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É uma pena o que anda acontecendo com uma das maiores franquias dos videogames. Desde o fracasso de Lords of Shadow 2, Castlevania só foi jogada às traças pela Konami. O que não é exclusividade dessa franquia. Não se trata, porém, aqui, de discutir o mundo dos games, senão da nova produção original da Netflix. Quando um espectador desavisado se depara, nos créditos iniciais com o nome de Warren Ellis no comando do roteiro de um projeto que não pode viver sem uma violência comicamente perturbadora, parece, na hora, não existir melhor opção entre os autores norte-americanos. Escritor de histórias em quadrinhos como a ácida Transmetropolitan, e outras célebres como The Autority, Planetary, sem esquecer de sua passagem por Hellblazer, idealmente, Ellis parece ser o par perfeito para entregar nas telinhas um bom roteiro extraído de um jogo que mais é do que diz.

O que esses primeiros episódios de Castlevania mostram é que, sim, é possível formular algo com base em Castlevania III: Dracula’s Curse. Sim, é possível dar carisma aos personagens, assim como formular diálogos que não imitem o aspecto travado e sinceramente descartável dos antigos jogos. Não falta conteúdo para que a franquia chegue às telinhas como entretenimento aos loucos por sangue, por vísceras, por iconoclastia, esquartejamento, vampiros, monstros, padres, magia, enfim, tudo de atraente no universo de Castlevania. É uma pena, porém, colocar esses produtos lado a lado, os jogos e a série, e perceber que o esmero, a lapidação de uma obra parece ter estacionado em algum lugar remoto.

Pontue-se que a alta fidelidade à dita essência de um jogo (normalmente, a que pintam os seus fãs) não é garantia de um bom derivado. Para alegria de muitos, esse Castlevania bebe em suas origens e entrega um conjunto bem sóbrio e reconhecível. O cenário medieval mistura-se com os avanços industriais do castelo do Drácula estão presentes para pontuar uma identidade. Dito isso, é ótimo o começo do primeiro episódio. Na visita de Lisa ao castelo de Drácula, o roteiro encontra uma ótima solução para apresentar esse universo e dar a premissa da série. Nesse embate entre os benefícios da ciência e a deturpação da fé, há muito espaço para o sobrenatural se desenrolar com uma ponta de História. Quando a Inquisição joga Lisa na fogueira, acusada de bruxaria, e Drácula volta como homem, a estupidez da Igreja desencadeia a maldição que a jovem queria tanto evitar. Drácula solta seus exércitos de criaturas da noite um ano depois do ocorrido e a morte se alastra por vários feudos.

Feita essa introdução pelo primeiro episódio, seguiremos então Trevor Belmont, último filho da família de caçadores de monstros, e seu passeio pelas cidades à busca de um lastro de vida. Os grandes problemas começam a se mostrar na cena do bar, na longa exposição sobre a situação da família Belmont perante a Igreja na voz de um beberrão. Para tentar algum dinamismo, a câmera passeia pelos personagens presentes, insere uma ou outra interrupção alheia, mas, no final, a sensação é de um diálogo que queremos pular com o aperto de um botão. Ao menos, nesse caso, há o estilo jocoso e despreocupado do Belmont.

Seria tolerável se fosse essa uma situação ímpar. Mas, basta mais alguns minutos para perceber que essa rédea solta, de um roteiro sem edição, a la chiclete sem gosto, mascado por obrigação, não atende nem o lado que deseja substância nos diálogos, nem aquele que só pensa em ação. Até que, no geral, a série soube dosar a proporção entre os dois, priorizando o primeiro lado. Porém, é só volume, é só indesejável camada de gordura em uma carne sola de sapato.

Pouco depois da metade do percurso, ficam claro os volteios do roteiro, assim como a falta de fluidez das animações nas cenas de batalhas. A violência, então, ora é escancarada, como choque (um bebê na boca de um monstro, cabeças empaladas, órgãos à mostra, pilhas de corpos), ora fica em elipse, sem sabermos o porquê. De maneira similar, há pitadas de humor, na maioria deslocadas em diálogos pouco importantes e que beiram leves suspensões de descrença. Em meio à austeridade exigida pelo cenário preocupante e pela classificação indicativa alta, não caberia algo mais obscuro?

Contagiante, mais do que uma preguiça, esse desrespeito com o público – fã ou não, pouco importa –, se alastra como tentáculos escorregadios. Que prova precisa-se mais para enxergar que o modo de produção afeta a obra esteticamente? Que outra explicação poderia se dar para o lançamento de apenas quatro episódios de 25 minutos nos quais a produção aparece de forma tão desvalorizada? Esse Castlevania que nos foi apresentado não passa de um vampiro que dormiu pouco e está sem tesão algum para morder gargantas. Não maturou o suficiente. Tivesse, antes, ido de retro que apresentado essa quadrilha de paróquia – no lugar de um baile nos infernos.

Castlevania – 1ª Temporada (Castlevania – Season 1, EUA – 2017)

Direção: Sam Deats
Roteiro: Warren Ellis
Elenco (vozes originais): Richard Armitage, James Callis, Graham McTavish
Gênero: Animação adulta, Gótico, Terror, Aventura
Duração: 24 min/episódio.

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