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O que faz de um cineasta, um verdadeiro mestre do cinema? Até 1982, Steven Spielberg já tinha cunhado diversos dos maiores clássicos do Cinema Americano que revisitamos com frequência como Tubarão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Caçadores da Arca Perdida. Ainda fascinado pelo poder emocional que uma boa ficção de aventura pode trazer, o prolífico diretor teve uma grande ideia no meio do set das filmagens de Indiana Jones e logo pediu para Melissa Mathison desenvolver essa história inacreditável do encontro de um garotinho suburbano com um visitante alienígena muito amistoso.

Saindo de um blockbuster milionário que novamente provou a eficácia de Spielberg em fazer dinheiro, o diretor mergulhou de cabeça nessa produção que poderia facilmente se aproximar de um de seus dramas sérios, apesar da inegável estética infantil apaixonante. A verdade é que Spielberg já poderia ser considerado um mestre do cinema – e também da indústria, por conseguir sempre apertar os botões certos para despertar as mais poderosas emoções no espectador. E isso é demonstrado com perfeita aptidão em todo E.T. – O Extraterrestre.

Amizade Imensurável

É difícil encontrar alguém que nunca tenha visto esse enorme clássico que é E.T. Caso não tenha visto, fique tranquilo e vá assistir. Essa crítica nada vai abrilhantar um filme que por si, já é muito eficiente em demonstrar em diversos níveis porque pode ser considerado uma obra-prima. Agora se já assistiu, é sempre gostoso ler e relembrar o quão bela essa história é.

O fato de E.T. emocionar tanto, ocorre por conta da coragem em trazer um drama denso que pesa o valor de uma amizade verdadeira. Spielberg e Mathison já são gênios ao apostar em elementos fáceis para gerar plena empatia e mistério nos primeiros minutos de exibição. Em uma visita para coletar DNA de plantas, os seres alienígenas acabam indo embora na pressa ao serem brevemente perseguidos por forças policiais da cidadezinha.

E.T., infelizmente, se perde de seus colegas e acaba abandonado na Terra. Desnorteado, o ser avança para os bairros da cidade onde acaba invadindo o terreno da família de Elliot (Henry Thomas), um garotinho de dez anos que vive somente seus dois irmãos: Michal e Gertie (Drew Barrymore) e a mãe divorciada, Mary (Dee Wallace). Rapidamente o garoto adota a criatura espacial para si apresentando ao E.T. as maravilhas ingênuas de seu cotidiano enquanto se esforça para esconder o alienígena de sua família, evitando um escândalo.

Há um jogo psicológico profundo e empático para tornar a amizade de Elliot e E.T. tão verdadeira e forte: ambos foram abandonados por aqueles que amavam. Mathison e Spielberg não martelam o luto que Elliot vive pelo divórcio e a completa falta de interesse do pai pelos filhos, mas é um drama que permeia toda a relação familiar desconjuntada dos personagens principais. Elliot culpa a mãe e não compreende o funcionamento cruel da vida conjugal falida e Spielberg é mestre em criar situações nas quais palavras não precisam ser ditas, afinal também era um traumatizado pelo divórcio tardio dos pais.

Em um momento do longa, após uma discussão firme entre Elliot e Mary, Spielberg encerra todo o argumento ao colocar a mãe, também muito fragilizada pela situação e exaurida pelo trabalho de criar três filhos sem ajuda, a lavar as louças e rapidamente cair em prantos. Em essência, E.T. é um filme sobre separação, amargor, luto e superação. O alien rapidamente se torna um bom substituto de figura paterna para Elliot, apesar do garoto se tornar responsável pela criatura, compreendendo um pouco mais do trabalho da paternidade, afinal ele precisa cuidar e alimentar seu novo amigo.

Os laços de amizade se fortalecem conforme os dois trocam experiências particulares entre si que permitem a criação de momentos absolutamente inesquecíveis em toda a cinematografia de Spielberg. A troca de experiências supre a ausência dos entes amados na qual ambos se tornam autossuficientes de afeto e carinho com atenção trocada entre eles: vemos Elliot mostrar seus brinquedos e E.T. mostrar magias da telecinese até as trocas se desenvolverem em simples e puro cuidado como curas de machucados, banhos divertidos, maquiagens inusitadas e a perpetuação de um girassol já moribundo.

A escalada das trocas chega ao ápice da sinergia quanto a conexão entre E.T. e Elliot fica tão forte que ambos passam a sentir as sensações do outro. Logo, em uma das sequências mais memoráveis na qual Spielberg consegue homenagear o cinema clássico, brincar com a montagem e ainda trazer um espírito apaixonante, temos E.T. ficando bêbado após beber umas cervejas, deixando Elliot totalmente embriagado provocando o caos na aula de biologia ao libertar diversas rãs que seriam dissecadas, além de dar um inesquecível beijo em uma colega de classe.

Spielberg traz o melhor da montagem paralela intercalando as ações de Elliot diretamente com o filme que E.T. assiste enquanto aproveita a tarde na casa do garoto. Há até mesmo uma gag visual imprópria ao aliar o romantismo da Hollywood Clássica com a pose da menina beijada para então inserir uma rã ensopada pulando entre as pernas dela… É o espírito destemido da Nova Hollywood o que nos leva diretamente ao próximo ponto.

Subversão do Sistema

Spielberg e Mathison elevaram o intelecto dos filmes considerados como “infantis” para a época ocasionando uma das revoluções no gênero que afetaram produções até mesmo da Disney. O fato é que mesmo sendo uma história bastante simples que adora apontar quais eventos vão acontecer com pistas nada sutis como o fraquejar do E.T. por conta do ecossistema estranho a ele e da inevitável separação dos dois amigos, ele também é um longa bastante imprevisível.

O diretor nos engana constantemente para apresentar um conflito exterior que sempre ameaça a permanência de E.T com Elliott: o “vilão” sem nome, Keys. Essa figura misteriosa, sempre filmada em planos próximos que evidenciam o molho de chaves, nunca revelando a identidade antes da hora, é apresentada na primeira sequência da obra como um perseguidor do alienígena, indicando ser um integrante do governo que pretende fazer maldades na criatura.

Esse retrato tão firmemente construído é eficiente para sempre deixar a aura de paz na casa de Elliott depois da chegada do novo amigo bastante fragilizada. Logo, o espectador sempre teme pela captura do bicho. E de fato isso é sustentado por boa parte do segundo ato, o mais agitado com cenas de ação fantásticas envolvendo a fuga dos garotos montando bicicletas conseguindo driblar todos os bloqueios policiais até culminar nas fantásticas cenas de voo nas quais o diretor confere elementos sobrenaturais de uma superlua (encanto, despedida, esperança e magia) e um supersol que se põe ao fundo (pessimismo, medo, crepúsculo de uma amizade).

Essa falsa percepção do público com Keys só é desmontada quando a organização enfim consegue capturar E.T., já muito doente – aqui, Mathison, sutilmente, infere que se E.T. morrer, Elliott também compartilhar o mesmo destino inserindo maior urgência para curar a criatura. Spielberg, apesar de utilizar um design artístico bastante estéril para essa sequência, é muito feliz em quebrar essa frieza artificial com uma montanha-russa de emoções envolvendo a “morte” da criatura, da despedida de Elliott até a revelação dos sonhos de infância de Keys que sempre quis conhecer um extraterrestre provando que não estamos sozinhos no universo até a culminação da ressurreição do alien.

É igualmente curioso que Spielberg, apesar de criar momentos icônicos, deixa o espetáculo Chapman crane, sua assinatura estilística, um pouco mais em escanteio. Ele reconhece que o longa precisa de um tom mais intimista, quieto e contemplativo que necessita de maior tempo de planos, além de movimentos sutis de câmera, evitando chamar a atenção para si.

Afinal, qual seria o sentido disso já que o espetáculo é justamente a presença de E.T.? De fato há muita lógica nesse raciocínio porque a construção inteiramente prática da criatura a torna extremamente real, além de seu design ser de fato bastante feio e enrugado, consegue expressar tremenda humanidade com seus olhos imensos repletos de emoções incríveis – basta relembrar o primeiro encontro de E.T. com Elliott no matagal no qual os dois berram com medo um do outro.

O rigor técnico é realmente espetacular em E.T., mas não somente pelo talento envolvido com o elenco mirim muito eficaz, da direção de Spielberg que sempre nivela a câmera em alturas baixas para deixar o olhar do espectador aproximado ao ponto de vista dos pequenos personagens, e também da eficácia dos profissionais de som e efeitos visuais práticos.

O grande responsável por tornar a experiência cinematográfica realmente completa é John Williams e sua trilha musical inesquecível. Com composições esplendorosas, Williams consegue emocionar o espectador com as melodias de vida e vibração, apostando em peso no estilo Romântico. É uma fé tão grande que Spielberg tem em seu compositor que fecha seu longa com a culminação sonora e visual mais vibrante da obra até então trazendo uma experiência indizível, mas puramente cinematográfica.

Amor de Outros Tempos

Talvez, nos tempos cínicos que vivemos, E.T. seja piegas e antiquado ao trazer uma mensagem tão bonita sobre sacrifício, amizade e laços familiares. Porém, àqueles que foram tocados de modo pessoal e profundo pelo filme sabem o valor imensurável que ele possui na memória afetiva. Não somente porque é belo e emocionante, mas também pelo próprio valor cinematográfico da obra.

E.T. é um grande clássico por conta desse enorme efeito que traz ao espectador. Tudo isso conquistado por um Spielberg que conseguiu exorcizar boa parte de seus traumas ao transformar o luto pesaroso em algo maravilhoso e edificante. No fim, o E.T. sempre estará nos corações daqueles que realmente o compreendem.

E.T. – O Extraterrestre (E.T. the Extra-Terrestrial, EUA – 1982)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Melissa Mathison
Elenco: Henry Thomas, Dee Walace, Drew Barrymore, Peter Coyote, Robert MacNaughton, Sean Frye
Gênero: Drama, Infantil, Ficção Científica
Duração: 120 minutos.