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Crítica | As 4 Aventuras de Reinette e Mirabelle – O Campo encontra a Cidade

O filme mais despretensioso de Éric Rohmer.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
6 de fevereiro de 2018 · 5 min de leitura
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Crítica | As 4 Aventuras de Reinette e Mirabelle – O Campo encontra a Cidade

A filmografia de Éric Rohmer é repleta de clássicos conhecidos e desconhecidos. Alguns deles influenciam cineastas até hoje como O Joelho de Claire cujo espírito estético foi transposto para Me Chame Pelo Seu Nome. Já As 4 Aventuras de Reinette e Mirabelle ressoou diversas inspirações para render a excêntrica obra As Aventuras de Amélie Poulain, um grande favorito de muita gente que admira o Cinema Francês.

O curioso é que Reinette e Mirabelle se trata de um dos longas menos assistidos de Rohmer. Isso pode levar o leitor a acreditar que se trata de um filme cheio de personalidade e firulas visuais como Amélie é, mas estamos falando de Rohmer aqui, um cineasta que quase nunca trai sua assinatura estilística de longas conversas em longos planos distantes.

4 Diferentes Histórias

É bastante nítido que 4 Aventuras seja um dos projetos mais despretensiosos e simpáticos de Rohmer, feito apenas como uma grande diversão. Investindo em um contraste simples, o roteirista nos apresenta Reinette (Joëlle Miquel), uma simples garota de campo que ajuda Mirabelle (Jessica Forde), uma típica garota da cidade grande, a consertar um pneu de bicleta furado. O evento banal dá início a uma bela amizade que gera diversas pequenas aventuras na vida das duas.

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A primeira aventura certamente é a mais romântica delas, além de apresentar com fervor as características rústicas de Reinette, uma garota de gostos simples, completamente apaixonada pelo campo, além de dedicar horas livres dos seus dias para o hobbie de pintura surrealista (apesar de desconhecer todos os pintores do movimento). O mais surpreendente é que Reinette aparenta ser uma analfabeta funcional – apesar de Rohmer nunca deixar isso claro.

O contraste é logo feito com Mirabelle, a parisiense que nunca visitou o campo e se mostra rapidamente interessada em acompanhar Reinette nas corriqueiras atividades da fazendinha, se aproximando da natureza, apesar de deixar claro que nunca conseguiria viver em condições tão rudimentares. Todas as historinhas possuem uma pequena moral e nessa daqui, a mais leve delas, trata-se de aprender a ouvir e filtrar os sons da natureza, valorizando toda a vida de um enigmático ecossistema que nos cerca.

Já encaminhando a segunda história, Rohmer faz Reinette mudar para Paris a fim de estudar um pouco a técnica de pintura para melhorar suas obras. Nesse segmento que começa o choque de realidade para a garota interiorana, aprendendo a lidar com a aspereza e desconfiança da cínica população urbana. Apesar de curta, a história é bastante engraçada e eficiente em desmascarar todo o falso senso comum da civilidade simpática dos parisienses, sendo antipáticos até com seus conterrâneos.

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A terceira história é mais desconexa da linha narrativa normal do filme, como se Rohmer fizesse um enorme desvio para colocar mais seriedade em uma obra divertida. O foco se trata nas diferentes formas de ajudar os outros e sobre as complicações morais de um furto apresentando passagens com um mendigo, uma cleptomaníaca e uma golpista. Esse é o trecho que traz as maiores diferenças ideológicas entre as duas personagens, apresentando pontos de vista que tem suas parcelas de certo e errado, sem inserir um nítido maniqueísmo entre elas. É apenas mais um contraste que Rohmer elabora entre uma ingenuidade idealizada do interior com o cinismo da cidade, reforçando uma mensagem já dita, mas com linhas de diálogos bastante divertidas.

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O trecho final certamente é o mais divertido, já que agora Rohmer direciona suas críticas ao campo intelectual repleto de pedantismo tirando interpretações diversas que quase sempre estão erradas. Marca também o amadurecimento de Reinette que consegue vender seu primeiro quadro, conseguindo se afirmar como artista em um meio tão disputado. O mais curioso desse segmento é a condição imposta a personagem pouco antes dela se encontrar com o esnobe curador da galeria rendendo uma sequência repleta de humor inocente.

Já na direção, Rohmer também busca a simplicidade, sem trazer elementos muito novos ao seu costume cinematográfico cheio de competência. É inegável que 4 Aventuras seja repleto de charme e carisma sustentado pela graça das atuações das atrizes que transmitem as conversas com muita naturalidade em diversas nuances de reações ao que é dito.

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A Subversão da Aventura

O que dá todo o charme a As 4 Aventuras de Reinette e Mirabelle é a bela sacada de Rohmer em subverter o sentido de aventura para mostrar historinhas que parecem banais no nosso cotidiano para transmitir a bonita mensagem de que todo dia se trata de uma aventura, por menores que sem os sentimentos de excitação e deslumbramento.

Apesar de ser um filme tão simples e despretensioso na carreira de um diretor conhecido por personagens densos e histórias repletas de complicadas nuances morais, essa simples comédia evoca muito charme que é capaz de conquistar mais os espectadores que não são fãs de Rohmer, do que os outros que acompanham cada lançamento de sua vasta carreira.

As 4 Aventuras de Reinette e Mirabelle (4 Aventures de Reinette et Mirabelle, França – 1987)

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Direção: Éric Rohmer
Roteiro: Éric Rohmer
Elenco: Joëlle Miquel, Jessica Forde, Philippe Laudenbach, Fabrice Luchini
Gênero: Comédia
Duração: 99 minutos.

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Tags: #Éric Rohmer #Fabrice Luchini
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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