Críticas

Review | Pokémon Pokopia traz renascimento do Mundo Pokémon através da construção e do afeto no Switch 2

Pokémon Pokopia brilha no Switch 2 ao trocar batalhas por um simulador de vida incrivelmente viciante e cheio de charme.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
11 min de leitura
Publicidade

Quando uma franquia está se aproximando de sua terceira década de existência, a reinvenção torna-se não apenas um desafio, mas uma necessidade para evitar a estagnação. Ao longo dos anos, Pokémon flertou com a quebra de paradigmas em títulos como Pokémon Ranger, Pokémon Snap e a série Mystery Dungeon

Alguns desses experimentos foram aplaudidos, outros menos. No entanto, raramente vimos a Game Freak e a The Pokémon Company darem um salto criativo tão confiante quanto o que presenciamos em Pokémon Pokopia. Desenvolvido em colaboração com a Omega Force (da Koei Tecmo) e lançado para o Nintendo Switch 2, este título não é apenas um spin-off; é uma carta de amor à franquia e até mesmo a um episódio muito saudoso da primeira temporada do anime de Pokémon: o de número 17, A Ilha dos Pokémon Gigante, no qual os bichinhos conversavam entre si de modo entendível para todos os espectadores.

No papel, o conceito soa quase como um delírio criativo febril: um simulador de vida cozy (aconchegante) onde você não lança Pokébolas, não compete em ginásios e não almeja se tornar um Mestre Pokémon. Em vez disso, você é encarregado de reconstruir um mundo esquecido pós-apocalíptico, trabalhando lado a lado com os monstros de bolso em uma coexistência pacífica. 

Publicidade

Após dezenas de horas imerso na caixa de areia silenciosamente fascinante de Pokopia, fica claro que isso não é apenas um truque para capitalizar a febre dos “jogos de fazendinha”. O jogo se estabelece como uma das interpretações mais revigorantes do universo Pokémon que vimos em anos, combinando a construção baseada em blocos de Dragon Quest Builders com o charme social e o ritmo relaxante de Animal Crossing

A execução é tão envolvente que classificar o jogo levianamente como “Pokémon Minecraft” ou “Pokémon Crossing” seria uma injustiça tremenda à complexidade e à escala que ele oferece.

Um mundo desolado à espera de restauração

Diferente do tom invariavelmente otimista e enérgico da série principal, Pokopia começa com uma premissa surpreendentemente melancólica e misteriosa. Você não acorda em uma cidade próspera e barulhenta pronto para escolher seu parceiro inicial. 

O jogo te joga em uma paisagem que já viu dias muito melhores. As árvores estão estéreis, a grama secou até virar palha e o que antes parecia ser um assentamento vibrante agora é pouco mais que uma memória desbotada e blocos quebrados.

Você não joga como um treinador humano tradicional. Na verdade, seu personagem é um Ditto. Sentindo a falta de seu antigo treinador e do mundo vibrante de outrora, este Ditto assume uma forma humana e, consequentemente, domina a habilidade de imitar as capacidades de outros Pokémon. 

A solidão inicial é rapidamente quebrada pela chegada do Professor Tangrowth, um Pokémon que atua não apenas como seu guia e mentor, mas como um companheiro essencial na jornada para reviver o ecossistema. É uma inversão de papéis deliciosa: aqui, é o Pokémon sábio que recruta o “humano” para salvar a terra.

A história se desenrola de maneira orgânica, menos focada em longas exposições textuais e mais na construção de mundo silencioso que os fãs de RPGs de mesa tanto adoram. À medida que você revive os habitats e novos Pokémon retornam à área, pistas começam a emergir através de anotações abandonadas e vestígios no ambiente. 

O que aconteceu com os treinadores? Que desastre natural ou catástrofe forçou o abandono dessas ilhas? O mistério não é sombrio a ponto de quebrar a atmosfera aconchegante, mas fornece um fio narrativo contínuo que te empurra para frente. 

A saudade e a ingenuidade dos Pokémon que não entendem para onde seus amigos humanos foram é, em muitos momentos, de cortar o coração. Essa narrativa sutil enquadra cada ação do jogador: cada árvore que você rega e cada cabana que você constrói é um passo em direção a um propósito maior. Não é apenas decorar por decorar; é restaurar a esperança. 

Fora isso, o trabalho dos diálogos é primoroso. O senso de humor funciona muito bem, trazendo características muito particulares para cada Pokémon e suas pequenas histórias, assim como seus desejos pessoais. É fácil rir e se emocionar com as linhas de texto enquanto os bichinhos interagem trocando memórias entre si.

Review | Pokémon Pokopia traz renascimento do Mundo Pokémon através da construção e do afeto no Switch 2
Nintendo

Ditto e a Revolução das Ferramentas Vivas

A mecânica central de Pokopia é uma genialidade enganosamente simples. Na maioria dos jogos de simulação, seu progresso é ditado pela obtenção de ferramentas: um machado de ferro, um regador de ouro, uma picareta de diamante. Em Pokopia, as ferramentas são os próprios Pokémon e, por extensão, as habilidades que seu Ditto pode mimetizar. 

Quando você precisa quebrar rochas duras que bloqueiam um vale, não há necessidade de forjar uma marreta; em vez disso, você interage com um Hitmonchan e adquire temporariamente seu soco destruidor de blocos. Se a terra está seca e rachada, a habilidade “Water Gun” de um Squirtle é a solução, transformando poeira em terra fértil e verdejante diante dos seus olhos.

Essa abordagem não apenas consolida a integração do universo Pokémon na jogabilidade, mas também transforma a exploração em um quebra-cabeça ambiental em constante evolução. Descobrir um novo monstrinho não é apenas preencher um espaço na Pokédex, mas sim adquirir uma nova chave para destrancar partes do mundo. 

O ataque “Cut” de Scyther limpa matagais densos com facilidade, enquanto as bolhas de um Piplup podem amaciar a lama endurecida. É o resgate das clássicas Hidden Machines (HMs) da série principal, mas finalmente aplicadas de uma maneira que molda ativamente o mundo ao seu redor, em vez de apenas servir como um “pedágio” para passar por uma caverna.

A influência da Omega Force e seu trabalho prévio em Dragon Quest Builders é inegável aqui. O sistema de construção baseado em grade permite uma flexibilidade enorme. Transformar uma paisagem desolada em um habitat fervilhante de vida é um processo tátil e profundamente satisfatório. 

Ver a cor retornando à tela quando você planta a grama certa ao redor de um lago, ou quando reconstrói pontes bloco por bloco, é um feedback visual que prende a atenção, além de ser muito satisfatório. O jogo te dá o controle, mas exige que você entenda as regras do ecossistema.

O loop viciante: Atrair, Acolher e Expandir

No coração da jogabilidade de Pokopia está um loop perigosamente viciante, projetado para obliterar sua percepção do tempo. Você começa explorando e coletando materiais básicos. Com esses materiais, você pode criar pequenos habitats. No início, as exigências são simples: quatro tufos de grama dispostos de certa forma, talvez perto de uma pedra. Ao fazer isso corretamente (muitas vezes guiado por marcações visuais brilhantes que funcionam como plantas arquitetônicas), um novo Pokémon será atraído para a área.

Publicidade

Mas atrair é apenas o primeiro passo. Cada espécie tem preferências únicas, e é aí que a camada de gerenciamento de Pokopia brilha intensamente. Um Charmander pode querer luz e calor, exigindo que você posicione fogueiras ou lanternas alimentadas por geradores. Um Wooper pode precisar de mais água e lama. À medida que o assentamento cresce, os pedidos dos residentes se tornam mais complexos e específicos. O que começa como um pedido por “um lugar para dormir” evolui para a demanda por uma cama específica ou uma estrutura arquitetônica particular.

Atender a esses desejos aumenta o nível de satisfação do Pokémon, o que, por sua vez, eleva a classificação geral da região. Uma classificação mais alta significa que os terminais nos Centros Pokémon em ruínas que você reconstruiu começarão a oferecer novas receitas de crafting, itens de decoração mais sofisticados e kits de construção para moradias de vários andares. 

Além disso, Pokémon extremamente felizes oferecem presentes raros e, se possuírem as competências certas, convertem matérias-primas brutas em materiais avançados, como transformar toras em tábuas de madeira refinada. Você rapidamente percebe que a progressão não depende de derrotar líderes de ginásio, mas de ser o melhor administrador comunitário que aquele mundo já viu.

A interação com os monstrinhos também é colaborativa em tempo real. Você pode pedir que um grupo de Pokémon te siga (desde que o caminho esteja livre de obstáculos que eles não possam transpor). Se você posiciona um kit de construção para um edifício grande, como uma cabana de dois andares, você precisará alocar materiais e uma equipe de Pokémon trabalhadores. Alguns edifícios exigem especialistas, como os que têm aptidão para carpintaria. Uma vez que o canteiro de obras está ativo, os Pokémon começam a martelar e trabalhar na estrutura, e vê-la subir gradualmente é uma recompensa em si.

Publicidade
Review | Pokémon Pokopia traz renascimento do Mundo Pokémon através da construção e do afeto no Switch 2
Nintendo

A sombra do relógio e os defeitos na fundação

Apesar de ser uma experiência quase mágica, Pokopia não está isento de frustrações que quebram, momentaneamente, o seu feitiço de aconchego. A maior delas reside na forma como o jogo lida com o tempo real e a progressão dos grandes projetos de construção.

Assim como em Animal Crossing, Pokopia funciona em um ciclo de dia e noite em tempo real. Para construções pequenas, o jogo frequentemente fornece um cronômetro exato em horas reais. No entanto, quando você inicia um grande projeto, como um alojamento para vários Pokémon, a interface simplesmente avisa que a obra estará pronta “Amanhã”. O problema é que “Amanhã” é um termo dolorosamente impreciso. 

Não significa à meia-noite do dia seguinte, nem exatamente 24 horas depois. O jogo falha em fornecer uma barra de progresso clara, deixando o jogador na dependência de adivinhar o status observando visualmente a altura do edifício no canteiro de obras. Quando a manhã do dia seguinte chega e a placa continua dizendo “Amanhã”, a imprecisão se torna uma fonte real de irritação.

Outro ponto que exige paciência é o sistema de detecção e lógica das missões de desejo. O jogo às vezes peca pela falta de flexibilidade. Em uma situação específica, um Pokémon solicitou um abrigo simples de folhas. Buscando superar as expectativas, decidi construir uma versão melhorada e maior imediatamente. O monstrinho adorou, demonstrou extrema felicidade, mas a missão recusou-se a registrar como concluída. 

Fui forçado a demolir a melhoria, construir a cabana minúscula que o script exigia, validar a missão e só então poder reconstruir o abrigo superior. Essa rigidez mecânica contrasta duramente com a liberdade que o resto do jogo promove, criando gargalos de frustração desnecessários.

Um espetáculo visual e sonoro de aconchego

Ignorando essas pequenas falhas, o trabalho de apresentação de Pokopia no Nintendo Switch 2 é impecável, demonstrando do que o novo console é capaz quando a direção de arte é priorizada em vez da contagem poligonal bruta. 

O jogo opta por um estilo visual que mistura o formato de blocos simplificado da terraplenagem com a modelagem tridimensional altamente detalhada e fluida dos Pokémon. O contraste funciona de forma brilhante. A paisagem cúbica torna a reconstrução em larga escala intuitiva, enquanto os modelos expressivos dão alma à ilha.

É simplesmente delicioso observar a inteligência artificial dos monstrinhos interagindo com o ambiente. Você verá um Oddish correndo pela grama tentando alcançar um Cubone em uma brincadeira de pega-pega improvisada. Hitmonchan e Hitmonlee treinarão juntos perto da academia que você acabou de construir. E se você colocar um brinquedo no habitat de um Charmander, ele não apenas ficará feliz; ele correrá até o local para interagir fisicamente com o objeto. 

Essas animações não são estáticas; elas respiram vida, transformando a ilha em um diorama vivo que exige a sua atenção constante, muitas vezes desviando você do seu objetivo principal só para observar as interações.

Para capturar isso, o jogo inclui um sistema de fotografia robusto que lembra Pokémon Snap, recompensando você com molduras e novas opções de câmera quando registra momentos específicos e raros de interação. E a trilha sonora complementa essa atmosfera perfeitamente. 

As melodias são suaves, relaxantes, com rearranjos gentis de temas clássicos da franquia que invocam uma nostalgia confortável sem nunca se tornarem invasivas. A capacidade de encontrar CDs pelo mundo para tocar em rádios construídos em sua base garante que a audição nunca se torne monótona.

'Pokémon Pokopia' será o primeiro jogo da Nintendo em 'Game-Key Card' no Switch 2
Nintendo

Um triunfo da simulação de vida

Pokémon Pokopia não reinventa a roda dos simuladores de vida desse estilo cozy. Jogos como Stardew Valley e o próprio Animal Crossing já pavimentaram esse caminho. O que Pokopia faz, de forma magistral, é fundir o DNA de caça, coleta e afinidade da série Pokémon com o prazer metódico de restaurar a ordem no caos. 

Ele substitui a adrenalina das batalhas de ginásio pela satisfação lenta e silenciosa de ver uma floresta crescer onde antes havia apenas areia seca.

O mundo é vasto, dividido em biomas com requisitos variados de reconstrução, e a liberdade de moldar cada ilha à sua imagem e semelhança é inebriante. A ausência de punições severas — não há limite de tempo fatal, seus Pokémon não te abandonam se você errar a cor da parede — torna o jogo o epítome de uma experiência sem estresse, ideal para os tempos modernos onde os jogadores buscam jogos como válvulas de escape.

Publicidade

Para os proprietários do Switch 2, este não é apenas um ótimo jogo de Pokémon; é uma das experiências mais relaxantes, gratificantes e viciantes que o console tem a oferecer. Um triunfo absoluto que garantirá que seu console permaneça ligado muito além da hora de dormir.

Compartilhar: Twitter Facebook WhatsApp