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Esquindo-lelê! Em 1997, o impensável aconteceu, e o carnaval final chegou a Gotham City – cortesia do diretor Joel Schumacher que, possuído inadvertidamente por um espírito inaudito de brasilidade, conseguiu tornar o herói mais sombrio dos quadrinhos em um samba-enredo, com direito a desfile e tudo.

Não, não aquele desfile estilo Macy’s do primeiro filme de Tim Burton. É carnaval mesmo, com direito a todo tipo de alegoria que podemos imaginar. Talvez, passados vinte anos, o amigo leitor possa pensar “ah, esse filme não era tão ruim assim”. Acredite – era pior.Tal qual um gringo bêbado no meio de um trio elétrico, é até difícil tentar descrever o tamanho da bagunça de Schumacher.

O diretor parece não ter entendido que o que havia de ruim em Batman Eternamente era justamente seu “toque pessoal” do pandeiro, e decidiu adotar a estratégia de 9 entre 10 continuações que dão errado: “mais é melhor”. Associe essa estratégia à analogia de dar mais álcool para o cidadão ébrio do fim do parágrafo acima, e o resultado é um bom resumo do que nos acontece ao assistir Batman & Robin: vômito e uma ressaca que já dura duas décadas.

No samba-enredo, o Bruce Wayne de um incauto George Clooney precisa lidar com algumas revoluções particulares na sua vida; incluindo seu pequeno Robin (Chris O’Donnell) querendo “abrir suas asas sobre nós” para além da sombra do morcego; a chegada da misteriosa sobrinha-passista de Alfred, Barbara (Alicia Silverstone); além da incurável doença que acomete o mordomo-pai lá na Galeria da Velha-Guarda.

Paralelamente, nós temos a bateria dessa bizarra escola de samba sendo puxada pelo elenco de vilões estelares composto por Uma Thurman, fantasiada de Hera Venenosa no carro-chefe intitulado “Amazônia de plástico da 25”; Arnold Schwarzenegger e seu Mr. Freeze representando o famoso carnaval de “Cabo Frio”; e o homem em uma roupa de borracha tão ridícula – que parece de fato ter sido comprada numa loja ordinária de fantasias – apresentado como Bane; no geral tão inútil, que sequer vou perder o meu e o seu tempo procurando o nome real do infeliz no IMDB.

Por favor, pare para pensar nos nomes envolvidos. Clooney, Thurman e Schwarzenegger já eram astros consolidados de Hollywood, enquanto O’Donnell e Silverstone eram queridinhos em ascensão da indústria – e ainda temos o veterano e excelentemente deslocado Michael Gough dando um desperdiçado toque de classe.

São muitos astros e estrelas brilhantes num mesmo filme. De fato, tão brilhantes que eles parecem ter ofuscados uns aos outros, e ninguém parece conseguir enxergar o fato de que o filme atinge níveis de breguice devidamente representados por mamilos (MAMILOS) na armadura-alegoria do Vingador das Trevas. De fato, ter um ator como Gough em algo assim nos transmite a incomodamente surreal impressão de ver alguém tentando interpretar Shakespeare em cima de um carro alegórico.

Que o filme é ruim é indiscutível, mas existem níveis de ruindade – assim como explicações para eles. É um fato que Schumacher quis imprimir sua própria identidade para o personagem buscando se aproximar do clássico psicodélico kitsch da série de Adam West, assim como se afastar do gótico chique neoclass de Burton – que, devo confessar, na minha opinião também envelheceu mal à beça, e sofre pesadamente com a comparação com as obras-primas do personagem de Christopher Nolan. Saem as sombras, a fotografia escura e a sociopatia light do coringa de Jack Nicholson, e entram as luzes neon, as gags envolvendo lavar roupa e OS MALDITOS MAMILOS.

Mas o problema de Schumacher não é somente de intenção – é de compreensão e, pelo amor de Miller, execução. Compreensão no sentido de que o seriado de West funcionava por conta de um zeitgeist muito específico: o Batman foi um dos personagens que mais sofreram com o abobalhado Comics Code Authority, a censura dos quadrinhos. Tornar o personagem mais leve, colorido e coloca-lo em situações mais bem humoradas, não só reinventava o personagem de uma forma aceitável para a censura, como de quebra ainda o aproximava do espírito mais leve e pacifista dos jovens hippies, beatnikse yuppies dos anos 60.

No entanto, o Batman de Schumacher surge num momento completamente diferente, pós-Frank Miller, quando o personagem reabraçou suas origens trágicas e a violência que cerca sua vida e sua condição; para se ter uma base de comparação, um dos vilões do filme – provavelmente o mais tosco – Bane, só está no filme porque sua contraparte nos quadrinhos surgiu, apenas alguns anos antes (1993) deixando o Batman paraplégico. Essa é a diferença de época que Schumacher parece não ter entendido quando decidiu tornar sua releitura de um personagem soturno em um samba-enredo da Acadêmicos de Gotham.

E aí temos o problema da execução. E este é o ponto nevrálgico que faz com que Batman & Robin concorra na memória afetiva dos espectadores como um dos piores filmes já feitos. Porque existem, sim, filmes mal feitos que acabam se sobressaindo por outros fatores. Mas a impressão que ficou é que o diretor recebeu um orçamento para realizar o blockbuster do ano, e deliberadamente decidiu realizar uma obra-prima do trash.

Tudo nela parece cuidadosamente disposto para realçar seu caráter tosco, mambembe. Eu poderia discorrer vastamente sobre todos os aspectos minuciosamente ridículos do filme – da armadura “movida a diamantes” do Mr. Freeze (sério) até o famoso close na “comissão de trás” da Batgirl de Silverstone, mas eu prefiro pontuar a deprimente realização do filme com uma memória pessoal.

Infelizmente, como muitas crianças na época, eu acabei vendo o filme no cinema – onde, obviamente, qualidades e falhas de um filme são ressaltadas. O fato é que, em 1997, eu tinha apenas 11 anos de idade, época das nossas vidas em que nosso senso crítico se estende entre “nulo” até “nenhum”. Tudo é festa. Tipo esse filme.

Mas eu tenho vívida na minha memória a imagem de uma cena específica: conforme o raio-congelante-do-espaço do Mr. Freeze (porque sim) passa por cima de Gotham, ele atinge um carro policial. Imediatamente, os policiais saem de dentro do carro, e olham assustados para a “devastadora” arma.

Friso, mesmo uma criança não muito esperta de 11 anos notou algumas coisas: primeiro, e mais importante – quando os policiais abrem a porta do carro, o “gelo” nela balança. É sério, é nítido. Volte nessa cena e veja como o enquadramento do gelo de borracha de Schumacher ocupa quase o centro da cena. É maravilhoso de tão ruim; quase uma coroação da boçalidade vista até ali. Segundo, visto do espaço, o raio toma quase toda cidade de uma vez. Quase voltamos para dentro de Gotham, o raio só consegue pegar um carro por vez numa linha reta. Tem uma super-lupa movida a diamantes na atmosfera também? E terceiro: o raio passa por cima do carro e o congela, mas os policiais saem de dentro ilesos. Ou seja, para se proteger do plano-mestre/arma-mortal-maligna do vilão do filme, basta fechar a janela.

Ao ver essa situação, ainda me lembro claramente das sábias palavras que enunciei – talvez minha primeira crítica cinematográfica – para minha mãe, que me acompanhava na sessão: “nossa, que bosta”.

Ademais, é necessário, antes de encerrarmos, fazer uma reflexão: se não fosse pelo tamanho da calamidade que foi esse filme, a nova era dos super-heróis do cinema jamais teria existido. É um fato que levou três anos até alguém decidir se arriscar novamente no gênero – Bryan Singer e seus X-Men – e quando o fez, foi na contramão mais oposta possível do desastre carnavalesco de Clooney e companhia. Em verdade, não é exagero dizer que mesmo Nolan talvez tenha se inspirado – em oposição – no não-Batman de Schumacher para realizar sua versão definitiva do personagem.

Eu nunca fui muito fã de Carnaval – nada contra, só nunca me atraiu, desde que me dou por gente. Só agora, fazendo essa reflexão, talvez deva colocar isso na conta de Schumacher. Mas, tendo acompanhado esse desfilme (entenda como quiser) in loco, hoje entendo que apenas um brasileiro, nascido na cultura carnavalesca teria condições de avaliar esse filme. Portanto, vamos às notas:

Fantasias (com e sem mamilos): Zero

Bateria e condução (de Schumacher): Zero

Comissão de frente (e, como dito, de trás): Ok, Thurman e Silverstone, no auge, etc… Dez!

Samba-Enredo: Será que Ele É? Composto por Dr. FredricWertham (uma piada para os fãs de quadrinhos aí fora). Zero

Mestre-Sala e Porta-Bandeira (Clooney e O’Donnell): o fato d’a carreira de O’Donnell ter minguado depois desse filme te diz alguma coisa? Zero!

Harmonia: auto-explicativo, né? Zero

Alegoria: Lembra do Mr. Freeze salvando o Alfred no final? Pois é. Zero

Evolução: Quase acabou com os heróis no cinema. Zero.

E não venham me dizer que minhas notas são injustos, pois essa galera toda foi rebaixada para a “categoria de acesso” de Hollywood – e alguns, como dissemos, nunca mais subiram para o primeiro escalão. Ô abre alas, que eu quero é distância desse filme…

Batman & Robin (Batman & Robin – EUA – 1997)

Direção: Joel Schumacher
Roteiro: Akiva Goldsman, baseado nos personagens da DC Comics
Elenco: George Clooney, Chris O’Donnell,  Arnold Schwarzenegger, Uma Thurman, Alicia Silverstone, Jeep Swenson, Michael Gough
Gênero: Ação, Aventura, Comédia
Duração: 125 min

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