que ela se livrou do monstro, os acordes, além de serem imperceptíveis, não são gratificantes. Isso é importante para indicar aquilo que logo depois descobriremos: o alienígena ainda não foi morto. É somente no instante em que temos certeza que ele morreu que a música se torna mais edificante.

Por fim, além dos méritos que já foram citados, o trabalho de Ridley Scott ainda tem mais um aspecto a ser destacado. Não há como não elogiar o fato de que o cineasta revela muito pouco do monstro. Não vemos quase nada da criatura. Através de planos seletos (e cortes precisos da montagem), o alienígena é um mistério completo. Se não tivessem existido outros filmes da franquia, teríamos um dos vilões mais enigmáticos do Cinema. Quem é? De onde veio? Há quanto tempo ele existe? No que consiste o seu organismo? Tem algum propósito? O filme acaba e não temos quase nenhuma resposta. Do ponto de vista narrativo, isso é fascinante.

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Feita esta análise e elencadas as incontáveis qualidades do longa, se lembrarmos do que disse nos dois primeiros parágrafos, podemos afirmar que a fumaça foi dissipada e, por detrás dela, estava exatamente aquilo que esperávamos. Nem mais, nem menos, simplesmente o que era imaginado, o que, quando se trata de Alien, O Oitavo Passageiro, significa “tudo”. Responsável por transformar o suspense cru em obra de arte do mais alto nível, o filme de Ridley Scott é, sem sombra de dúvida, um clássico que, como poucos, merece com todas as honras essa alcunha.

Alien, O Oitavo Passageiro (Alien, EUA – 1979)

Direção: Ridley Scott
Roteiro: Dan O’Bannon
Elenco: Sigourney Weaver, Tom Skerritt, John Hurt, Harry Dean Stanton, Veronica Cartwright, Ian Holm, Yaphet Kotto
Gênero: Suspense, Ficção Científica
Duração: 116 min

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Tags: #Alien - O Oitavo Passageiro #Cinema #crítica #Filme #Ian Holm #John Hurt #Ridley Scott #Ripley #Sigourney Weaver #Suspense #Veronica Cartwright
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