» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Há um certo clichê nas carreiras de grandes diretores de cinema: em certo ponto, há uma certeza que farão um filme sobre guerra. Isso já aconteceu na vida profissional de Stanley Kubrick, Steven Spielberg, Ridley Scott, David Lean, Clint Eastwood, Francis Ford Coppola, Terrence Malick, Christopher Nolan, entre tantos outros.

De muitas formas, Gallipoli foi um divisor de águas para a carreira de Peter Weir. Esse seria seu primeiro filme realmente de gênero, feito com um orçamento expressivo, teria que encarar o cinemascope pela primeira vez, além de abordar a narrativa de modo muito mais concreto do que havia feito com os irregulares Picnic na Montanha Misteriosa e A Última Onda. Fora isso, teria que honrar seus ancestrais australianos pela trágica Campanha de Galípoli na costa da Turquia durante a Primeira Guerra Mundial.

Toda essa pressão poderia render com muita facilidade um gigantesco desastre e o fim da carreira de um diretor repleto de potencial. Felizmente, não foi isso o que aconteceu. O primeiro grande filme de Peter Weir é um documento poderoso sobre a guerra, além da perfeita demonstração de seu domínio cinematográfico.

A Guerra da Inocência

Peter Weir trouxe a ideia original de Gallipoli para ser tratada posteriormente por David Williamson. Aqui, Archy Hamilton (Mark Lee) um jovem atleta corredor repleto de potencial para entrar na História do Atletismo, aspira em entrar no exército australiano para combater a Tríplice Aliança em 1915. Indo contra os desejos de sua família, o garoto desiste de seus sonhos para honrar a pátria. Em seu último evento esportivo, Archy acaba conhecendo Frank Dunne (Mel Gibson em um de seus melhores papéis), outro jovem atleta tão rápido quanto ele.

Em questão de pouco tempo, os rivais na corrida tornam-se grandes amigos e decidem, então, se alistar juntos na ANZAC para ajudar as tropas localizadas em Galípoli. Porém, toda essa bravura repleta de ingenuidade será esmagada diante da enorme opressão e imbecilidade da Guerra.

A terceira tentativa de Weir em formar uma boa história é espetacularmente bem-sucedida. Se antes o diretor/roteirista sofria muito com a falta de foco, aqui finalmente temos um bom protagonista que sustenta o interesse do espectador, além de gerar a empatia necessária. O conflito de sacrifício dos sonhos é sempre muito eficaz e por Archy ser um personagem tão inocente e vivaz, já se torna minimamente complexo, apesar de seu desenvolvimento ser bastante estacionário até a drástica conclusão depressiva da obra.

Já Frank é bem mais malicioso que Archy, principalmente por ser mais velho. O personagem é mais carismático, mas também preserva um lado infantil a respeito de seu orgulho. Ao contrário do protagonista, ele não tem o menor desejo de ir à Guerra, lançando críticas certeiras sem qualquer viés ideológico apenas apontando que não faz o menor sentido a Austrália entrar em uma batalha que nada tem a ver com a pátria.

Com uma dinâmica excelente para mostrar todo um segmento a la road movie, vemos a amizade florescer em diálogos críveis muito bem escritos. Felizmente, os roteiristas não preservam a dupla por muito tempo, facilitando a jornada e já indicando como a Guerra não se importa com as relações afetivas construídas na camaradagem. Enquanto Archy entra para a Cavalaria, Frank é recrutado para a Artilharia na qual reencontra alguns de seus velhos amigos também repletos de inocência e entusiasmo para ir ao front.

O segundo ato inteiro é concentrado no treinamento dos soldados em uma base no Cairo, também evocando todo o exotismo que Peter Weir vai adorar trabalhar em tantos outros filmes seguintes. Certamente esse é o trecho mais cômico com situações bobas para descontrair o clima já um pouco mais pessimista da jornada. A passagem pelo Cairo funciona muito bem como uma representação da “adolescência” dos personagens. Há o escapismo e entusiasmo, mas algumas responsabilidades começam a surgir, indicando a realidade da Guerra. É também próximo ao fim desse trecho que temos o reencontro de Frank com Archy, fazendo de tudo para conseguirem ficar juntos no mesmo batalhão quando forem enviados a Turquia.

Como podem perceber, Weir delineia uma história absolutamente simples, conferindo peso aos personagens com muita cautela para apostar ferrenhamente na força da amizade dos protagonistas. É algo corajoso, pois 2/3 do filme estão concentrados em situações pouco empolgantes para chegar até a Guerra. A jornada é o item mais precioso e divertido de Gallipoli. Quando enfim o terceiro ato se inicia, há bastante estranhamento, pois todo o exército está concentrado abaixo de um enorme barranco, sem a menor possibilidade dos inimigos entrincheirados conseguirem acertá-los.

Apesar dos constantes bombardeios, Weir traz uma dinâmica única para a situação absurda. Os soldados se divertem na praia e ainda não conhecem o tremendo impacto da batalha – uma abordagem fresca para o ritmo torturante da guerra das trincheiras. Após construir bem esses laços, finalmente é chegada a hora do impacto da violência para destruir esse bom trabalho. De modo bastante previsível, mas muito competente para encaixar outra violenta crítica ao comando britânico na estratégia contra os turcos, a história se encerra.

Simples, eficiente e emocionante. Regras que Weir seguiria à risca em seus próximos projetos focados em trazer retratos humanos bem emoldurados, conflitos pertinentes e um realismo tocante que sempre vai mexer com o espectador. É um excelente manipulador de emoções e um grande contador de histórias – principalmente pela imagem.

A Conquista do Nome

Na vida de qualquer artista, o nome é seu legado e sua marca. É preciso muito esforço e talento para que um grande artista seja reconhecido ainda em vida – tanto que temos inúmeros casos de pintores famosos que morreram sem qualquer prestígio quando vivos. Felizmente, com o cinema, ótimos diretores já ganham devido reconhecimento – isso antes da máquina do hype que domina os lançamentos contemporâneos.

Ao longo de toda sua carreira, Peter Weir conseguiu conquistar bom prestígio, ainda que seja um diretor muito esquecido hoje. Como havia dito, Gallipoli foi a primeira vez que Weir foi realmente testado pela gigante máquina do Cinema. Assim como os protagonistas, o filme marca um gigante amadurecimento de Weir se comparado aos dois filmes anteriores que se aproximavam do experimental.

Diversos dos erros que cometia anteriormente não são vistos em Gallipoli. Aliás, Weir consegue enganar muita gente dando impressão do longa ser bastante caro devido a opulência imagética e do bom cuidado com enquadramentos sempre muito bem equilibrados. É surpreendente o quão belas são as imagens que Weir traz em conjunto de seu diretor de fotografia Russell Boyd.

No primeiro ato, há muito amor investido pelas belas paisagens naturais do outback australiano, da terra vermelha, do céu azul resplandecente e das longínquas montanhas ao fundo. É como se Weir simplesmente quisesse dar um look a la Lawrence da Arábia para seu filme – aliás, todo o segundo ato traz poderosas imagens que remetem o clássico de David Lean. O efeito é realizado através de diversos enquadramentos distantes que mostram a pequeneza das figuras humanas em vasto contraste com a topografia natural do lugar.

Aqui, enfim, Weir usa uma de suas assinaturas autorais para enriquecer os personagens através da imagem. Muito disso é investido com Archy, um jovem bastante simples e pobre sem muita perspectiva além do atletismo. Também, na sequência da segunda corrida, é de suma importância notar a pose que o personagem faz ao cruzar a linha de chegada, pois, posteriormente, Weir replica a mesma expressão corporal para encerrar o filme, mas em um contexto totalmente diferente, potencializando com muita força a mensagem anti-guerra. É uma imagem inesquecível.

O encerramento do segundo ato também preserva uma boa identidade do clima escapista da obra. Weir aproveita ao máximo para conferir tremenda personalidade ao grupo para que fiquemos apegados a todos eles. Talvez, o verdadeiro único problema que Weir tenha em Gallipoli seja no ritmo arrastado do terceiro ato. Obviamente, ele tenta replicar a estranheza de O Mais Longo dos Dias com a morbidez e monotonia da guerra das trincheiras, mas permeia com cenas que prejudicam a obra como um jogo insano dos soldados para nadar perto de onde as bombas caem.

É óbvio que Weir preserva a ingenuidade boboca dos personagens com essas cenas ainda ignorantes sobre os horrores da Guerra, mas isso já havia sido feito com toques sutis em passagens anteriores. Também não há muita ajuda da inspirada trilha musical bastante datada que invade cenas importantíssimas do filme com temas repetidos. Isso ocorre até mesmo no clímax – único momento que Weir usa a montagem para conferir extrema tensão em uma clássica situação de corrida contra o tempo, prejudicando um pouquinho o tremendo impacto final.

Há também alguns errinhos bobos como a falta de atenção com um figurante presumidamente morto no campo de batalha, mas que claramente se mexe, respira e pisca. Entretanto, Weir é bastante esperto em filmar as cenas de tiroteio sob um eixo único e no mesmo ponto de vista. As investidas suicidas ordenas da ANZAC sob ordens dos britânicos, se assemelham muito com a decupagem clássica de uma transmissão olímpica de uma corrida de cem metros rasos. É algo único na linguagem de Gallipoli revelando toda a sensibilidade artística de Peter Weir com sua obra.

Jornada da Morte

Gallipoli não se trata de um filme de guerra como qualquer outro. O enorme foco narrativo dado para a jornada, permitindo que os personagens sejam bem explorados e estabelecidos, tornam essa experiência bastante única. A influência do longa foi tão grande na vida de Mel Gibson que é possível traçar semelhanças narrativas entre Gallipoli e o excelente Até o Último Homem.

Há sim algumas manobras históricas que Weir realiza para fazer um jogo maniqueísta e bastante artificial entre os australianos e britânicos que tiram a acuidade histórica da obra – hoje, Weir se arrepende bastante de ter feito isso. Mas, no final das contas, o que realmente vale em Gallipoli é a bela expressão artística tão bem construída para focar na pureza da amizade destroçada pela indiferença da guerra.

Gallipoli (Idem, Austrália – 1981)

Direção: Peter Weir
Roteiro: Peter Weir, David Williamson
Elenco: Mel Gibson, Mark Lee, Bill Kerr, Robert Grubb, David Argue, Bill Hunter
Gênero: Drama, Guerra
Duração: 110 minutos.

Comente!