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É curioso assistir a um filme de Éric Rohmer quando ainda estava no início de sua carreira como O Joelho de Claire e partir imediatamente para outro como Conto de Verão, uma de suas últimas obras. Embora seja um salto espetacular de vinte seis anos e diversos filmes entre eles, há uma jovialidade intelectual e cinematográfica que fornecem a errônea impressão de terem sido feitos no mesmíssimo ano.

Rohmar esbanja talento para tratar das mazelas intrincadas do amor e Conto de Verão é apenas mais uma excelente prova disso. Como todos seus filmes, o conceito é muito simples: um amor de verão. Só que dessa vez, são três amores ao mesmo tempo e como isso afeta a vida um confuso e imaturo homem.

Mulheres Difíceis, Homem Insolente

Neste conto pertencente a sua série temática das quatro estações, Rohmer nos traz a história de Gaspard (Melvil Poupaud), um recém-graduado em Matemática que decide tirar um mês de férias em Dinard, esperando que sua nem tão namorada apareça na cidade litorânea para aproveitar alguns dias com ele. Se decepcionando com a constante ausência de Lena (Aurelia Nolin), Gaspard se aproxima cada vez mais de Margot (Amanda Langlet), uma garçonete local que acaba firmando amizade. Mas o destino reserva diversas surpresas que traem sempre as expectativas de Gaspard em relação a seus confusos casos amorosos.

Apesar de Conto de Verão ser apenas o segundo filme que vi da vasta filmografia de Rohmer, existem características marcantes sobre o tratamento que dá para seus jovens personagens masculinos. Aqui, se comportando dentro do habitual, o roteirista traz um rol de quatro personagens bem delineados e distintos.

É particularmente surpreendente que Rohmer, já um homem idoso nessa altura, consiga criar diálogos tão críveis e pertinentes aos conflitos da juventude. O roteirista testa nossa paciência com Gaspard no início, trazendo um retrato absurdo de um rapaz muito chato e deprimido que se faz de coitado a todo momento. Isso é exposto sempre nos diálogos em diversas caminhadas tranquilas com Margot, uma menina muito mais madura e paciente, mas que cai nas graças do “papel” que Gaspard apresenta a ela: o do trágico garoto cabisbaixo de coração partido.

Como bom contador de histórias, Rohmer sabe que não deve abusar tanto dessa chatice de seu protagonista e da situação confortável que a pseudo-depressão oferece. Logo, surge um terceiro elemento nesse conflito: a bela morena Solene (Gwenaelle Simon), amiga de Margot, que atrai a atenção de Gaspard. Rapidamente, contrastes brutos são estabelecidos entre as duas mulheres que conhecemos em tela.

Margot, sendo a madura e bastante intelectualizada, contra Solene, a jovem de sonhos eróticos masculinos. Como sempre, Rohmer evita os estereótipos e nunca adota clichês para essas personagens, por mais que elas entrem no senso comum visual que o cinema americano adota. Solene, apesar de ser mais imediata e desinibida, não se oferece para Gaspard, mas sim é conquistada por um retrato oposto que o jovem havia desenhado para Margot.

Com Selene, o protagonista adota uma postura mais altiva e alegre, apresenta suas composições musicais e até mesmo dedica uma para ela. Parte para outras aventuras e conhece seu núcleo familiar. É partir daqui que Rohmer nos acena sutilmente e diz: não confie no meu protagonista. O roteirista, apesar de não fazê-lo ativamente, busca condenar o clássico “bonzinho cafajeste” que consegue fisgar diversas mulheres ao desempenhar o papel que elas esperam dele, transformando suas qualidades assim como um camaleão muda de cor.

O mais intrigante é que Gaspard, por sua ingenuidade e desejos fúteis de fáceis, não consegue ser um sedutor competente, se atrapalhando constantemente me manejar uma agenda que comporte seus múltiplos casos. Rohmer também não vai por caminhos fáceis para fazer o espectador torcer para uma das três possíveis alternativas de casal se concretizem.

É um jogo realista que foge dos absurdos das “inocentes” coincidências hollywoodianas. O mesmo acontece com a nossa percepção sobre as três moças, já que Rohmer faz questão de poluir nosso julgamento com ações imaturas, problemas psicológicos ou até mesmo com a diferenciação das opiniões que elas têm sobre as outras revelando crueldade e ética de onde não se imaginava.

Através dessa vasta rede de diálogos e ações pontuadas, o roteirista consegue elaborar personagens fascinantes que sempre conseguem elipsar nosso interesse sobre o protagonista cuja final condiz com seu jogo de vaidades repletos de covardia e indecisão. Aliás, um leve foco no tema sobre navegações, marujos e piratas confere um tempero especial para a história desse garoto que prefere ter vários falsos relacionamentos do que um verdadeiro.

Retrato de um Verão

Como disse, praticamente não há distinção na assinatura cinematográfica de Éric Rohmer mesmo depois de tantos anos de filmografia. Ao contrário de diretores que buscam se renovar, o autor se manteve fiel a muitas das promessas que havia feito quando iniciou sua curiosa carreira.

Conte de Verão é mais um filme pequeno, cheio de diálogos com jovens intelectuais – mas nem tanto, que são traídos pela própria língua, enquanto desfrutam as belezas naturais de um paraíso à céu aberto. Em sua abordagem para esse filme em especial, Rohmer traz muito movimento com travellings para acompanhar as constantes andanças de Gaspard com as garotas em diversas praias, campos e ruelas da cidade.

O que sempre me surpreende é a eficácia de Rohmer em capturar um ar delicado de feminilidade, além de conseguir emplacar longas cenas bastante românticas apenas com a interação dos atores – no caso, a cena que acompanhamos Solene aprendendo a cantar a canção que Gaspard compôs, é de uma sensibilidade perfeita. Aliás, o diretor traz boas doses de simbologias visuais sincronizando o clima sempre com os sentimentos retratados em tela. Por exemplo, sempre quando com Lena, ele insere Gaspard em praias mais sujas ou com o tempo fechado, nunca criando nenhuma aura romântica para o casal de “namorados”.

Esse olhar realista com o tratamento da câmera, sempre nos colocando como personagens que observam de uma distancia natural àquelas pessoas, consegue conferir toda a humanidade realista que removem a condição daqueles personagens como meras peças de uma ficção, mas sim da própria realidade.

A Indecisão do Amor

Mesmo muito difícil no começo por conta do protagonista apático, Conto de Verão rapidamente se transforma em uma experiência muito divertida por retratar essa situação inadequada sem qualquer maneirismo, optando pela forma realista e cômica de um problema bizarro criado pela própria insegurança do protagonista.

Assim como a maioria das obras de Rohmer, é um filme que necessita de uma boa disposição do espectador em se identificar e relacionar com os personagens para ver como essas jornadas atrapalhadas terminam. Essa sensibilidade fantástica de Rohmer para com a juventude traz lições valiosas. Tanto para a vida toda quanto para apenas uma aventura romântica no verão.

Conto de Verão (Conte d’été, França – 1996)

Direção: Éric Rohmer
Roteiro: Éric Rohmer
Elenco: Melvil Poupaud, Amanda Langlet, Gwenaelle Simon, Aurelia Nolin
Gênero: Comédia, Romance
Duração: 113 minutos

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