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Tchaikovsky foi um grande compositor russo que viveu até os 53 anos. Durante sua vida compôs inúmeros concertos, sinfonias, óperas e balés sendo os mais famosos “A Bela Adormecida”, “O Quebra Nozes” e “O Lago dos Cisnes”. Mesmo com grande prestígio na carreira, levava uma vida pesada e triste, provavelmente as causas de suas músicas inquietas e revoltadas. Ele era homossexual e como todo gênio, era louco. Apesar de sua vida curta, deixou um enorme legado para humanidade. Suas músicas encantam e emocionam todos que já as ouviram pelo menos uma vez na vida e, aproveitando este legado, Darren Aranofsky reinterpreta “O Lago dos Cisnes” em “Cisne Negro” um filme que certamente deixará seu queixo caído.

Nina é uma bailarina excepcional que trabalha em uma companhia de balé em Nova Iorque. Um dia, um diretor renomado de óperas aparece em sua companhia e convoca todas as bailarinas para fazer um teste para sua mais nova reinterpretação de “O Lago dos Cisnes”. Para conseguir o papel, Nina terá que fazer o Cisne Branco – um papel que exige leveza e inocência, porém também terá que interpretar o Cisne Negro – malicioso e sensual. Por fim, Nina consegue o papel principal da peça, mas tudo isso pode acabar quando outra bailarina, Lily, chega e se encaixa perfeitamente para o papel de Cisne Negro. Isto resulta uma rivalidade extrema entre Lily e Nina que passa a dar tudo de si para aperfeiçoar seu Cisne Negro e garantir seu papel de Rainha dos Cisnes.

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O cisne psicológico

O roteiro de Mark Heyman e Andres Heinz surpreende a cada instante, deixa o espectador apreensivo, ansioso e aflito a respeito do desfecho da jornada de Nina. Tudo começa com seus personagens ricos e traumatizantes. Nina é infantilizada e superprotegida pela mãe – e aparentemente virgem. O resultado disto é sua obsessão por competir e ser a melhor no que faz, sempre buscando a perfeição. Fora isso, assume uma viciante covardia em seus erros, desculpando-se por nada. Graças a essas características, torna-se obcecada para fazer a melhor apresentação já vista do Cisne Negro e tem muita dificuldade, em ser sensual, graças ao olho zeloso e doentio de sua mãe, que insiste em tratá-la como menina. E conforme o roteiro evolui, a personagem vai ficando cada vez mais louca e centrada em seu papel – o famoso caso que o ator não sai do personagem, vide Heath Ledger. Para completar, também sofre de uma suspeita cleptomania.

Lily é uma espécie de antagonista não assumida da história. Ela enxerga as fraquezas de Nina e as utiliza para deixá-la mais paranóica, tentando tirar o papel da protagonista. O diretor do balé, Thomas Leroy, aproveita e assedia sexualmente as bailarinas que permitem que ele as faça de objetos sexuais para conseguir os principais papéis das peças. E por fim a personagem mais rica, a mãe de Nina, Erica. Uma bailarina que desistiu da carreira graças à gravidez precoce. Arrependida pelo passado desconta em Nina sua indignação e a obriga (indiretamente) com terror psicológico a ser a melhor da companhia. O interessante de Erica é que no início da projeção o espectador é influenciado a odiá-la por causa do tratamento que dá a Nina. Mas durante o filme, Nina fica paranóica completa (louca mesmo) e sua mãe parece ganhar mais sanidade em compensação, ou seja, há uma inversão de papéis entre mocinho e vilão. Típico de loucura a dois (folie à deux).

O roteiro é ousado por adentrar um universo que poucos filmes já tentaram – o do balé. No caso, é retratado com uma atmosfera extremamente competitiva, cheia de assédios sexuais e psicológicos, inveja entre as bailarinas, o abandono de artistas antigas e o esforço físico que elas realizam. Ele também cita a rotina “ritual” das moças: costurando sapatilhas, trocando solas, atando os dedos dos pés com esparadrapos, estalar os dedos, os pés calejados e os problemas de juntas.

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Elenco formidável

Não é por menos que Natalie Portman foi indicada ao Oscar deste ano — ela está absolutamente incrível! Após anos trabalhando com George Lucas e sua inexpressiva Padmé Amidala, finalmente recebe um papel capaz de mostrar seu valor. Portman criou um psicológico profundo para sua personagem, sempre fazendo caretas de choro e de fragilidade. Vale destacar o trabalho que ela teve para aprender a dançar o magnífico balé apresentado nas telas, mesmo tendo estudado balé desde os quatro anos de idade. E, claro, o maior destaque do filme durante o clímax onde sua expressão facial e corporal muda por completo, dando uma elegância e dramaticidade estonteante para a cena. Certamente, entregou-se de corpo e alma para esse papel.

Mesmo com uma protagonista incrível, os coadjuvantes não fizeram feio. Vincent Cassel está muito bem como o tarado da companhia. Ele exclama suas frases de maneira interessantíssima, como se fossem chibatadas estalando nas costas de Nina, sempre a provocando de alguma maneira para tirar o melhor dela (nos dois sentidos). Mila Kunis está progredindo em sua atuação – ainda não atingiu seu melhor desempenho, mas sua química com Portman é ótima, vide a cena ousada e erótica do filme. Sua personagem é o oposto de Nina, é extrovertida, mentirosa, drogada, desleixada, sensual e perfeita para ser o Cisne Negro na peça.

Barbara Hershey merece um destaque porque ela é quem rouba a cena a todo instante. Seu amor doentio pela filha dá calafrios a quem assiste. Ela também é superbipolar e chantagista com Nina. Sua relação com a filha é sempre interessante, passa de uma calmaria para um tom ameaçador com um timing perfeito. Outra atriz que deve ser lembrada é Ksenia Solo (Veronica), seus olhares maliciosos e cheios de ódio para Portman são obras de mestre. Winona Rider também aparece no meio do longa com direito ataques de estrela e esfaqueações faciais.

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A beleza do cisne

Indicado ao Oscar, Matthew Libatique é um mestre de fotografia. Se não era, tornou-se. Durante o início do filme, ele filma tudo no estilo a là handycams que deixa a imagem instável a todo instante. Isto resultou em lance físico entre filme/espectador como se nós estivéssemos acompanhando todo o esforço de Nina como um personagem da trama. Conforme o filme se desenvolve, ela começa a ficar estática de pouco a pouco e deixa as tremidas de lado, distanciando o espectador da protagonista quando ela atinge sua meta e vira um ser intocável e “perfeito”.

Ele desafia o maior medo de todos os fotógrafos que se prezem – os espelhos. Seu trabalho com os espelhos é inacreditável, achando ângulos impossíveis para a câmera não aparecer (ou foi removida digitalmente). Esses espelhos ampliam o cenário, a profundidade das cenas e deixam o espectador perdido entre os rodopios de balé de Portman.

Além disso, insere diferentes tipos de iluminação. Repare que no apartamento de Nina tudo é sombrio e obscuro, na companhia a iluminação é clara e, subitamente, fica melancólica nos acessos de loucura da garota. E, por fim, ela assume descaradamente um modelo teatral na primeira cena do filme e durante seu clímax – nesta parte ocorre o plano mais bonito que já vi na vida (quase tive um infarto).

A direção de arte consegue ser tão soberba quanto à fotografia. Em todos os cenários da companhia, há constante contraste entre o branco e o preto, inclusive nos figurinos, enquanto Nina usa um uniforme branco rosado, Lily veste um preto escuro, ou seja, uma bela personificação do bem e do mau, do ingênuo e do esperto, etc. Também realiza um trabalho incrível na casa de Nina, especialmente em seu quarto infantil e no atelier sinistro de Erica.

Os efeitos visuais apesar de distintos e seletos são elegantes e bem executados. As tatuagens, as pinturas e a metamorfose animada da pele da protagonista são magníficas, fora a animação do clímax que é de tirar o fôlego.

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O renascimento de Tchaikovsky

Clint Mansell entregou um trabalho inacreditável em suas composições. Finalmente um filme assume a música clássica como principal atração e fazia tempo que isso não acontecia. Elas conseguem instigar o espectador a cada cena e perturbá-lo aos poucos entrando literalmente na loucura de Nina.

Várias vezes as belas sinfonias de Tchaikovsky são utilizadas. Para quem conhece, sabe que as músicas dele começam calmas e lentas, mas durante um milésimo de tempo tudo fica agitado e barulhento.  Uma verdadeira gama de sentimentos. Todo esse emocional do compositor, foi muito bem utilizado no filme e dá para sentir a turbulência de emoções de Tchaikovsky durante o filme.

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And the Oscar goes to…

Darren Aronofsky é um diretor masoquista. Ele perturba o espectador psicologicamente e fisicamente, atormentando-o aos poucos e deixando-o em eterna aflição até o fim do filme, exatamente como em O Lutador. Aronofsky adora expressar a violência de seu filme através dos seus closes fechados nas feridas de Nina.

É ousado em suas cenas de sexo quase explícito. Até as de suspense são extremamente bem dirigidas e nunca entregam o mistério logo de cara para o espectador, ou seja, o desfecho de cada cena é imprevisível.

Seu olho supervisor na edição é eficiente e milimetrado. E o resultado disto é um filme extremamente fluido embora perturbador, o mais legal da edição é que ela sempre contextualiza com a música ou com a própria cena com uma sincronização perfeita.  Infelizmente, preferiu cortar boa parte da apresentação final do ballet o que foi realmente uma pena. Portman solta uma frase no fim do filme: “I was perfect…”. Sim Aronofsky, este filme provavelmente foi a obra de sua vida, mas não duvido nada que este diretor surpreendente nos encante com outra história outra vez.

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O Baile do Cisne

Não perca seu tempo se perguntando se vale à pena ou não assistir uma obra-prima como esta, simplesmente vá. Ele é pesado, masoquista, perturbador e fará você refletir durante algumas boas horas. Lembre-se que esta é uma experiência cinematográfica. Ou seja, o filme não terá o mesmo impacto, principalmente a música, se você assisti-lo por meios indignos da internet.

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