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Nicolas Cage é um daqueles atores hollywoodianos cuja canastrice em cena é tanta, que não podemos deixar de nos divertir com sua inocência performática. Não é à toa que ele é lembrado por suas rendições não tão aplaudíveis – mas memoráveis pelos motivos errados – de longas-metragens como O Sacrifício, A Lenda do Tesouro Perdido e Motoqueiro Fantasma, obras que definitivamente poderiam ser esquecidas do panteão cinematográfico contemporâneo por inúmeras razões. Entretanto, não podemos deixar de mencionar algumas tentativas menos convencionais do ator em querer sair de sua linear zona de conforto como forma de se entregar a um novo escopo e uma nova faceta nunca concretizada, mas que até dá alguns sinais de vida.

E é justamente isso o que acontece em Cidade dos Anjos, uma história tão sutil que passa despercebida por grande parte dos espectadores. Não, não estou me referindo aqui à extensa poeticidade trazida pelo diretor Brad Silberling ou às metáforas delineadas pela relação além-mundo dos protagonistas – ainda mais porque tais elementos nem sequer existem de verdade dentro dessa arquitetura fílmica; refiro-me, aqui, a uma premissa inofensiva e que poderia traçar os mesmos passos dos romances românticos ou obras do nicho, quem sabe ousando pender para uma dramédia bem estruturada. No final das contas, infelizmente essa puerilidade dá margem a uma pretensão descomunal que o transforma em uma bola de neve desnecessariamente monótona.

A trama principal gira em torno de um anjo que se autodenomina Seth (Cage), cuja missão é simplesmente facilitar o término da vida terrena dos seres humanos e acompanhá-los para o outro lado do plano universal. Sua composição artística já se afasta dos convencionalismos religiosos e iconográficos desse tipo de personagem, optando pela utilização de um vestuário dark, com a entrada de uma longa capa preta, e que os deixa mais contemporâneos em relação à delineação original – roupas brancas, asas imponentes e a auréola brilhante. As coisas mudam de significado quando Seth cruza caminhos com a emocionalmente flagelada Dra. Maggie Rice (Meg Ryan), a qual tenta constantemente burlar as regras do Destino e da Morte e acaba se encontrando num ciclo interminável de perda e dor, mesmo que realize seu trabalho com o maior profissionalismo possível.

Ao que indica a concepção do primeiro ato, temos dois pontos de vista que, a priori, se contrapõe, mas que com o decorrer da narrativa, irão se fundir e se complementar: o primeiro busca uma reflexão mais sobrenatural e pautada pela fé, representada pela persona de Seth; o segundo é reafirmado constantemente por Maggie, sua crença inabalável na ciência e suas explicações metódicas que a transformam em um objeto prático e estigmatizado daquilo que sempre defendeu. Não digo aqui que existe um lado certo e outro errado, e sim que essa dualidade logo se choca e começa a inverter os papéis à medida em que a doutora percebe que pode abandonar alguns de seus vícios laborais em nome de uma vida mais “humana”, enquanto o anjo desenvolve sentimentos terrenos – como, por exemplo, o amor e o desejo.

Basicamente, temos a velha história do amor impossível entre duas criaturas muito diferentes entre si – ainda que não chegue aos exageros do recente A Forma da Água. Silberling, em conjunto à roteirista Dana Stevens, poderia ter transformado a narrativa original alemã em algo mais fabulesco, beirando as impossibilidades dramáticas em prol de uma mistura do fantástico com o real; mas aqui, optar por essa investida mais certeira é totalmente descartado para planos e enquadramentos excessivamente aéreos que deixam o longa-metragem com a roupagem de um videoclipe de baixo orçamento de meados de 1990. E isso não é tudo: além dessa pífia estética, não percebemos qualquer preocupação do diretor em reduzir a saturação imagética com uma montagem adequada, o que apenas aumenta o ritmo lento e a monotonia em cena.

É muito provável que o público, acostumado a tais histórias, consiga imaginar o que acontece depois disso. Seth se apaixona por Maggie e se vê num beco sem saída até tomar conhecimento de um curioso paciente da doutora chamado Nathaniel Messinger (Dennis Franz), que misteriosamente sente a presença do anjo por um simples fator: ele também já foi um e renegou sua condição sobre-humana para viver como um daqueles que sempre protegeu, constituindo uma família, porém nunca se esquecendo de sua vida passada. Logo, Seth vê em Nathaniel uma possibilidade de seguir seus passos e ficar mais próximo da mulher que passou a amar, ainda que os sentimentos da mesma estejam confusos e ela não saiba o que pensar ao certo.

Por mais que o personagem de Franz aparente ser insosso e irritadiço, ele rapidamente se torna um necessário escape cômico para a densa e complexa atmosfera que Silberling tenta criar aqui, mostrando que até mesmo o mais sério dos anjos pode ceder aos luxos e às divertidas banalidades da vida humana. Esses poucos ápices são menos frequentes do que deveriam ser e, no geral, são desperdiçados para criar saídas formulaicas para seus protagonistas, incluindo uma subtrama de separação, reencontro e arrependimento – tudo muito clichê e que beira o risível em certos momentos.

O final feliz é certeiro, ainda mais tratando-se de um romance; apesar de tudo seguir um padrão incessantemente irrefreável, não podemos tirar o mérito de Ryan em tentar fazer de um personagem simplório algo que vá além das nossas expectativas, seja pela presença inusitada do voz-over ou por suas inócuas propriocepções, seja dentro dos espaços em que é a grande protagonista, seja dentro do arco que cria para a mulher que encarna. Mesmo com tantas tentativas, a química entre ela e Cage é praticamente inexistente e não desperta nem mesmo a fagulha mais esparsa de credibilidade.

Cidade dos Anjos é um filme que promete mais que cumpre. Não há muito a se dizer sobre uma obra pretensiosa – apenas que, com uma tristeza quase intangível, ela morre na própria metáfora vencida.

Cidade dos Anjos (City of Angels, EUA – 1998)

Direção: Brad Silberling
Roteiro: Dana Stevens, baseado no roteiro original de Wim Wenders, Peter Handke e Richard Reitinger
Elenco: Nicolas Cage, Meg Ryan, Andre Braugher, Dennis Franz, Colm Feore, Robin Bartlett, Joanna Merlin, Sarah Dampf, Rhonda Dotson
Gênero: Romance, Drama
Duração: 114 min.

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